Quando chega julho, os jardins desenhados por Gonçalo Ribeiro Teles voltam a encher-se de risos, cor e vida. E a casa, reconstruída à imagem da arquiteta Daniela Ermano, toda ela com muita luz, recupera a aura de futuro com que (re)nasceu, nos anos 90 do século passado, na aldeia de Cortes, às portas de Leiria, pela mão de Mário Soares, era ele Presidente da República..Inaugurada a 8 de de dezembro de 1996, a Casa-Museu impressionou toda a região pelo registo futurista que trazia. .Hoje é um polo da Fundação Mário Soares e Maria Barroso. Deixou deixou de ter direção autónoma desde 2015, quando faleceu Jorge Estrela, o último responsável local, que sucedera a Ana Mercedes, a primeira criadora de toda a museologia da Casa..Situada mesmo no cimo da aldeia, a Casa pertenceu à família de João Lopes Soares, pai de Mário Soares. Estava nas mãos dos filhos do antigo Presidente da República, João e Isabel, quando no início dos anos 90 uma doação à Fundação lhe mudou o destino. Nasceu então com duas vertentes: "uma enquanto museu de história contemporânea, que tem muito que ver coma própria formação de Mário Soares, e a importância que ele dedica em vários aspetos da sua vida ao conhecimento histórico e à intervenção cívica coletiva - e por isso sedia aqui a exposição de longa duração, que dá conta do século XX em Portugal, e dos caminhos para a liberdade, a partir do percurso de vida de Mário Soares, e antes do seu pai, João Lopes Soares", explica ao DN o diretor-executivo da Fundação, Filipe Guimarães Silva, enquanto vamos percorrendo a exposição (organizada por Fernando Rosas), que mostra o percurso desde a República, a Ditadura, a travessia no exílio, até à Democracia..Está nos planos da Fundação renovar esta exposição num futuro próximo, "não só do ponto de vista dos seus conteúdos, da forma como são apresentados, mas também das ferramentas tecnológicas e digitais, e que permitem chegar ao público de uma outra forma". "A segunda vertente prende-se com acolher, no espaço, não só a bibliografia de João Lopes Soares, mas também algumas das ofertas que Mário Soares recebeu durante o tempo em que foi chefe de Estado"..E é quando descemos à cave que percebemos a dimensão dessas ofertas, depositadas na reserva técnica da casa. Ali há de tudo: quadros, tapeçarias, esculturas, medalhas, objetos muito peculiares de uso corrente, peças de artesanato local, ou da Ásia. "É uma coleção muito assimétrica, são cerca de 4000 peças", revela Filipe Silva. Algumas já deram aso a exposições temáticas, ao longo destes 25 anos. O responsável explica que a Fundação "tem planos para dar maior visibilidade a esta coleção", à semelhança do que acontece, de resto, com a própria casa, à medida que se aproximam duas datas importantes: os 50 anos do 25 de abril e o centenário do nascimento de Mário Soares, em 2024. "Toda esta realidade patrimonial será convocada durante esse período", assegura Filipe Silva. Caminhamos agora pelos jardins, entre pessegueiros e laranjeiras, pelo meio de um parreiral, que nos há-de conduzir até ao famoso Renault 16, que ali está em exposição. Foi o carro com que Mário Soares fez a campanha eleitoral de 1976, e é ali que terminam as visitas guiadas. A Casa está aberta todos os dias, das 10 às 12h30 e das 14h30 às 18h00, mas também é possível ser visitada aos fins de semana e feriados, por marcação..Para lá da exposição permanente e da obra arquitetónica que, só por si, enriqueceu para sempre a aldeia onde os Soares passaram a infância e juventude, a casa nasceu com a intenção vincada de fazer a ligação às questões comunitárias. "Inicialmente estava muito focada em fazer cruzar uma visibilidade nacional, integrada na Fundação e na figura de Mário Soares, mas também com uma intervenção regional e uma capacidade de intervenção local, com um sentido comunitário muito forte". Ao princípio era um pólo cultural de excelência, num tempo em que Leiria era uma sombra do que é hoje, nesse campo. Um dos vértices que foi limando prende-se com a componente educativa..Rita Justino, que divide com Ligia Norte a responsabilidade da Casa-Museu, tem acompanhado mais essa parte. Conta ao DN que "é quase um hábito, aqui à volta, os pais ficarem à espera de quando abrimos as inscrições - o que acontece normalmente no Dia Mundial da Criança - para a Biblioteca de Verão". E esse é um projeto que muito orgulha a Fundação e estas duas técnicas em particular..Durante um mês, cerca de 40 crianças frequentam a Casa, em dois turnos, das 9h30 às 13h00 e das 14 às 17h30. "Durante este mês a casa está repleta e é uma grande alegria", afirma Filipe Silva, secundado por Rita Justino, que acrescenta um detalhe curioso: "É muito giro quando vemos aqueles que participaram enquanto crianças e agora voltam enquanto voluntáriom desse programa de verão". Porque ao longo de 25 anos são várias gerações que ali se cruzaram na Biblioteca de Verão. .Nos primeiros anos, a Casa-Museu recebeu centenas, talvez milhares de visitas de escolas de todo o país. "Vinham visitar a exposição sobre o século XX, porque na verdade é a única que temos no país deste género", sublinha Filipe Silva. Com o passar do tempo, e também com a pandemia, foi-se esboroando essa ligação, e a verdade é que a Casa foi perdendo fulgor. Mantém-se a ligação às escolas das redondezas, através de um trabalho "muito orientado para a promoção do livro e da leitura". De resto, vale a pena visitar a biblioteca, inicialmente doada por Mário Soares, mais tarde enriquecida pela Fundação Gulbenkian e vários autores da região..Além da infância, a Casa-Museu tem também uma preocupação especial com os seniores. Com a colaboração do grupo de teatro Leirena, tem vindo a promover diversas atividades no espaço, onde acabou por nascer um grupo informal - o Bel"idade - que se encontra semanalmente para serões de leitura, teatro e outras artes..dnot@dn.pt