"Venha daí, temos uma pessoa muito especial para lhe apresentar. É o Senhor Jesus!" O convite de Adélia Marques é acompanhado por um sorriso largo e espelha o entusiasmo pelo que se vai seguir. À igreja da Assembleia de Deus de Benfica chegam os crentes que vêm para o culto das senhoras, cerimónia semanal que, além de alimentar a alma, ajuda a combater a solidão que corrói a população mais envelhecida. .Antes de ocuparem as cadeiras de plástico brancas do espaço simples e sem ornamentos, os fiéis trocam cumprimentos e actualizam novidades. "Aqui sempre senti um apoio enorme. Há interesse pelos outros", justifica Adélia, membro da comunidade há três anos. Ainda a guitarra e a palavra de Carla Ladeira não deram o mote para iniciar o culto e já Adélia tem lágrimas a escorrerem-lhe por detrás dos óculos escuros, suscitadas pela recordação de tempos difíceis e da entreajuda aqui encontrada. A mesma emoção com que descreve a conversão que a fé operou na sua vida, incutida no cântico de louvor a Deus. "O teu amor veio até mim e me libertou...", entoam duas dezenas de senhoras..A encaminhar a oração está Carla, mulher do pastor Álvaro e psicóloga responsável por projectos de intervenção social da igreja. Na comunidade, com 300 membros, o sentimento de pertença é forte. Os irmãos tratam-se pelo nome, visitam-se quando estão sós, e apoiam-se financeira e espiritualmente. "Há acompanhamento personalizado. Se alguém deixa de aparecer, telefonamos, numa manifestação de preocupação", exemplifica António Gonçalves, pastor mais velho, que explica que "muitas vêm da Igreja Católica, onde se mantém um modelo rígido e um peso institucional forte, com o qual deixaram de se identificar".