'Bullying'. Diana viu na escrita a forma de não continuar "sozinha a um canto"

'Beliscaram a Minha Felicidade' é o título da obra que uma aluna do 1.º ciclo escreveu com apenas nove anos de idade. Aos doze, ao lado da mãe, recorda tudo o que sofreu às mãos dos colegas.
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De repente a criança alegre e comunicativa deu lugar a uma menina que se fechava sobre si própria e deixava de comentar o que se passava na escola. Diana Ginja, hoje com doze anos, andava no terceiro ano do primeiro ciclo e escondia dos pais o que acontecia, sobretudo durante o recreio. "Punham-me de parte durante as brincadeiras, diziam-me coisas que eu não gostava. Eu ficava triste e, muitas vezes, punha-me sozinha a um canto", recorda agora a criança, ao DN, ao lado da mãe, Ana Ginja, de 37 anos, funcionária de logística de aviação.

Diana nem sequer se enquadrava no perfil das vítimas que costumam ser "miúdos com baixa autoestima, inseguros, fragilizados e tímidos", como explicou ao DN a psicóloga Patrícia Ferreira, da APAV, por ocasião da semana anti-bullying, que decorreu entre 12 e 18 de novembro. Ainda assim, foi vítima de bullying que começou por ser apenas verbal mas passou a físico. "Nessa altura, entre o terceiro e o quarto ano, bateram-me umas vinte vezes", conta a menina, autora do livro 'Beliscaram a Minha Felicidade', da Flamingo Edições. "Outras vezes punham o pé para eu tropeçar e depois riam-se de mim", revela a criança, que se emociona e chora. "Acho que ainda lhe custa ir lá atrás e lembrar-se do que aconteceu. Só que a minha filha decidiu escrever, sozinha, e contar o que lhe aconteceu para ajudar outras crianças", observa Ana Ginja.


Diana tem uma irmã, Sara, atualmente com oito anos, e foi sobretudo por causa dela que a criança tomou a iniciativa de pôr no papel tudo o que lhe aconteceu. "Ela diz que escreveu o livro para a irmã poder ler e não passar pelo mesmo que ela passou", explica a mãe das meninas. Diana recupera das lágrimas e continua a contar o que se passou, há três anos, na escola. "Quando me batiam eu não escondia dos meus pais. Mas quando me diziam certas coisas não contava tudo". Entre essas coisas, havia insultos, por parte de outros miúdos, da mesma idade e de ambos os sexos. "Eram meninos e meninas. Diziam-me que eu era feia, que era burra, ou que eu me achava mais do que eles. A meio do quarto ano, quando lancei o livro, depois de saberem começaram a dizer-me que eu estava a achar-me muito importante por conta disso". Ao lançar o livro, Diana teve, também, reações opostas. "Depois disso, muitas pessoas já queriam ser minhas amigas. Depois de eu ir à televisão - Diana já foi a programas como o "Alô Portugal", "Casa Feliz" ou "Júlia", da SIC - começaram a chegar-se mais a mim. Mas eu continuei a ser amiga das mesmas pessoas. Parece que só querem dar-se comigo porque lancei um livro ou fui à televisão e eu não quero isso. Quero que gostem de mim de verdade, pelo que sou".

A mãe recorda como se apercebeu de que algo estava errado com a filha mais velha. "O bullying verbal não é tão visível como o bullying físico. A Diana começou a ficar muito fechada. Ela é muito extrovertida e começou a ficar no canto dela". A situação agravou-se. "Acordava de manhã e dizia que não queria ir à escola. Chorava durante a noite por motivos que, a mim, não me faziam grande sentido. Depois vieram as férias grandes e a Diana, finalmente, contou-me o que se estava a passar na escola".
A mãe tomou medidas. "Fui falar à escola e acho que eles fazem o melhor que podem. No caso da Diana, acho que não foi o suficiente", lamenta Ana Ginja. "A professora tentou ajudar da forma que podia, e sabia, na altura. As auxiliares ajudavam imenso, porque faziam-lhe companhia no recreio. Aliás, ela começou a escrever o livro lá, ao lado de uma auxiliar", revela a mãe da menina. Ainda assim, Ana Ginja acredita que a escola devia ter mais meios para dar apoio a crianças vítimas de bullying. "Acho que as escolas deviam ter capacidade, ou com mais pessoal ou com mais formação, para ajudar quer as crianças, quer os pais. É que quando uma criança sofre, toda a família sofre".


Ana Ginja descobriu os textos da filha no seu computador. "A Diana tinha-me pedido para pôr umas coisas no word. Na altura, quando li, confesso que fiquei orgulhosa por ela ter conseguido pôr tudo tão claro, no papel". A menina sempre foi boa aluna e esse terá sido um dos motivos que também a levou a ser alvo da fúria dos colegas. "Quando me excluíam das brincadeiras acho que era por eu tirar boas notas, melhores do que eles, ou porque tinha mais contacto com os professores ou os auxiliares", explica criança. "Naquele momento, nem sabia bem o que é que me estava a acontecer. Já tinha ouvido falar de bullying mas não sabia bem se era isso que me estavam a fazer. Às vezes tentava ignorar mas era muito difícil". Além de ter ido à escola, a mãe de Diana acabou por levar a filha a uma psicóloga. "Fez-lhe muito bem. Entretanto, chegámos a ir as duas na mesma sessão e era muito importante para a minha filha falar e pôr tudo cá para fora".


Passados três anos, com toda a divulgação do livro 'Beliscaram a Minha Felicidade' e a visibilidade que tem tido, Diana começou a ver-se livre do bullying. "O comportamento dessas crianças melhorou. Quando ainda acontece uma situação ou outra, a minha filha já lida melhor com isso", afirma Ana Ginja. A criança assume: "Se eu estiver num dia bom enfrento. Se estiver triste é possível que magoe mais o meu coração".

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