Levando na bagagem o fracasso da Cimeira das Américas, o Presidente George W. Bush chegou ontem ao Brasil, onde foi o convidado de honra no churrasco oferecido pelo Chefe do Estado brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, na sua residência oficial da Granja do Torto. O convívio serviu, pelo menos, para reforçar as relações entre os dois países. Bush acabou por reconhecer a posição do Brasil face aos subsídios agrícolas praticados pelos EUA e afirmou-se disposto a reduzi-los, caso os países europeus façam o mesmo. "Se baixarmos os nossos subsídios, gostaria de poder dizer aos nossos produtores que há um livre acesso aos mercados", declarou, explicando que se comprometeu a avançar com as negociações em Dezembro na Cimeira da Organização Mundial do Comércio..Lula da Silva foi um dos cinco líderes na Cimeira de Mar Del Plata que se opuseram à criação da Área de Livre Comércio das Américas (ALCA), insistindo que tal só seria viável após os EUA e a UE reduzirem os apoios ao sector agrícola. O Presidente americano não só entendeu o "recado do Governo brasileiro" como agradeceu ao Presidente Lula a relação "franca e aberta" entre ambos os Estados. "Somos dois países capazes de lidar com a diversidade", afirmou Bush, acrescentando que o próximo objectivo é iniciar um "alto nível" de cooperação nas áreas da ciência, tecnologia e educação..Lula, por seu turno, recordou que os Estados Unidos são o principal parceiro comercial do Brasil, representando o maior mercado de exportações e a principal fonte de investimentos directos do país. Mas o Brasil tem vindo a perder terreno para as economias asiáticas. Em 2002, os EUA foram responsáveis pela compra de 26% de todos os produtos brasileiros vendidos no exterior. O valor baixou para 21% no ano seguinte, com os americanos a consumirem cada vez mais os bens fabricados na China..Apesar dos discursos cordiais dos dois chefes do Estado, George W. Bush deixou escapar um desabafo, lamentando a "visão errada" sobre os EUA na América Latina, onde, nos últimos anos, aumentou a oposição à política externa de Washington. A crítica não incidiu sobre um país em particular, mas recorde-se que, em 2004, também Lula da Silva censurou a atitude unilateral dos Estados Unidos e a sua decisão de invadir o Iraque, ignorando a posição das Nações Unidas..Bush aproveitou o encontro para apelar aos latino-americanos a "rejeitarem os esforços dos que querem reverter o progresso da democracia" na região. O Presidente americano não mencionou o nome de qualquer líder , mas ficou claro que o recado foi dirigido aos seus dois maiores opositores Os presidentes venezuelano Hugo Chávez e cubano Fidel Castro. .Os dois chefes de Estado não são os únicos a criticar Bush. Mais de 200 pessoas concentraram-se ontem na entrada principal da residência oficial de Lula para insultar o Presidente americano e chamar-lhe "imperialista assassino". A manifestação, que terminou com a detenção de uma pessoa, foi organizada pela oposição do Brasil - Partido Socialismo e Liberdade (PSOL) e Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado (PSTU) -, mas acabou por ser liderada por representantes das comunidades árabe e palestiniana que quiseram manifestar-se contra a política de interferência da Administração americana nos países árabes..A caravana de dezenas de automóveis blindados que formou a comitiva de Bush passou a alta velocidade e a poucos metros de distância dos manifestantes, entrando por um portão lateral. Houve quem chegasse atrasado para a manifestação. Os 60 representantes do movimento dos pequenos agricultores, que viajaram em dois autocarros até à Granja do Torto, não assistiram à chegada do Presidente americano. Escaparam aos confrontos com a polícia, que dispersou os manifestantes, mas deixaram um aviso "Não queremos a interferência dos EUA nas democracias da América Latina", advertiu Rafael Coutinho, um dos líderes do grupo.