Cavaco exorcista

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Fugir com o rabo à seringa botando a palavra numa cerimónia entediante sob um céu pardacento? É simples: fazendo um discurso delirante e cor de burro quando foge! Foi esta a lição que ontem nos deu Cavaco Silva, introduzindo uma involuntária nota de humor negro num Parlamento sarapintado de cravos, com o ministro do dito a exibir gravata verde encanitante para morigerar o encarnado da flor do craveiro. Limites para os sacrifícios impostos aos portugueses, cada vez mais desempregados, precarizados, empobrecidos e desamparados? Nem pensar! Pelo tempo de um discurso edificante, em que não faltou um elogio involuntário à década de governação do PS, o nosso PR fez-se exorcista para escorraçar a maldição dos limites que ele próprio tinha imposto. Fugiu deles como o diabo da cruz para não apoquentar o Governo do seu partido. E incita todas as criaturas e almas penadas a promoverem Portugal no estrangeiro (quem pagará as viagens?). Agora, como no tempo da outra senhora, já temos um PR que confunde sofrimento e resignação com paz (dos cemitérios?) e coesão social. Ámen.

*Comentador e ensaísta

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