Imaginemos uma cena banal, algures numa rua do nosso quotidiano: duas pessoas falam sobre as proezas (consumadas ou prometidas) da selecção portuguesa de futebol. Alguém passa por ali e, tocado pela conversa, reage entusiasticamente: desata a gritar "viva Portugal!", berra, pula e profere monossílabos cada vez mais incompreensíveis e animalescos; enventualmente, tira um cachecol da mala e enrola- -nos nele, ao mesmo tempo que nos abraça e grita directamente no indefeso pavilhão auditivo..Que diríamos de tão exuberante transeunte? Convidávamo-lo delicadamente a montar o seu circo bem longe de nós? Ou, num assomo de compaixão, tentávamos que fosse visto por um médico de confiança?.Uma coisa é certa: o mesmíssimo tipo de comportamento tornou-se prática corrente sempre que uma câmara de televisão começa a fazer reportagem (?) no meio de espectadores dos jogos de futebol. E ninguém se mostra especialmente sensibilizado, nem pelo vazio de tanta gritaria, nem pelo empenho com que as televisões favorecem esse tipo de eventos. Bem pelo contrário: creio que tudo aquilo é encarado como um exercício de saúde colectiva..Verdade seja dita, semelhante histeria mediática está longe de ser exclusivo da televisão em Portugal. A cena do repórter que grita para tentar cobrir os gritos da multidão que o envolve transformou-se num cliché internacional da nobre arte de fazer da televisão, impondo-se como um espelho festivo da nossa mais genuína vulgaridade. Receio bem que, entre nós, tais eventos sejam mesmo exemplos modelares dessa heróica "auto-estima" que, no douto dizer de alguns comentadores, redescobrimos graças aos poderes mitológicos do nosso abençoado futebol..Como não quero gritar, recorro às palavras mais serenas de Paul Virilio, analisando as incidências do nosso viver global. Disse ele: "Quando a opinião pública cede o lugar à emoção pública, estamos na alucinação colectiva: um fenómeno de transe" (entrevista a Anne Diatkine, Libération, 17 Dez. 2005). E não tenhamos ilusões, já que a devasta- ção é completa: ao perdermos a capacidade de construir uma opinião colectivamente enraizada, perdemos também o simples gosto pelo futebol como jogo.