"Bolsonaro é hoje sinónimo de vergonha internacional para o Brasil", escreveu uma colunista de jornal..O artigo era, salvo erro, a propósito da COP26, em Glasgow, onde o país que lidera foi tratado como Darth Vader do mundo. Ou seria a propósito da reunião do G20, em Itália, na qual foi ignorado por todos embora tenha mantido "reunião com Jim Carrey" (queria referir-se a John Kerry)? Ou talvez fosse ainda a propósito do discurso na ONU, quando recomendou um remédio para gado na pandemia? Ou a propósito do relatório que a CPI do Senado fez chegar a Haia sobre eventuais crimes seus contra a humanidade?.Bom, fosse qual fosse o propósito da coluna, esta outra coluna serve para desmenti-la - é falso que Bolsonaro seja hoje uma vergonha mundial para o Brasil..O ator britânico Stephen Fry é também um interessante autor de documentários, como Out There, sobre os desafios dos homossexuais no mundo. No filme, Fry entrevistou o pastor ugandês Solomon Male, para quem ter relações anais pode estilhaçar os pénis..Falou também com Joseph Nicolosi, psicólogo norte-americano que dizia transformar homossexuais em heterossexuais, e com o deputado russo extremista Vitaly Milonov, segundo o qual, o seu país é o que tem menos gays no mundo graças às políticas homofóbicas de Putin. "O senhor diz esse absurdo com base em quê?", pergunta Fry. "Estudos." "Quais?", insiste o inglês. "Estudos", conclui o russo..Finalmente, o ator vai ao país onde mais morrem homossexuais apenas por serem homossexuais - o Brasil - para conversar com um homofóbico. "Nós não odiamos homossexuais, simplesmente não gostamos", explica-lhe o então deputado Bolsonaro.."Eles [homossexuais] querem que os héteros façam crianças para no futuro elas se tornarem gays e os satisfazerem sexualmente, isso está sendo plantado aqui e agora", garante. Após anunciar que pretende organizar "uma passeata do orgulho hétero", o hoje presidente ri. Fry edita então a gargalhada, que ecoa - macabra, lúgubre, sinistra - enquanto o ator caminha numa praia carioca. Pelo meio, desabafa: "Este foi um dos encontros mais arrepiantes da minha vida.".Ellen Page, hoje Elliot Page, depois de se assumir transgénero, realizou Gaycation, documentário semelhante. Um dos entrevistados foi Bolsonaro. Confrontado com a declaração de que se deve bater num filho até ele deixar de ser gay, o deputado justifica-se. "Se o seu filho for violento, você dá um corretivo nele e ele deixa de o ser, porque o contrário não vale?".Depois, o espectador é presenteado com a história da homossexualidade no século XX, segundo Bolsonaro. "Quando eu era jovem, falando em percentual, existiam poucos, ok? Com o passar do tempo, com as liberalidades, drogas, a mulher também trabalhando, aumentou bastante o número.".A entrevista acaba com Bolsonaro a dizer que se fosse mais jovem assobiaria para Elliott (então, Ellen) na rua. A câmara passa para a entrevistadora, que, mantendo-se calada e séria, constrange Bolsonaro. E, por vergonha alheia, quem assiste..O documentário de Fry, difundido em dezenas de países, é de 2013; o de Page, nomeado para os Emmys, de 2016. É falso que Bolsonaro seja hoje uma vergonha mundial para o Brasil, já o era antes de, em 2018, mais de 57 milhões de brasileiros perpetrarem a sua eleição..Jornalista, correspondente em São Paulo