A fama daquelas vozes parecia superar a dos adeptos da "Briosa" equipa de futebol da Académica que, quando iam a Lisboa, nunca se esqueciam de levar um fardo de palha para dar ao cavalo de D. José, a estátua que pontua o Terreiro do Paço. Não era esse o tom da respeitosa audiência que o DN noticiava a 23 de Abril de 1950.."O sr. Presidente da República [então Oscar Carmona] recebeu ontem de tarde, no Palácio de Belém, os cumprimentos do Orfeão [a grafia do nome do grupo, fundado em 1880, é Orfeon] e da Tuna Académica de Coimbra [cuja origem, como Estudantina, remonta a 1888], que se faziam acompanhar das respectivas direcções [seguiam-se os nomes]. Os cento e oitenta universitários, com os estandartes das duas instituições, foram introduzidos na sala das recepções, onde se efectuou a audiência.".Os organismos, "dois dos mais expressivos agrupamentos artísticos da nossa cidade universitária" , como referia outra notícia, estavam na capital para actuarem na grande festa "cujo produto reverte a favor da Obra Social da Fragata D. Fernando" - e a "presidente da Comissão de Honra do festival" era a mulher do Presidente.."Em nome da Academia de Coimbra, Mário Mendes, vice-presidente da direcção do Orfeão, saudou o sr. marechal Carmona, enaltecendo as suas altas qualidades e serviços prestados à Nação. Respondendo o sr. Presidente da República, disse em breves palavras que tinha grande prazer em receber os estudantes de Coimbra, pelos quais possui, desde há largos anos, muita simpatia e apreço.".Afinal, até se dizia que, além da primeira dama e dos 200 rapazes da Fragata D. Fernando, iriam assistir às récitas "os srs. ministros da Educação Nacional [Pires de Lima], dos Negócios Estrangeiros [Caeiro da Mata] e das Colónias [Teófilo Duarte] e o sr. embaixador do Brasil". Mas, na altura de ocupar os seus lugares, apenas se sentava o ministro da Marinha (e sucessor do sucessor de Carmona no Palá-cio de Belém), Américo Tomás..Voltemos à audiência em Abril de 1950, o ano em que Nova Deli apresentou a Salazar a primeira proposta de negociação para a integração de Goa, Damão e Diu na União Indiana, o que seria liminarmente rejeitado por Lisboa e originaria a invasão em 1961, e em que morreu na cadeia o dirigente comunista Militão Ribeiro, que tinha sido preso, no Luso, com Cunhal.."Os universitários solicitaram do Supremo Magistrado da Nação permissão para lhe colocarem nos ombros uma das suas capas, pedido que foi atendido. Depois de consentir também em que o fotografassem com os visitantes, o Chefe do Estado despediu-se de todos eles com um afectuoso aperto de mão.".E o espectáculo? Todas aquelas vozes de Coimbra subiam ao palco do Pavilhão dos Desportos ( no Parque Eduardo VII) para entoarem, em conjunto, o hino nacional e o hino académico. Depois, os orfeonistas abandonavam o palco aos seus colegas e a Tuna interpretava Minuete (Bocherini), Serenata (Raposo Marques), Adieu (Schubert), Velha Canção (Tomaz del Negro) e Marcha Turca (Mozart), "sendo todos os números merecidamente aplaudidos". E, no espectáculo seguinte, também "apresentado pelo ilustre actor Erico Braga, sempre disposto a colaborar gentilmente nestas iniciativas", o programa era constituído por Bailarico (Suite n.º 1) (Raposo Marques), Prelúdio n.º 2 (Hasselmans), Serenata (David de Sousa), Balada n.º 1 (Raposo Marques) e Momento Musical (Schubert)..Após o intervalo, as vozes eram as do Orfeão, que interpretava, nos dois espectáculos, Choeur des Garde-Chasse (Songe d'une Nuit d'Été) (Ambroise Thomaz) e Barcarola (Virgílio Pereira). Na primeira noite, ainda Coral (Paixão segundo S. Mateus) (Bach), Serenata (Raposo Marques) e Aida (Grande Finale Secondo) (Verdi), "tendo a perfeita afinação e disciplina vocal entusiasmado o público, entusiasmo que subiu de tom quando, a convite de um dos académicos, subiram ao estrado os antigos orfeonistas presentes, para cantarem com eles o Amen". Na noite seguinte, Rapsódia n.º 2 (Elias de Aguiar), Limoeiro Verde (Raposo Marques) e Les Martyrs aux Arénes (Laurent de Rillé)..A encerrar, "o acto de variedades, tendo como locutor o caloiro Simões Pereira, que intercalou de engraçadas anedotas" a actuação da Orquestra Ligeira, trio de gaitas-de-beiços, orquestra de tangos, solos de acordeão, fados e guitarradas "e o mais que na altura se verá". Não consta que tivessem oferecido um fardo de palha a ninguém. |