Brasil atravessa a pior recessão desde o Plano Real em 1994

PIB brasileiro encolheu 5,8% no espaço de um ano e meio.
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No último ano e meio, o Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil encolheu 5,8%, de acordo com os dados do terceiro trimestre de 2015 do Instituto Brasileiro de Geografia e Pesquisa, ontem divulgados. Esses dados representam a recessão mais longa no país desde a introdução em 1994 do Plano Real, programa do governo de Itamar Franco, que trocou o cruzeiro pelo real e estabilizou a economia, e o pior resultado para um terceiro trimestre desde 1996. A queda é também a mais forte e persistente entre as economias globais. O governo da presidente Dilma Rousseff, que está na conferência sobre o clima em Paris, não comentou oficialmente os números até à hora do fecho desta edição.

No entanto, fontes da área económica do Executivo ouvidas por jornais brasileiros revelaram não ter ficado surpreendidas. A retoma prevista precisamente para este trimestre não se verificou em boa parte, avaliam, por culpa da turbulência política no país. Ninguém da oposição tinha também ainda reagido aos números.

Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Pesquisa, os dados do terceiro trimestre de 2015, relativos ao período entre julho e setembro deste ano, registam uma queda de 1,7% face ao trimestre anterior, uma perda na economia de 3,2 ao longo do ano e uma retração de 4,5 quando comparado com o trimestre homólogo de 2014. De acordo com a previsão dos economistas, os resultados totais de 2015 devem chegar a uma retração de 3,5%, o pior registo desde 1990, em plena gestão de Fernando Collor de Mello, presidente alvo de impeachment, quando se verificou uma queda de 4,35 pontos.

Pior só a Ucrânia

Ao comparar os resultados do Brasil com outras economias, a situação ganha contornos mais alarmantes. A Índia e a China registaram um crescimento de 7,4 e 6,9%, respetivamente, face ao terceiro trimestre do ano passado. A Grécia caiu 0,9, praticamente metade da queda no Brasil. Entre 42 economias avaliadas pela Austin Rating, só a da Ucrânia, país em guerra, retraiu mais.

"A economia brasileira desce uma ladeira sem travões", define Thais Heredia, da GloboNews. "Consumo das famílias, produção industrial e construção civil estão todos embalados na queda, cada um empurrando o outro para baixo, mas o dado mais alarmante, porém, não é o que revela a cara feia do passado e sim o que prenuncia o futuro - o quadro dos investimentos e da poupança", prossegue a colunista de economia.

Queda generalizada

De facto, houve quedas face ao trimestre anterior em todos os setores da economia, da indústria (retração de 1,3) aos serviços (menos um por cento), passando pela joia da coroa brasileira, a agropecuária que, desta vez, também retraiu: 2,4 pontos.

Também os gastos das famílias, que suportaram o avanço na economia durante anos a fio na viragem do século, caíram: recuaram 1,5 pontos.

Na balança comercial, se as importações, como esperado, diminuíram 6,9%, também as exportações se retraíram 1,8 pontos mesmo tendo em conta a alta do dólar face ao real de 56% no terceiro trimestre de 2015 por comparação com o período homólogo de 2014.

Entre os meses de julho e setembro deste ano, a taxa de investimento ficou-se pelos 18,1% do PIB, quando no terceiro trimestre de 2014 chegara aos 20,2. E a de poupança caiu 15% quando comparada com os dados equivalentes do ano passado.

"De uma forma geral, há deterioração do quadro de emprego e de salário, taxas de juros mais altas, o que dificulta o acesso ao crédito e afeta o consumo e o investimento. Estamos a trabalhar com taxa de câmbio mais desvalorizada, taxa de inflação mais alta, operação de crédito em termos reais em queda. E aí, de uma forma geral, todos esses fatores juntos estão contribuindo para este cenário", resumiu Claudia Dionísio, a gestora de contas trimestrais do Instituto Brasileiro de Geografia e Pesquisa.

Crise política

O Instituto Brasileiro de Geografia e Pesquisa apontou ainda - sem conseguir, porém, quantificar - a crise política como fator desestabilizador dos números da economia. "A turbulência tem impacto, só não conseguimos quantificar quanto", sublinhou a gestora Cláudia Dionísio.

Em causa, a frente de batalha travada no Congresso Nacional entre a oposição liderada pelo presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, e os parlamentares afetos ao governo da presidente Dilma Rousseff, que vem adiando a votação de medidas consideradas fundamentais para o alívio da crise económica.

Outros fatores, como o rompimento no início deste mês de novembro de uma barragem em Mariana, município do estado brasileiro em Minas Gerais, que causou um dos maiores desastres ambientais do país, só devem ser contabilizado nos dados do quarto trimestre.

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