Os tons escuros com que se veste quase sempre contrastam com a leveza da conversa, o entusiasmo com que faz tudo aquilo a que se propõe - e tem sido muito, ao longos destes 53 anos de vida. Carlos Matos, a alma do festival gótico Extramuralhas (que acontece em Leiria entre hoje e sábado), é o nome que a cidade conhece de tudo quanto é música, pois conseguiu já passar a barreira do experimental e alternativo. Por estes dias, anda (mais) atarefado do que é costume, à conta desses três dias que mudam completamente a face da cidade. Mas para trás ficam muitos outros de árduo trabalho, de pesquisa, contratações. E uma vida inteira dedicada a fazer a maior das revoluções: a de mentalidades, numa cidade pequena..Quando era miúdo queria ser condutor de camiões TIR. "Se calhar, no subconsciente, já havia o desejo de vir a ter um trabalho solitário, que me permitisse ouvir a música toda do mundo, sem chatear ninguém e sem ser incomodado", conclui Carlos Matos, nascido e criado na aldeia da Pocariça, perto da Maceira, entre Leiria e Marinha Grande. Nesses tempos de menino passou ao lado de uma carreira no futebol. Filho de um atleta do Sporting Clube de Portugal, o pequeno Carlos deu nas vistas nos juvenis do clube, num jogo com o Marinhense. Mas estava predestinado a marcar outros golos, noutros redutos. Um ajuste familiar acabou por levá-lo a abandonar o futebol..A 1.ª edição do EntreMuralhas aconteceu em 2010. Mas antes houve todo um trabalho engendrado por Carlos Matos e Célia Ribeiro Lopes, ambos corpo e alma da Fade-In, a Associação de Ação Cultural que responde pelo festival. Casados durante 17 anos, os dois souberam preservar uma amizade que não sucumbiu ao fim da relação. Em Leiria, todos se lembram deles na Alquimia, a loja de música no Centro Comercial D. Dinis. "No meio desse trabalho prévio que fomos fazendo, às tantas equacionámos trazer a Portugal as bandas que íamos ver lá fora, a Barcelona, Londres, e outras cidades. Mas em vez de pensarmos em Lisboa ou Porto , porque não na nossa cidade?". Calculado o risco, começaram a trazer essas "bandas muito específicas". Para espanto, o público (também ele específico) aderiu de forma surpreendente. "Começámos a ter pessoas de vários locais do país e do estrangeiro". Durante uns anos. Até que nasceu o EntreMuralhas, que decorria exclusivamente dentro do Castelo de Leiria..Ao leme da Fade-In, a vida de Carlos tem sido muito dedicada a festivais, não apenas o gótico como outros, virados para as mais diversas vertentes da música. O que os une, sempre, "é o facto de não serem dedicados a música mainstream". Desde a música experimental à eletrónica, do metal ao punk rock, passando (sempre) pela gótica. "Quando, em 2010, a Câmara mudou, o então vereador da Cultura, Gonçalo Lopes (hoje presidente da Câmara), percebeu que nós podíamos dar um contributo. Já tínhamos feito um projeto há muitos anos para tirar o castelo da sombra, mas nunca avançou. E então, ainda antes de tomar posse, esse Executivo reuniu com os agentes culturais para perceber quais eram os seus sonhos"..É então que a própria Câmara faz um desafio à Fade-In, para um festival dentro do castelo. Estava lançado o EntreMuralhas, e estava projetado o castelo a nível nacional e internacional. "Em determinada altura éramos o único festival no mundo dentro de umas muralhas, dedicado a um tipo de música marginal. O epíteto de gótico não era só por causa da programação, mas também porque o próprio castelo integra uma parte gótica, do ponto de vista arquitetónico". Um dos palcos era a Igreja da Pena. Até que, em 2017, o Castelo de Leiria entrou em obras, por dois anos. Foi o gancho perfeito para trazer o festival para a cidade, deixando a fortaleza (Extramuralhas). Hoje o centro do festival (que decorre em vários espaços da cidade) é o Jardim Luís de Camões..Carlos Matos lembra que o movimento gótico nasceu no final dos Anos 70. "As pessoas que cresceram com essa estética têm hoje mais de 50 anos. Ora, muitas começam a não ter disponibilidade física e mental para acompanhar determinados movimentos. Se nós continuássemos dentro do castelo, apenas confinados àquele público, percebíamos que estava mais gente a sair da cena do que a entrar"..Entretanto, desde essa altura têm assistido ao movimento inverso: gente cada vez mais jovem junta-se ao festival. Continua a haver alguns concertos pagos, mas muitos já são de livre acesso. "O que constatamos é que os jovens que assistem a esses concertos, no ano seguinte já vão comprar bilhetes, porque querem assistir a tudo. E para além disso, a cidade está hoje muito mais envolvida com o Extramuralhas do que quando era o EntreMuralhas". É por isso que a Fade-In considera hoje o festival "muito mais inclusivo"..Carlos Matos já percorreu uma longa estrada neste universo alternativo. Em 1994, o ano de todas as mudanças, abria em Leiria a Alquimia. Era o tempo em que "as pessoas chegavam à nossa montra e não conheciam absolutamente nada... eu e a Célia já éramos fãs da música industrial e experimental"..Pensando bem, o gosto estava-lhe entranhado desde tenra idade. Carlos estudou num colégio na Marinha Grande e todos os dias fazia o trajeto com um tio que trabalhava na Crisal, a fábrica de vidro e cristalaria. Como ia muito cedo, "ficava ali encostado às paredes da fábrica, a fazer tempo até ir para o colégio, e ouvia as máquinas a trabalhar. Na minha cabeça eu fiquei fã de música industrial mesmo antes de saber que existia. Ou seja, quando na adolescência contactei com ela, já tinha uma apetência dentro de mim. Soava-me familiar"..Depois veio a fase dos concertos, e a criação da Fade-In , porto de abrigo para um grupo de amantes da música "alternativa", aquela que migrara do punk rock e que acabaria por degenerar no estilo gótico..Nesse ano de 1994, a vida pareceu-lhe um terramoto emocional. Abriu a Alquimia, começou a escrever no Jornal de Leiria e a fazer um programa de rádio (Unidade 304), ao mesmo tempo que perdeu o pai, com pouco mais de 50 anos. Nessa altura já deixara para trás o Curso de Gestão de Recursos Humanos, que nunca terminou..Quando chega à cidade, trazia com ele a (falsa) ideia de que chegara "a uma grande metrópole, culturalmente falando. E pensava que havia aqui 500 tipos iguais a mim". Ledo engano. O rapaz de cabelo comprido, brincos, tatuagens e roupa preta não encontrou pares. "Eu pensava que havia em Leiria um bairro cheio de Carlos Matos. Quando percebi que não havia, pensei "então vamos construí-lo. E assim foi". Nesse tempo, não é que se sentisse hostilizado "mas sempre havia uns olhares adversos". Porém, "quando as pessoas percebiam que até éramos educados [eu e a Célia] rapidamente se davam conta de que afinal éramos pessoas normais, que apenas nos distinguíamos dos outros pelos nossos gostos musicais e pela imagem"..Nessa viagem, que já leva afinal 30 anos, Carlos Matos acredita que "há uma Leiria pré-2010 e outra depois disso". E não tem dúvidas de que alguma coisa mudou na cidade através do festival, abrindo portas a outro tipo de gostos e intervenção. No ano passado, a organização usou uma imagem de um conjunto escultórico dedicado ao emigrante na sua comunicação, juntando nessa homenagem os migrantes e refugiados..Este ano, o Extramuralhas hasteou outra bandeira, usando o cor-de-rosa como cor principal. "Além de estar associada ao universo feminino, está também ligada à felicidade e à compreensão. Juntámos-lhe o mote "Igualdade e respeito não têm género". Porque continuamos a perceber, diariamente, que há ainda muitas pessoas alvo de marginalização, intolerância e hostilidade". Palavras que, em determinado momento da vida de cada um dos elementos dessa tribo, acabaram por bater. "Nós precisamos de um mundo com mais paz, mas paz a sério. E eu, que não sou crente, mas admiro o Papa Francisco, acredito que a vinda dele a Portugal trouxe uma mudança de paradigma, com uma mensagem muito positiva. Pelo menos durante uma semana falou-se de alguma coisa positiva, de paz, amor e solidariedade.".Todo o trabalho da equipa que o acompanha é voluntário. É um esforço que fazem em nome desse bem que é proporcionar, neste tempo, a possibilidade de novas gerações assistirem aos concertos que, há 20 ou 30 anos, lhes foram negados. "É bom ver que hoje, em Leiria, é possível ouvir toda a música, vestir de qualquer forma, ser muito mais livre. Depois há atualmente um conjunto de miúdos novos que são empreendedores e fazem tanta coisa na cena cultural.".Carlos Matos é assalariado do Stereogun, o bar/sala de espetáculos que está aberto o ano inteiro. Nas horas vagas, continua a colecionar música. Perdeu a conta aos discos que tem e vai registando numa plataforma online. "Eu sou um colecionador patológico de música", diz ao DN, ele que se considera um garimpeiro do som. "Onde mais ninguém vai buscar música lá estou eu à procura de uma pedra preciosa." Nesse rol de preciosidades cabe tudo, hoje em dia..O rapaz que veio do punk rock e da música industrial revelava, há dias, no podcast 20.20 Planeta Terra, do jornalista Nuno Henriques, que recentemente passou a comprar álbuns de jazz. Como não teve filhos, espera que um dia, quando já cá não estiver, esse legado fique nas mãos da Fade-In. "Para que um dia as pessoas possam entender que além dos sons que passam na rádio e noutras plataformas, há todo um outro mundo ainda mais fascinante e fora do comum". Por estes dias, o centro desse mundo será Leiria..dnot@dn.pt