C... P... L... (CRÓNICA PARA LAMENTAR)

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Nunca houve tantos três pontinhos juntos nos jornais portugueses como esta semana. Os três pontinhos são um sinal gráfico que foi inventado por um génio do marketing, só pode. Com três sinaizinhos apenas se escrevem as reticências, dos sinais pequenos o que mais chama a atenção. Podem estar no meio do texto ou escondidas na frase mas é como se fossem impressas com luzinhas de acender e apagar.

O que o deputado José Eduardo Pereira disse ao deputado Afonso Candal não veio, com ou sem reticências, na transcrição oficial dos debates parlamentares. Mas os jornais - citando o que os próprios ouvidos apanharam no registo televisivo - garantem que foi dito aquilo que escreveram assim: "Vai para o c..." Já não garantindo, mas citando o testemunho de outros deputados, os jornais escrevem que também foi dito: "Filho da p..."

Os olhares dos leitores, pelas razões que atrás refiro, foram logo atraídos pelo valor anúncio daquele truque. Porque lhe chamo truque? É que, usando reticências, os jornais conseguiram, de forma primitiva mas eficaz, entrar em interactividade com os leitores. Foi como se lançassem um concurso (sem gastar dinheiro com prémios): "Que queria o deputado Pereira dizer com o seu 'c'? E com o seu 'p'? Aceitam-se palpites!" Espicaçados pelos mistérios, os leitores puseram-se a discutir à volta dos seus jornais.

O deputado Candal, a quem eram dirigidas as frases, havia falado antes de "clusters industriais". Tenho para mim que o agora célebre "vai para o c...." foi, tão-só, um inocente: "Vai para o cluster industrial." Por outro lado, diz-me quem frequenta a Assembleia, o deputado Candal é reputado pelos rodriguinhos dos seus discursos. Daí que eu, ao famigerado "filho da p...", traduza por "filho da parlamentar oratória". O dicionário Morais explica que as "reticências" podem ser a omissão não só de uma palavra, mas também de uma frase. Por isso, as minhas interpretações são plausíveis.

Outros, porém, quiseram ver, no "c..." e no "p...", em cada um, uma só palavra. E como o tema que se debatia no hemiciclo, na altura dos acontecimentos, era a energia eólica, optaram que, em vez de palavra, fosse palavrão. Tem lógica porque, palavras levando-as o vento, era necessário dar-lhes lastro, pô-las mais pesadas. Enfim, o debate está em aberto.

Colegas dos intervenientes, para pôr água na fervura, disseram que em vez de "vai para o c.", o deputado Pereira teria dito "bandalho". Não há nada a fazer, somos um povo de poetas, sempre à procura da rima. Mas, seja, fica bandalho. Presumo que bandalho, só. Porque se fosse "vai para o bandalho", não só não teria sentido como os jornais teriam escrito, como gostam, "vai para o b...".

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