Isto não era assim. O cais de carga era aberto, nas grades não cabiam pinturas com mais de 1,5x2 metros. Para Delfim Sardo, o director do Centro de Exposições, "é evidente que quem projectou esta casa não tinha ideia do que poderia vir a acontecer". Mas o que os arquitectos Vittorio Gregotti e Manuel Salgado deixaram de pé no CCB, em Lisboa, tem espaço de sobra para o que há e o que virá a seguir.."As reservas originais eram muito bem equipadas mas muito pequenas. No tempo de Margarida Veiga [sua antecessora] construíram-se novas reservas para receber a Colecção Berardo e a Colecção Capelo [que constitui o Museu do Design]", recorda o director..o que havia. No cais de carga pode entrar um camião, a grua tem capacidade para içar uma tonelada até às galerias. Zona de trânsito, é aí que se acondicionam caixas vazias e embalagens climatizadas prontas a rumar a outros destinos. .Controladas pela equipa de segurança e avançados sistemas de acesso, existem seis salas nas imediações. Três destinadas a acondicionamento, conservação e apoio à montagem de exposições. Têm estantes e mesas com rodas, papéis e material diverso, mas, iluminadas por luz branca com filtro e com pavimento antiderrapante, apresentam o mesmo aspecto clean e sofisticado das áreas mais restritas..As restantes três salas guardam as peças mais pequenas da colecção Berardo. Mais de 70 gavetas verticais Rothstein encerram pinturas de Malevich ou Magritte, e esculturas como o telefone-lagosta de Dalí. À frente de cada módulo, as fichas com imagens das obras facilitam o trabalho na hora de procurar. Tudo, claro, protegido por um moderno sistema anti-incêndio..Quando certas instituições o exigem, recorre-se à casa-forte. Aí estiveram os selos da Rainha de Inglaterra e do Príncipe Rainier, tal como os bronzes da China. E no chamado "arquivo visitável", com muito por preencher, estão os tecidos e obras em papel. Gavetas horizontais com fotos de Moholy- -Nagy, desenhos de Ad Reinhardt e todo o espólio de Mário Botas, separado por papel de ácido frio, que não reage quimicamente. Vídeos também se conservam em gavetas..António Pedro Mendes, o registrar que também guiou o DN, conta que o perigo reside na diversidade e fragilidade dos materiais "A maioria dos acidentes ocorre entre a reserva e a sala de exposição.".o que foi feito. Aproveitando o espaço de uma garagem não utilizada e as rampas do edifício, criaram-se noutro módulo as "novas" reservas. O pé direito aqui é bem maior, adequado às grandes telas, esculturas e instalações. Passada a gigantesca caixa de madeira que protege Hagamatana II, de Frank Stella, está um grande Andy Warhol que esteve a ser restaurado na sala onde, muitas vezes, são feitas as fotografias para os catálogos..Numa outra sala, devidamente climatizada e semelhante a um armazém bem arrumado, "o espaço ainda pode ser bastante mais aproveitado", diz Delfim Sardo. Cobertos com pano cru estão os móveis e cadeiras da colecção do Museu do Design, que a seu tempo deverá ser "cruzada" com os cerca de mil objectos do depósito de Paulo Parra..Sucedem-se mais obras da colecção Berardo, que contabiliza quase 2000 mas tem muitas sempre em circulação. Seria impossível sediá-la no Pavilhão de Portugal, como se defendeu. O edifício de Álvaro Siza foi projectado para outro fim. Como diz Delfim Sardo, "fazer um museu não é abrir a porta e pendurar uns quadros nas paredes". E a manutenção destes espaços absorve grande parte das despesas do Centro de Exposições, que gere ainda as colecções de Almada Negreiros e do Ippar.