Cada vez mais mulheres optam por parto em casa

Novo estudo, que diz existir mais perigo para os bebés, reacende debate 
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As portuguesas estão cada vez mais a optar por realizar o parto em casa: querem um ambiente familiar e menos intervenção possível da parte dos médicos.

A segurança do bebé e da mãe nestes casos continua a gerar polémica. E o debate, com opiniões diversas, reacendeu este mês após a publicação na revista americana American Journal of Obstetrics & Gynecology de um estudo que associa o parto em casa a um aumento significativo da taxa de mortalidade dos bebés, revelando, porém, que para a recuperação das mulheres, ter o filho em casa é mais vantajoso (ver caixa).

"Há um aumento descomunal de procura de mulheres que querem fazer o parto em casa e a maior parte não desiste, faz mesmo", contou ao DN Sandra Oliveira, Doula e responsável pela empresa Bionascimento, que tendo já dois filhos, o segundo já nasceu em casa numa piscina de parto (ver outro texto).

Como doula - profissional que acompanha grávidas antes, durante o parto - já tinha acompanhado 68 casais, dos quais 34 decidiram ter o filho em casa.

Também Miguel Oliveira e Silva, médico obstetra, admite que tem muitas grávidas que o procuram e perguntam sobre a hipótese de terem o bebé em casa. " Não querem ser tratadas de forma pouco humana, nem sofrerem muitas intervenções médicas", disse, acrescentando que constata alguma tendência para o aumento do número de partos realizados em casa.

Mas em Portugal as opiniões quanto à segurança também não são unânimes,

"Tenho experiência como doula e estou muito consciente de tudo", concluiu Sandra Oliveira, uma defensora deste tipo de parto . "Coisas graves em casa é menos provável, pois não há intervenções, e são as intervenções que levam a maior risco", alertou a doula.

Mas Luis Graça, presidente da sociedade portuguesa de obstetrícia e medicina materno-fetal considera que ter partos em casa "são situações marginais", como fazer tatuagens e piercings.

O médico diz que as mulheres têm todo o direito de o fazer mas defende que deviam saber todos os riscos que correm, comentando o caso da apresentadora de televisão Adelaide de Sousa , de 40 anos, que quis ter o filho em casa, e esteve em risco de vida.

Ao fim de quatro dias em trabalho de parto em casa, desistiu da ideia e foi transferida para a maternidade, onde Kyle nasceu de cesariana, em 20 minutos.

"É uma imbecilidade. É voltar à idade da pedra", classifica Luís Graça.

A falta de condições em Portugal é o que leva o médico Miguel Oliveira Silva a não ser um entusiasta da ideia. "Na Holanda quase metade dos partos são em casa e correm bem, mas Portugal não tem as mesmas condições", explicou Miguel Oliveira e Silva, acrescentando: "Na Holanda qualquer pessoa que tenha o filho em casa tem uma ambulância à porta. Além disso, a distância máxima entre a casa e qualquer hospital é de 30 minutos."

No entanto, Sandra Oliveira garante que "é um mito dizer -se que na Holanda têm uma ambulância à porta".

"Na prática a ambulância à porta não existe em lado nenhum", acrescenta, contando ainda, que no seu segundo parto estava a 30 minutos de distância de uma unidade hospitalar, como recomendado.

O obstetra Nuno Montenegro não não esconde ser crítico da ideia, relembrando que houve um esforço de 20 anos para "que não se nascesse em casa" em Portugal.

"Um dos motivos de orgulho do nosso País é sermos o segundo ou terceiro país com menor taxa de mortalidade perinatal", diz.

Para este especialista, "mesmo uma gravidez normal nos nove meses de gestação, de uma hora para a outra torna-se de risco". Nuno Montenegro garante que "há muitas surpresas e exigem actuação rápida e em casa não existem esses recursos", explicou Nuno Montenegro.

Compreendendo os motivos de interesse das grávidas pelo parto em casa, Nuno Montenegro, dá como alternativa o "parto não medicalizado", ou seja, com menos intervenção médica possível. "O ideal seria criar um ambiente mais privado dentro de um serviço de urgência: um quarto dedicado a reproduzir um ambiente familiar", explica.

Apesar de admitir que pode haver surpresas, Sandra Oliveira, relembra que "na obstetrícia também não é 100% seguro".

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