1868. João da Ega e Carlos da Maia chegam ao Teatro da Trindade de coche, chapéu alto e luvas como qualquer cavalheiro do seu tempo. No camarote, tal como relata Eça de Queirós no romance Os Maias, assistem ao sarau de beneficência, com declamação de poesia e peças de piano. .2009. No Teatro da Trindade, Rui Mendes encena uma "versão" de Os Maias. O sarau de beneficiência transforma-se em cena de abertura, personagens e espectadores chegam ao teatro quase lado a lado, o espaço da acção e o espaço da representação confundem-se propositadamente. "Esta é a cena crucial, que transforma um romance de aventuras numa tragédia", explica António Torrado, responsável pela transformação do romance na peça de teatro Os Maias no Trindade. É no final do sarau que surge a revelação: Carlos da Maia (o actor José Fidalgo) e Maria Eduarda (Sofia Duarte Silva), os dois apaixonados, são, afinal, irmãos. .Mas a peça, tal como o livro, não se esgota na história de amor. Ali está a crítica de costumes, tão actual, de um país "à beira da bancarrota". "Evito o termo adaptação porque não fazemos uma mera transcrição. O que apresentamos é uma versão, a nossa interpretação, mais ou menos livre, com todo o respeito pelo Eça", diz António Torrado. Excluem-se cenas, eliminam-se personagens, altera-se a ordem da narrativa. Mantém-se o espírito da obra e até se ganha um narrador, um fabuloso João da Ega interpretado por José Airosa. Este é o retrato de uma geração sem forças para agir: "Todos os esforços são inúteis", concluem os dois amigos. "Não ter apetites para não ter desilusões."|