Brinquedos que contam histórias

Os brinquedos da Artesana são mais do que simples objectos. Contam histórias. Histórias de um passado não muito distante, onde não havia jogos de computadores nem bonecas que falavam. Uma época em que os brinquedos de madeira e de lata eram os mais pedidos no Natal. <br /><br />
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A oficina da Artesana, Grupo Artecri, está situada na freguesia de S. Mamede do Coronado, concelho da Trofa. A fabricante de brinquedos tradicionais - de madeira e chapa - existe há 35 anos. Agora funciona como cooperativa de artesãos que não conseguem escoar individualmente os seus produtos. É um mundo colorido, o dos mobiles que vivem pendurados na Artesana. Têm patos, corujas, dragões e outros animais de cores garridas que dão encanto à singela oficina. Ali, estão também expostos o rapa, o pião, o jogo de tábuas, as ardósias e os carrinhos de madeira que fazem as delícias dos mais novos e proporcionam um regresso ao passado a muitos adultos.
Apesar de se ter adaptado às regras da União Europeia, a produção na Artesana é exactamente a mesma do que a realizada nos anos 70. «Sempre mantivemos a mesma maneira de trabalhar e reproduzimos as peças fielmente. É a nossa forma de ser. Muitas empresas adaptaram-se às vendas actuais e passaram a fazer brinquedos em plástico. Mas nós não. Continuámos sempre a fabricar da mesma forma», diz, convicto, Abílio Cardoso, que mantém viva a empresa. E é com orgulho que mostra a carteira profissional de artesão: «Que prova que esta não é uma produção industrializada».
Alguns dos brinquedos «tiveram de ser adaptados às regras da União Europeia, porque são para crianças, mas mantiveram o que é tradicional». Como os comboios coloridos. Não têm pregos à vista e passam por processos de verificação de segurança antes de serem postos à venda. Os comboios de madeira são dos produtos mais vendidos, mesmo para o mercado internacional. A exportação faz parte do trabalho da empresa e ocupa cerca de 40% das receitas. Vendem para Espanha, França, Inglaterra, Alemanha e também Brasil. «Os brinquedos são testados e têm toda a segurança para as crianças», garante Abílio Cardoso.

As escolhas das crianças
E devido a estas características que todos os anos, recebem na oficina dezenas de visitas de escolas de Portugal e do estrangeiro. «Vêm também escolas da Polónia, Itália e de Inglaterra ver como trabalhamos», conta o artesão, adiantando que «vem muita gente já formada fazer reciclagem de trabalhos em madeira connosco». As visitas das escolas servem também como estudo de mercado. «Quando vêm cá as crianças com as escolas, estamos sempre a ver quais os brinquedos que encantam mais os pequenos, e é nesses que apostamos», confessa o responsável da Artesana.
Abílio Cardoso tem 57 anos. Começou nesta vida do artesanato aos 14. Na altura «fazíamos nós os nossos próprios brinquedos e depois havia alguém que gostava e nós fazíamos para vender», diz. É com a ajuda de Cecília Costa que Abílio dá vida aos bonecos de madeira coloridos, que saem da oficina para serem vendidos em lojas de todo o país, feiras de artesanato e no estrangeiro. Cecília entrou para a Artesana para fazer bonecas de pano. Agora estão encostadas a um canto. «Vim da área têxtil», explica Cecília, e por isso fazia as bonecas de pano com tudo bordado à mão». Não conseguiram competir com a concorrência chinesa e puseram as bonecas de lado. «As pessoas não querem dar o dinheiro que elas valem», diz Cecília. Agora, é a mulher da oficina, onde corta a madeira, lixa, pinta e monta. É uma «faz-tudo«, ao lado de Abílio, num trabalho que não tem dias de descanso certos. «Quando temos entregas não há fins-de-semana nem feriados», informa Abílio Cardoso, acrescentando que «é um esforço muito grande e é precisa muita persistência para manter a tradição portuguesa viva com os brinquedos». Para o artesão, «é mais do que uma profissão. É manter a cultura viva nos brinquedos», para que estes «não fiquem guardados em antiquários».

Tira, rapa, deixa e põe
São quase 400 os modelos de brinquedos tradicionais produzidos na Artesana. Para além dos comboios de madeira, o trapezista é outro dos brinquedos mais famosos. O mais tradicional, com ar de homem já adulto, é apelidado de Gregório. O pião, o jogo de tábuas e as cordas de saltar são também dos mais vendidos. Mas o rapa é, muito provavelmente, o mais simples e tradicional brinquedo que a Artesana possui. «É algo que está ligado ao Natal. Antigamente, na noite de Natal, a família reunia-se toda para jogar ao rapa - tira, rapa, deixa e põe. E era muito divertido», recorda o responsável da empresa.
Os brinquedos de madeira são os que mais fabricam. Para já, pararam com a produção dos de metal. «Ainda temos muitos brinquedos em chapa para vender, , por isso parámos com a produção. Nesta altura de crise, ninguém quer dar o verdadeiro valor pelos brinquedos de lata, porque são bem mais caros», adianta Abílio Cardoso.
«A nossa continuidade tem a ver com a existência de uns quantos proprietários de lojas que apostam nos brinquedos tradicionais», refere o artesão, apontando Catarina Portas, a proprietária das lojas A Vida Portuguesa, como uma das dinamizadoras deste mercado de produtos tradicionais portugueses. Para além da venda para lojas, a Artesana também já forneceu produtos para o Estado português e já esteve presente em vários certames internacionais representando Portugal. Apesar de não vender ao público na sua oficina, os brinquedos da Artesana, Grupo Artecri, estão representados, para além das lojas, em feiras de artesanato. É o caso da Feira de Artesanato de Matosinhos, onde vão estar até dia 23, em frente à Câmara Municipal. Mais informações em www.grupoartecri.com

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