Caetano Veloso mostrou que ainda tem muito para dar

O cantautor brasileiro esgotou a sala lisboeta com um espetáculo focado no seu último álbum, 'Abraçaço'.
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Ainda o concerto estava no início quando Caetano Veloso se atirou à canção Um Comunista, um tema longo e lento, retirado do seu último álbum, Abraçaço (2012), no qual faz uma homenagem ao militante comunista Carlos Marighella, assassinado em 1969, cantando versos como: "Calçadões encardidos/ Multidões apodrecem/ Há um abismo entre homens/ E homens, o horror". Fazer logo na primeira parte de um concerto uma declaração desta índole mostra como Caetano Veloso está longe de ser hoje uma voz conformista ou resignada.

O seu último álbum, Abraçaço, o terceiro de uma trilogia composta ainda por (2006) e Zii e Zie (2009), é também o melhor dos três (e um dos trabalhos de Caetano Veloso mais interessantes da última década), conseguindo que a sonoridade elétrica, devedora da escola rock, assente nas canções sem lhes tirar o seu potencial valor. E isso comprovou-se na noite de segunda-feira, com estes novos temas a viverem harmoniosamente ao lado das pérolas que Caetano Veloso compôs no passado. É disso exemplo a passagem de Escapulário (retirada do álbum Jóia, de 1975) para o Funk Melódico do último disco.

Mesmo que tenham sido as canções de Abraçaço aquelas que dominaram o alinhamento da noite (foram interpretados nove dos onze temas do álbum), isso não impediu que conseguisse conquistar plenamente o Coliseu de Lisboa, esgotadíssimo, como se comprovou na recta final do espetáculo, quando o público que estava sentado nos lugares laterais e mais atrás na plateia "correram" para a frente de palco para, assim, viverem mais de perto este espetáculo.

Foram poucas as palavras que o cantor dirigiu ao público. Quando perguntou se alguém na plateia celebrava o seu aniversário, logo se fez ouvir um coro de vozes. Aí Caetano dedicou-lhes o tema que se seguiu, o apropriado Parabéns, mesmo que não tivessem dito a verdade, como brincou. O músico consegue ter uma presença em palco que, mesmo sem grandes discursos, consegue cativar quem o vê, seja pelas danças de guitarra em punho, pela teatralidade com que se deita no chão ou pela provocação, com um boa dose de humor, de quando desbotoa a camisa, ameaçando tirá-la, durante o tema De Noite Na Cama, de 1974.

Aliás, além das canções de Abraçaço e , a outra fase privilegiada por Caetano Veloso foi a da década de 1970. Recuperou, por exemplo, dois temas do álbum Transa (1972), nomeadamente Triste Bahia (num dos momentos mais bonitos da noite) e Nine Out Of Ten (já no primeiro encore).

O espetáculo que apresentou comporta ainda uma componente cenográfica apurada (daí que antes mesmo de ter entrado em palco, tenham sido enumerados os nomes de todos os envolvidos nesta produção), com Caetano "acompanhado" por quatro reproduções de quadros do pintor abstrato Malevich. Durante Um Comunista não foi um acaso que se tenha iluminado especialmente o Quadrado Vermelho deste pintor russo.

A primeira fase do espetáculo terminou com Reconvexo e Você Não Entende Nada, entoada por várias vozes do público. Despediu-se pela primeira vez, tendo regressado com o já referido Nine Out of Ten, ao qual se seguiram o muito esperado O Leãozinho e A Luz de Tieta, estas últimas cantadas a viva voz pelo coliseu. Repetiu o feito no seu segundo regresso a palco, com Força Estranha.

Mostrando ao longo de todo o espetáculo a sua sede pela reinvenção, Caetano Veloso provou como, apesar dos seus 71 anos e de ser um dos grandes nomes da história da música popular brasileira (MPB), isso não faz com que seja menos relevante nos dias de hoje.

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