É sem manifestações de alegria popular que celebramos hoje o centenário da República Portuguesa. Isso não acontece pelo facto de a evocação da sua história, seguramente exaltante, nos trazer também à lembrança tempos sombrios de turbulência, de tirania, de privações. O que está a ensombrar esta data, que devia ser festiva, é a incerteza quanto ao futuro colectivo dos cidadãos desta República, por não se vislumbrar a saída de uma década perdida, com sucessivos, cortes, ajustamentos e restrições..A exposição do governador do Banco de Portugal deu várias pistas para uma estratégia, na qual todos os protagonistas (mesmo defendendo os seus interesses contraditórios) possam emergir mais fortes, isto é, vencedores: promoção da poupança das famílias, dimensionamento do Estado a uma dimensão sustentável e investimento produtivo são a tríade do círculo virtuoso de saída dos apertos do presente. Só que tudo isto implica maior capacitação da população activa, maior transparência na apresentação da evolução das contas públicas, maior responsabilidade financeira e fiscal por parte das famílias. .Os países que souberam superar crises análogas à nossa, só o conseguiram ao fim de um período continuado de trabalho, de esforço de superação, de concertação das melhores soluções de compromisso, económicas e sociais. Comemorar hoje o sonho primeiro dos heróis da Rotunda é lançar as pontes para que, na próxima década, todas as peças deste complexo quebra-cabeças encaixem bem e se generalize a consciência de que, em clima de liberdade, a igualdade e a fraternidade são as promessas que a nossa República vai acabando, com avanços e recuos, por cumprir..No Brasil verde decide. Marina perdeu ganhando" ou "A Noiva cortejada". A imprensa brasileira não hesitava, ontem, no rescaldo da primeira volta das presidenciais, em encontrar uma nova protagonista da disputa pela sucessão de Lula da Silva, destacando o excelente resultado de Marina Silva, a candidata ecologista. Com 19,3% dos votos, a dissidente do PT de Lula poderá ter agora um papel decisivo para o desfecho do duelo eleitoral entre Dilma Rousseff e José Serra. A candidata apoiada por Lula ficou-se pelos 46,9% e, tal como o seu patrono nas duas vezes que foi eleito Presidente, vai precisar de uma segunda volta para confirmar o favoritismo. À espera de uma oportunidade está José Serra, do PSDB, que em 2002 também chegou à segunda volta. Desta vez, o antigo ministro da Saúde do presidente Fernando Henrique Cardoso obteve 32,6%, melhor do que há oito anos, mas mesmo assim insuficiente para o tornar uma séria ameaça a Dilma, a herdeira oficial dos êxitos de Lula, o metalúrgico-presidente..Contudo, ao contrário do que pode parecer, a distribuição dos votos de Marina Silva na segunda volta não será uma automática transferência para Dilma. Uma sondagem antes chegou a prever que metade dos apoiantes da candidata verde irá votar em Serra, enquanto um terço preferirá Dilma. E se Marina Silva está a esforçar-se por manter a neutralidade, apesar de velhas divergências com Dilma nos tempos da militância no PT, outras figuras do partido não escondem a sua simpatia por Serra. Até um artigo de Fernando Henrique Cardoso, no Estado de São Paulo, a defender um Brasil potência económica mas campeão da ecologia está a ajudar a causa de Serra junto dos verdes. Até dia 31, data da segunda volta, a campanha vai ser dura. Serra parte muito de trás, mas nunca se sabe. E o verde é a cor da sua esperança.