A primeira-ministra Theresa May disse na segunda-feira que vai levar o seu acordo do Brexit ao Parlamento para uma votação em meados de janeiro, comprometendo-se a obter novas garantias da União Europeia. A pouco mais de cem dias da saída do Reino Unido, a líder ouviu deputados a acusá-la de forçar um Parlamento profundamente dividido a apoiar o seu acordo, tendo em conta que o tempo se esgota. À medida que a data de saída de 29 de março se aproxima, uma votação em meados de janeiro pode obrigar deputados a ceder a um acordo com que não concordam, mas que podem preferir a a uma saída sem acordo, um cenário de pesadelo para as empresas. O líder do Labour, Jeremy Corbyn, tentou aumentar a pressão sobre a primeira-ministra ao apresentar uma moção de censura dirigida à primeira-ministra por esta se recusar a agendar a votação o quanto antes. "É muito claro que é mau e inaceitável que estejamos à espera quase um mês antes de termos uma votação decisiva sobre a questão crucial para o futuro deste país. A primeira-ministra recusou-se obstinadamente a assegurar a realização de uma votação na data que anunciou, recusa-se a permitir a realização de uma votação esta semana e está agora, presumo eu, a pensar que a votação será em 14 de janeiro - quase um mês depois. Isto é inaceitável, seja de que forma for", disse Corbyn na Câmara dos Comuns. Embora um voto de censura fosse em grande parte simbólico e não vinculativo, poderia aumentar o sentimento de crise à medida que os deputados insistem em que mude de rumo. No entanto, não ficou claro quando ou sequer se essa votação terá lugar. O presidente do Parlamento, John Bercow, aceitou para esta terça-feira um pedido de debate de urgência, por parte do líder parlamentar dos nacionalistas escoceses (SNP), Ian Blackford, sobre as discussões da primeira-ministra com a Comissão Europeia..À noite, os líderes parlamentares do SNP, liberais-democratas, verdes e nacionalistas galeses agendaram uma adenda à moção de censura dos trabalhistas para que esta seja aplicada não só à primeira-ministra, mas a todo o governo. .Aqui, sim, o governo podia estar em risco. Mas, como cabe ao próprio governo a discricionariedade de agendar a moção original, é provável que não venha a ser debatida e votada. May voltou a rejeitar os apelos para um segundo referendo, que soam cada vez mais alto, ou para pedir a extensão do Artigo 50.º.Povo dividido, mas quer referendo.Segundo uma sondagem realizada pela Sky Data, 53% dos britânicos querem a realização de um segundo referendo, apesar de 51% reconhecerem que essa decisão seria uma quebra de confiança com o povo. "Tal como muitos aspetos do Brexit, a opinião pública sobre um novo referendo é complicada e por vezes contraditória. A maioria concorda com a primeira-ministra em como um novo referendo seria uma quebra de confiança, mas dadas as opções disponíveis a maioria acha, ainda assim, que é a coisa certa a fazer", diz o diretor da Sky Data, Harry Carr. Que lembra ainda o papel da Câmara dos Comuns: "O Parlamento é confrontado com um eleitorado que pensa ser necessário realizar um referendo, mas que o vai desprezar se assim decidir.".Em caso de referendo, a sondagem deu três opções: permanência na UE, saída sem acordo ou saída com o acordo de May. A mesma percentagem que quer uma consulta popular é a que escolhe a permanência do Reino Unido na UE: 53%. Segue-se o Brexit sem acordo (32%) e o acordo da primeira-ministra com Bruxelas só recolhe 16%..Blair encabeça oposição.O antigo primeiro-ministro Tony Blair tem sido a personalidade que de forma mais veemente e reiterada tem apelado para a realização de uma nova consulta popular. No domingo, Theresa May acusou-o de sabotar as conversações adicionais com a UE e que os seus apelos são um "insulto ao governo que em tempos chefiou"..O trabalhista, chefe de governo entre 1997 e 2007, respondeu: "Longe de ser antidemocrático, seria o contrário, como, aliás, muitas figuras de alto nível do seu partido, do passado e do presente, têm vindo a dizer. Irresponsável, no entanto, é tentar passar por cima dos deputados para que aceitem um acordo que realmente pensam ser mau, com a ameaça de que se não entrarem na linha o governo fará que o país saia sem acordo.".Quem defende um segundo referendo e está no governo, mas da Escócia, é Nicola Sturgeon. A líder dos nacionalistas escoceses tem defendido quer o derrube do governo de Theresa May quer um novo voto sobre a permanência da UE. A Escócia votou maioritariamente pela ligação à Europa..Os fiéis de May.São poucos os que estão com Theresa May: os elementos do governo (e não se sabe se na totalidade) e uma minoria de deputados - daí que May não tenha levado o acordo a votos no dia 11. O ministro do Comércio, Liam Fox, que é favorável ao Brexit, saiu em defesa do acordo e rejeitou a ideia de novo plebiscito. Argumentou que isso daria a Nicola Sturgeon "luz verde" para convocar uma nova votação sobre a independência da Escócia. E que, se o resultado fosse de 52% pela permanência e 48% pela saída, que ele pediria um terceiro referendo..No entanto, a estratégia de May em levar a oposição a tomar medidas contra ela pode estar a dar resultados. Os unionistas irlandeses, que com os dez deputados têm dado a maioria parlamentar aos conservadores, anunciaram que perante a moção de censura - caso esta avance - estarão do lado da líder conservadora. Também o líder do bloco pró-Brexit European Research Group, Jacob Rees-Mogg, anunciou no debate de segunda-feira que, apesar de ter submetido uma carta para o seu derrube enquanto líder dos tories, agora está do seu lado..Os brexiteers.Os outros partidários do Brexit sem acordo, como Boris Johnson ou David Davis, também estão contra novo referendo e contra May. Parecem ter perdido o momento. Mas não se vê, até agora, sinais de mudança para que votem favoravelmente o acordo. Mesmo o elogio de Rees-Mogg a May não significa que esteja do seu lado no dia da votação decisiva.