Uma situação que o bom senso desaconselharia. Uma estória mais fácil de contar do que de explicar porque as explicações têm subjacentes elementos ideológicos..Assim, como decorre da tradição, a presidente da AR convidou a associação 25 de Abril para se fazer representar na sessão solene..Em resposta, Vasco Lourenço fez depender a aceitação do convite do direito ao uso da palavra no evento, proposta que os partidos do governo não aceitaram..Assunção Esteves foi taxativa. Se os capitães de Abril exigiam falar na cerimónia o problema era deles, situação que levou a associação a recusar o convite. .Porém, ao contrário daquilo que a presidente da AR afirmou, o problema está longe de ser apenas dos militares. É do país. É da democracia..Mas vamos por partes. Comecemos pelos factos..Assim, foi o Movimento dos Capitães que planeou e executou o golpe de estado que, em 25 de Abril de 1974, derrubou o regime do Estado Novo..No entanto, a vida do Movimento dos Capitães foi efémera, uma vez que no mesmo dia se dissolveu no Movimento das Forças Armadas (MFA). Era a passagem do golpe de estado à revolta militar com a chamada ao palco de protagonistas que não tinham estado no terreno..Através do documento lido, já em nome do MFA, o país foi informado que as Forças Armadas não pretendiam capturar o Poder. Os militares iriam patrocinar a transferência do comando para a sociedade civil. Para as instituições políticas democráticas que entretanto seriam constituídas..Portanto, a permanência dos militares nas salas e corredores do Poder seria a estritamente necessária para essa construção. .A História mostrou que não era bem essa a intenção de todos os envolvidos no processo. Por isso o Conselho da Revolução durou até à revisão constitucional de 1982. Daí os primeiros Presidentes da República terem sido militares..Quando, finalmente, a poeira revolucionária assentou, Portugal passou a ter um regime democrático não tutelado pelo elemento militar. Um Estado de Direito..É essa a ordem que se vive na atualidade, pelo menos no que diz respeito às relações entre os detentores do Poder e as Forças Armadas restringidas à "sua missão específica de defesa da soberania nacional", como se podia ler no Programa do MFA..Contextualizada a questão, é tempo de entrar na sua interpretação..Em primeiro lugar convém reconhecer que Assunção Esteves não cometeu qualquer ilegalidade quando recusou o uso da palavra ao representante da associação 25 de Abril. .Vasco Lourenço tem perfeita consciência disso mesmo. Sabe que não existe suporte legal para a exigência que fez..Só que a questão vai muito para além do aspeto legal. Há outros elementos que terão de ser levados em conta. Como o facto de a cerimónia celebrar os 40 anos de um evento só possível pela ação do Movimento dos Capitães. .Em 25 de Abril de 1974 os militares, mal-grado os interesses corporativos, expressaram a convicção de que estavam a interpretar as aspirações e interesses da esmagadora maioria do povo português. .Portugal sabe que tem para com o Movimento dos Capitães uma dívida de gratidão. E esse tipo de dívidas nunca se paga, mesmo que não se consubstancie em direitos estabelecidos na lei..Uma gratidão que tem implícita a ideia de respeito. Que talvez exigisse mais do que um convite na qualidade de espectador. Mesmo sabendo que as declarações dos representantes da associação 25 de Abril nem sempre têm primado pela cordialidade no que concerne às políticas governamentais. Nada substancialmente diferente daquilo que se tem passado com os partidos da oposição que vão ter tempo de antena..Conceder a palavra aos capitães de Abril dificilmente poderia ser visto como uma forma de interferência dos militares na vida política ativa. Seria, somente, uma manifestação do reconhecimento da classe política pela ação dos capitães no derrube do Estado Novo..Algo que a História não vai esquecer. Quaisquer que sejam os desenvolvimentos..A festa merece ser digna. Não pode ser contra ninguém. Contra a democracia..Para que o uso de cravos nas lapelas seja sincero. Independentemente da intensidade da cor.