Cavaco deixa conselhos sobre como governar bem

Antigo primeiro-ministro faz recomendações que encaixam em acontecimentos no atual Governo, mas afasta recados para Costa.
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O antigo primeiro-ministro Aníbal Cavaco Silva apresentou esta sexta-feira um livro que, além de ser um caderno de encargos para os governos que se seguem, contém vários recados para o atual chefe do Governo. No entanto, o também ex-Presidente da República garante que ignorou, neste ensaio, os acontecimentos políticos dos últimos oitos meses.

O mote para os recados de Cavaco para Costa foi dado pelo antigo primeiro-ministro José Manuel Durão Barroso, que, na intervenção inicial da apresentação do livro, destacou algumas passagens que qualificou como "saborosas". Não há nenhuma mensagem direta, mas Durão Barroso, a citar Cavaco, refere a recomendação de que um primeiro-ministro, perante a "reconhecida incapacidade" de um ministro em desempenhar as suas funções, não deve insistir em mantê-lo no Governo. Para além desta sugestão, Durão Barroso destacou a importância da participação do primeiro-ministro nas reuniões do Conselho do Estado, o órgão consultivo do Presidente da República, que António Costa integra. Recentemente, António Costa foi acusado de não intervir na última reunião do Conselho de Estado, tendo sido depois afastado qualquer conflito com o Presidente da República.

Como resposta, Cavaco sublinhou que a parte final do livro ficou concluída em janeiro deste ano, pelo que rejeitou qualquer recado que pudesse estar relacionado com os acontecimentos políticos dos últimos oitos meses.

Não sendo um conjunto de recados, Cavaco classifica o livro O Primeiro-Ministro e a Arte de Governar como um "ensaio normativo" que ainda não existia em ciência política em Portugal, uma área que diz não dominar. Cavaco Silva partiu da ideia de uma "análise normativa" que, de acordo com o que explicou, passa por perceber como o tema abordado deve ser, referindo-se neste caso à governação. Por oposição, seria feita uma análise ao fenómeno como este é de facto. O ex-Chefe de Estado explicou que a realização deste livro o levou a recordar os seus tempos de investigador académico, daí esta abordagem.

Para atingir o objetivo, que é levar o Governo a governar bem, o ex-Presidente da República destaca a "realização, com sucesso, de uma verdadeira remodelação ministerial" como a tarefa mais difícil "em termos pessoas para um primeiro-ministro". Mais uma vez, não sendo um recado assumido para Costa, o atual primeiro-ministro tem sido criticado por não fazer uma remodelação no Governo, principalmente depois de não ter seguido a indicação do Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, em maio, para dispensar o ministro das Infraestruturas, João Galamba, na sequência da polémica em torno da recuperação de um computador de um ex-assessor com informações classificadas.

"A substituição de três, quatro ou cinco ministros de uma assentada exige sangue frio, sigilo, preparação e execução meticulosas", destacou Cavaco, acrescentando que "apanhar a comunicação social e o país político de surpresa é o ideal". Neste sentido considerou que as duas "verdadeiras remodelações" que levou a cabo, em 1990 e 1993, na qualidade de chefe do Governo, cumpriram esse desígnio.

Cavaco discursou perante uma sala cheia, no Grémio Literário, em Lisboa, com personalidades da Direita, desde o presidente do PSD, Luís Montenegro, na fila da frente, aos antigos governantes Manuela Ferreira Leite e Eduardo Catroga. Também o presidente da Câmara de Lisboa, Carlos Moedas, presente, mereceu os agradecimentos de Cavaco Silva, mesmo antes de os dirigir ao atual líder do PSD.

Durão Barroso, na apresentação do livro, criticou uma "certa esquerda por decretar a "morte cívica" de Cavaco. "Por favor, continue a incomodar aqueles que ficam nervosos mesmo antes de ouvirem", pediu.

vitor.cordeiro@dn.pt

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