Boris Johnson: o homem de que o 'brexit' estava à espera para ganhar fôlego

O mayor de Londres pode arrastar consigo 10% do eleitorado no referendo a favor da saída do país da União Europeia
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"Ele é maluco. Eu acho que devemos ficar na União Europeia, são os nossos principais parceiros comerciais", afirmou à Lusa Tom Kilgallon, proprietário de uma sapataria em Chapel Market, na capital britânica. O "maluco" de quem fala é Boris Johnson, o presidente da câmara de Londres, que no domingo se tornou no maior peso pesado da campanha a favor do brexit - a saída do Reino Unido da União Europeia (UE). É que nem todos pensam que esta é só mais uma maluquice a juntar ao seu currículo.

O mayor de Londres, famoso pelo cabelo louro desgrenhado, é muitas vezes notícia por situações insólitas. Num evento para promover os Jogos Olímpicos de 2012, por exemplo, ficou pendurado no ar quando fazia slide. No ano passado, numa viagem ao Japão, derrubou uma criança de dez anos num jogo de rugby - ambos os vídeos tornaram-se virais.

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Também as gafes já lhe trouxeram problemas - ou chamaram a atenção. Em 2015 teve que cancelar uma visita à Cisjordânia por segurança, após dizer em Telavive que seria "completamente maluco" um boicote comercial a Israel por causa da situação na Palestina. E não hesitou em dizer que o Ocidente tem que "fazer um acordo com o diabo" - referindo-se ao líder russo Vladimir Putin e ao sírio Bashar al-Assad - se quer derrotar o Estado Islâmico.

O deputado conservador, de 51 anos, é um dos poucos políticos que os britânicos conhecem pelo primeiro nome e, segundo as sondagens, é capaz de arrastar consigo 10% do eleitorado na campanha a favor do brexit - será preciso esperar pelo próximo inquérito de opinião para o confirmar. "Vai certamente trazer mais apoios. Mas espero que o esteja a fazer pelas razões certas", disse o londrino Dawn Sharif à Lusa.

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Vários comentadores alegam que Johnson tomou esta posição devido à ambição pessoal de suceder a David Cameron à frente do partido e do governo. "É uma atitude profundamente cínica de um político profundamente ambicioso que está a usar o referendo do fica ou sai como uma porta dos fundos para o N.º 10 [de Downing Street, residência do primeiro-ministro]", acusou Tim Farron, líder dos Liberais Democratas (pró-europeus).

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Eleito deputado em 2001, Boris Johnson surpreendeu quando sete anos depois disse que queria ser mayor de Londres. Não foi levado a sério dentro dos Tories, até mais ninguém se lançar na corrida. Acabaria por derrotar Ken Livingstone (trabalhista que tentava o terceiro mandato), sendo reeleito em 2012. A pensar em voos mais altos, anunciou que ia deixar a câmara e regressar ao Parlamento. Só um deputado pode aspirar a tornar-se no líder dos conservadores e primeiro-ministro. No combate para suceder a Cameron, deverá enfrentar o atual ministro das Finanças, George Osborne, um dos principais rostos da campanha pela permanência na UE.

Argumentos

Johnson justificou a opção pelo brexit na sua coluna semanal do Daily Telegraph. "Cameron fez o seu melhor, mas um voto para "ficar" vai ser lido em Bruxelas como uma luz verde para uma maior erosão da democracia", escreveu o antigo jornalista. No artigo, o mayor começa por recordar os anos em que foi um dos poucos correspondentes eurocéticos a trabalhar em Bruxelas (1989-1994), criticando os que continuam "a confundir a Europa e o projeto político da União Europeia". E deixa claro que " não há nada antieuropeu ou xenófobo em querer votar "sair" a 23 de junho", data do o referendo.

Johnson alega que o projeto europeu se tornou "irreconhecível", que a centralização de poderes é "imparável" e "irreversível", retirando espaço às autoridades de cada país. "Numa altura em que Bruxelas devia estar a devolver os poderes, está a amassar ainda mais no centro, e é impossível que o Reino Unido não seja afetado", avisa.

O presidente da câmara admite que Cameron fez um bom trabalho ao negociar com Bruxelas, nomeadamente no que diz respeito a travar uma "união cada vez mais estreita" e a proteger os que não fazem parte da zona euro. Mas, alega, essa "bravura e energia" foram insuficientes. "Só há uma forma de garantir as mudanças que precisamos, e é votar para sair, porque toda a história da União Europeia prova que eles só ouvem realmente uma população quando ela diz "não".

Em relação aos "riscos" de tal decisão, nomeadamente em relação à economia, diz que eles são exagerados, apesar de não deverem ser ignorados. "Já ouvimos este tipo de coisas antes, sobre a decisão de ficar de fora do euro, e precisamente o oposto é que se revelou ser verdadeiro", recorda. Em relação a uma eventual cisão da Escócia - a chefe do governo escocês Nicola Sturgeon já disse que se ganhar o brexit vai fazer outro referendo sobre a independência - Johnson diz que "a maior parte" das provas que viu mostram que "os escoceses vão vão votar mais ou menos como os ingleses".

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