Cervejeiros de Portugal: "Em Espanha os produtores de cerveja pagam menos de metade em impostos"

Francisco Gírio, secretário geral da Associação de Cervejeiros de Portugal lembra que o setor, que está a crescer, dá emprego a 50 mil pessoas e pede ao Estado que baixe imposto sobre o consumo para não agravar desvantagem perante a concorrência de outras bebidas e de empresas do país vizinho.
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A cerveja já superou as dificuldades nas vendas criadas pela pandemia?

Sim, pelo ângulo do consumo de cerveja (em volume) muito impulsionado por um 2022 extraordinário em turismo sendo que 2023 continua em níveis elevados. Não, pelas dificuldades acrescidas nos fornecimentos de matérias-primas, embalagens e energia a preços anormalmente elevados, em consequência da guerra na Ucrânia e da inflação.

Os números de litros ou faturação global como estão hoje face a 2019?

O setor face a 2019 cresceu 9,5%, e face a 2021 cresceu 20%. O consumo (em volume) subiu e 2022 superou 2019, impulsionado por um ano extraordinário em turismo, mas em valor, o impacto no negócio das empresas foi muito distinto. Isto porque, como se sabe, a Guerra na Europa, a espiral inflacionista e a subida das taxas de juro têm prejudicado as empresas e trouxe incertezas inesperadas. As matérias primas ficaram mais caras, o vidro ficou mais caro, a energia ficou mais cara, a logística ficou mais cara, até o azoto ficou mais caro e raro. Para piorar a situação, o último Orçamento do Estado trouxe um presente envenenado ao nosso setor: um novo imposto que nos coloca numa posição de enorme desvantagem face à concorrência de outras bebidas, como o vinho, e também face à concorrência espanhola.

A Associação dos Cervejeiros tem lutado por uma baixa de impostos sobre a bebida. Fez essa proposta a governo e parlamento, se bem me recordo. Já venceu essa batalha? Em que nível estavam e como estão hoje taxadas as cervejas?

Em termos genéricos, a Cervejeiros de Portugal considera que se cometeu uma injustiça para o setor com o Orçamento de Estado de 2023, aprovado no final do ano passado e que levou a que em 2023 tenha havido um aumento de 4% no imposto especial de consumo da cerveja que é injustificável face ao vinho, que não paga este impostos... O IEC/IABA sobre a cerveja em Portugal é, em 2023, de 21,94 euros/hectolitro, enquanto em Espanha é de apenas 9,96 euros/hectolitro, ou seja, em Espanha os produtores de cerveja pagam ao Estado espanhol menos de metade do imposto pago pelos cervejeiros nacionais. Acresce que este valor do IEC em Espanha se mantém congelado desde 2005. É de enorme injustiça esta situação, que tem tido, obviamente, um impacto no setor. Aliás, uma das situações que se tem agravado é a aquisição de cervejeiras nacionais por cervejeiras espanholas, que possuem maior capacidade para investir, pois pagam menos impostos em Espanha. Não queremos acreditar que na preparação do próximo OE, o Governo não tenha em conta a importância deste setor, que é responsável por mais de 50 mil postos de trabalho. Relativamente à questão que coloca, é verdade que a Associação propôs ao Governo e aos partidos no parlamento que aproveitassem a oportunidade prevista na revisão europeia da Diretiva dos Impostos especiais de consumo, e legislasse para que as bebidas alcoólicas com teor inferior a 3,5% de álcool pudessem ser beneficiadas em sede de IEC/IABA. Isso veio a acontecer já em 2023 com uma redução de imposto apenas para essa categoria (abaixo de 3,5% de álcool). Note-se que só agora começam a surgir no mercado ofertas de cerveja com teores abaixo de 3,5%.

O Brewers Forum arranca em Praga e decorre a 22 e 23 de maio. Quais são as grandes preocupações dos cervejeiros que antevê que sejam debatidas?

O Brewers Forum é um evento de amizade: os cervejeiros de todo o mundo estarão neste evento a partilhar as suas experiências; especialistas partilharão as suas opiniões e a sua análise do mundo. Temos temas tão diversos como a relação da cerveja com o marketing, o turismo, a cultura cervejeira, o consumo responsável, a cerveja e o desporto, a tecnologia e inovação... E tudo num local sem igual na Europa: Praga, provavelmente a cidade onde existem mais cervejeiras independentes do mundo.

As novas tendências vão marcar certamente o Fórum. Serão as cervejas sem álcool a nova tendência mais vincada? O que há de novo no mercado que mereça destaque?

As cervejas com baixo teor de álcool bem como as sem álcool são claramente tendências atuais e que serão discutidas. Mas não só. Outra tendência são as cervejas com sabores.

Que potencial de crescimento têm em Portugal e nos mercados latinos?

Apenas cerca de 60% de portugueses bebem esporadicamente cerveja, ou seja, apenas o alargamento da base dos consumidores permitirá à cerveja crescer em Portugal. Mas esse crescimento orgânico será seguramente lento, sendo que o que mais se destaca atualmente é o consumo induzido pelo turismo de países com maior cultura cervejeira, e usualmente consumidores mais frequentes.

rosalia.amorim@dn.pt

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