Eu sou eu e a minha circunstância", escreveu, no livro Meditaciones del Quijote, o filósofo espanhol José Ortega y Gasset, amigo próximo do 17.º Duque de Alba, Jacobo Fitz-James Stuart y Falcó. Para a filha única deste, que lhe haveria de herdar o Ducado, a circunstância era representar uma família que se confunde com as épocas mais faustosas da História de Espanha, ser afilhada de batismo do rei Afonso XIII e sua mulher, a rainha Vitória Eugénia, e ter sido assistida no seu nascimento pelo Dr. Gregório Marañón, médico, historiador e companheiro de letras de Miguel de Unamuno e do próprio Ortega y Gasset. Mas o fator pessoal e intransmissível desta equação dotou Cayetana de um carisma único, capaz de a transformar numa figura reconhecida em boa parte do mundo, que aprendeu a dançar flamenco e subverteu as convenções aristocráticas sempre que se apaixonava. O que aconteceu várias vezes..Da circunstância de Cayetana fazia parte a própria história da casa de Alba, fundada na Idade Média e que teve o seu titular mais famoso no 3.º Duque, D. Fernando Álvarez de Toledo y Pimentel (cujo retrato pintado por Ticiano vimos várias vezes na série La Duquesa da Telecinco, apresentada por estes dias na RTP2). General às ordens de Carlos V e Filipe II, I de Portugal, o Duque passou à história como uma figura contraditória, com fama de brutal nos Países Baixos, onde alegadamente teria ordenado massacres, mas de prudente na Península Ibérica, quando, a mando do Rei de Espanha, veio aconselhar D. Sebastião a não se meter na aventura de Marrocos. O que, como se sabe, este rejeitou, sugerindo que o Duque, com idade para ser seu avô, era um pouco cobarde..O antepassado favorito de Cayetana não foi, todavia, o general que comandava os míticos tercios mas Teresa Cayetana (uma das poucas mulheres que, antes dela, foi Duquesa titular e não consorte), musa de Goya (de quem a disseram amante) e mulher tão à frente do seu tempo que terá adotado uma menina negra ou mestiça, Maria de La Luz. Dessa história, tão invulgar na Europa do século XVIII, resta o testemunho de um desenho de Goya, depositado no Museu do Prado, em que a aristocrata aparece com a criança ao colo..María del Rosario Cayetana Paloma Alfonsa Fitz-James Stuart y de Silva Falcó y Gurtubay (entre outros nomes próprios e apelidos) nasceu no Palácio de Liria, em Madrid, a 28 de março de 1926, filha do 17.º Duque de Alba e de sua mulher, María del Rosario Silva e Gurtubay. Era descendente direta do rei Jaime II de Inglaterra, através do filho que este teve com sua amante, Arabella Churchill, o que a tornava também parente do antigo primeiro-ministro britânico. Foi batizada a 17 de abril na Capela do Palácio Real, na pia batismal de São Domingos de Gusmão, somente usada em príncipes de sangue, mas que a Casa Real considerou adequada a um bebé que viria a ser cinco vezes duquesa, 18 vezes marquesa, 20 condessa, e 14 vezes grande de Espanha, a maior dignidade nobiliárquica do Reino, entre outros títulos menores..Tanto privilégio não assegurou à pequena aristocrata uma infância feliz. Como escreve na sua autobiografia Eu, Cayetana: "Quando olho para trás, a primeira coisa que me vem à memória não são situações muito felizes. A minha mãe está fechada no quarto de cama. Também me lembro dela no jardim ou no campo, mas sempre deitada (..). Passou muito tempo até eu compreender que ela estava tuberculosa, e nessa altura a minha mãe já tinha morrido." Maria del Rosário morreu a 11 de janeiro de 1934, aos 33 anos, quando a filha ainda não completara oito. A relação com o pai, que já tinha 56 anos, torna-se mais próxima, como escreve na referida autobiografia: "Nunca lhe vi um gesto amargo, e, embora tivesse um semblante geralmente severo, comigo era diferente. Tenho a certeza de que se dedicou a mim na medida de que um homem daquela época e com a educação que ele tinha tido era capaz de o fazer." Todos os domingos de manhã cedo iam ao Museu do Prado, em momentos que Cayetana recordaria para sempre: "Guardo aqueles bocadinhos como um tesouro, e às vezes sonho com eles. Os passos do meu pai nas enormes salas do museu, a sua voz, o eco - tudo isso é para mim emocionante e inesquecível." Menina viva e reguila, dedica-se com afeto aos cães e cavalos que vivem nas propriedades da família, em especial ao pónei Tommy, que há-de vir a ser vítima de um bombardeamento na Guerra Civil. No segredo do seu coração infantil, começa a surgir que um dia será Duquesa e quer seguir o exemplo da sua antepassada pintada por Goya. Por isso, exaspera as amas quando não permite que lhe alisem o cabelo, como o pai nunca se esquece de recomendar. Quer parecer-se com a intrépida Duquesa do século XVIII..Em plena infância de Cayetana, a história de Espanha, como a do mundo, estava, no entanto, em acelerada transformação. Com a implantação da Segunda República e os Bourbons no exílio, o Duque acha avisado pôr a filha fora de Espanha e coloca-a no Colégio da Assunção de Paris, de que ela guardaria uma memória muito infeliz. Mas, com a Guerra Civil de Espanha e, depois, com a Segunda Guerra Mundial, Jacobo muda-se para Londres (a sua anglofonia e apego à cultura britânica eram assumidas) e leva a filha com ele. Embora as saudades de Sevilha e do sol sejam constantes, a jovem pratica equitação e torna-se companheira de brincadeiras da princesas Isabel e Margarida. De quando em vez, sobretudo na época em que o pai cumpre o papel de embaixador de Espanha em Londres, visita os Kennedy, já que Joseph (pai do futuro presidente dos Estados Unidos) exercia funções homólogas. "Quando nos convidavam para casa deles, eu tinha uma certa inveja daquela família tão numerosa", escreve na sua autobiografia..Num período de férias em Espanha, Cayetana, então com 16 anos, apaixona-se. O objeto do seu amor deixa o Duque literalmente arrepiado: Como era possível que a futura Duquesa de Alba ponderasse a ideia de casar com um toureiro, no caso Pepe Luis Vásquez? Bem mais apropriado era o engenheiro Luis Martínez de Irujo y Artázcoz, filho dos Duques de Sotomayor, que partilhava uma série de interesses (como o gosto pela história ou pela arte) com o Duque. Casaram na Catedral de Sevilha, a 12 de outubro (dia da hispanidade) de 1947, numa cerimónia que deu que falar pelos 20 milhões de pesetas gastos e pela ausência do ditador Franco e da sua família. Pura e simplesmente, não tinham sido convidados. O Duque não lhe perdoava que, finda a Segunda Guerra Mundial, o Governo não manifestasse qualquer intenção de restaurar a monarquia, permitindo que o Conde de Barcelona (pai do futuro Rei Juan Carlos) regressasse do seu exílio em Portugal..Não obstante o casamento arranjado, Cayetana foi feliz com Luís, com quem teve seis filhos, cinco rapazes e uma rapariga. Depois da cerimónia, o novo casal iniciou uma longa lua-de-mel no continente americano, que incluiu uma passagem demorada por Hollywood, onde conviveram com Gary Cooper, Cary Grant, Henry Fonda, Marlene Dietrich ou Merle Oberon. Viva, cheia de energia e moderna (vestida nas melhores casas de moda de Paris como Dior ou Balenciaga), Cayetana fez as delícias da imprensa social, que talvez ainda esperasse ver uma aristocrata espanhola vestida à moda de Las Meninas de Velásquez..Inteligente, Luis não se comporta como um marido convencional da sua época. Cayetana reconhece-o na autobiografia: "O meu primeiro marido não tinha grande sentido de humor, era fleumático e sério, de maneira que eu gostava imenso de o fazer rir, de o envolver com a minha vitalidade. Creio que compreendeu muito bem, logo naqueles primeiros meses, que se me cortasse as asas, me prendesse, eu me sentiria asfixiada, pelo que sempre foi leal e respeitoso." A única intervenção menos amistosa terá ocorrido quando Picasso convidou a Duquesa a posar para ele, numa espécie de nova versão de La Maja Desnuda, de Goya. Temendo tanto a (justa) fama de mulherengo do pintor como a sua conhecida oposição ao regime, o Duque consorte opôs-se terminantemente a tal projeto..Do pai, Cayetana herdou não apenas o título mas também o gosto pelo convívio com artistas. A isso juntou uma certa boémia, que nunca deixou de cultivar. Amante de tauromaquia e do flamenco, chegou a levar Jackie Kennedy, já viúva do presidente dos Estados Unidos, e Grace Kelly à Feira de Abril, em Sevilha. Outra das suas grandes paixões foi o flamenco e destacou-se na dança, tendo como mestres Antonio el bailarín e Pastora Imperio. Na autobiografia recorda: "Na Espanha dos anos 50, que continuava a ser cinzenta e asfixiante, eu começava a precisar de mais válvulas de escape, e o flamengo era uma delas." Ao percebê-lo, mandou colocar um pequeno tablao, quer em Madrid, quer no seu amado Palácio de Las Dueñas, em Sevilha..Em 1972, esta bolha dourada rebentaria da pior maneira, quando Luis Martinez de Irujo sucumbiu a uma leucemia, aos 53 anos. Cayetana tinha 46 anos. Voltaria a casar mais duas vezes, uma com o intelectual, conhecido pelas suas posições de esquerda, Jesus Aguirre, de quem enviuvaria em 2001, e outra com Alfonso Díez, 25 anos mais novo e vendedor de antiguidades. Em ambos os casos, às vozes críticas que se levantaram dentro e fora da família, Cayetana respondeu que fazia o que lhe dava na gana. Mas nem sempre aceitou com a mesma fleuma as escolhas sentimentais dos filhos, embora tivesse aplaudido o casamento da filha Eugenia com o toureiro Francisco Ordoñez, filho de Paquirri e Carmina Ordoñez. "Fez o que eu não consegui", escreve na autobiografia, demonstrando, assim, que não tinha esquecido o primeiro amor..Devota do Cristo dos ciganos e boémia, senhora de uma auto-confiança à prova de críticas e bisbilhotices, Cayetana de Alba tinha a noção de que, em tempos de democracia, importava partilhar com a comunidade os muitos tesouros artísticos da sua casa. Em 2012, com o apoio do governo de Madrid, patrocinou a exposição "O legado da Casa de Alba. Mecenato ao serviço da arte", na qual foram exibidas 150 obras-primas de artistas como Fra Angélico, Ticiano, Ribera, Rubens, Zurbarán, Renoir, Chagall, Madrazo e Zuloaga. Para além do Retrato da Duquesa de Alba de Branco, de Francisco de Goya, que tanto amava..Morreu a 20 de novembro de 2014, em Sevilha. Na hora derradeira recebeu a extrema-unção, mas não consta que tenha deixado alisar o cabelo..dnot@dn.pt