Bob Dylan. O outono do patriarca

A música popular nunca mais poderá apresentar uma figura tão rica, controversa, incoerente, fascinante e errática como Robert Allen Zimmerman
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Texto publicado originalmente na edição de 24 de maio passado, no 75º aniversário do músico norte-americano, que hoje recebeu o Nobel da Literatura

Quando nasceu, os Estados Unidos da América ainda não tinham sido humilhados em Pearl Harbor e ainda alimentavam dúvidas em participar ativamente na II Guerra Mundial. Quando editou o seu primeiro disco, o ocupante da Casa Branca chamava-se John Fitzgerald Kennedy, que estava a pouco mais de ano e meio de acabar assassinado em Dallas. Dão que pensar, estas datas que marcam a vida de Bob Dylan, por muitos considerado o mais criativo de todos os autores da música popular desde a segunda metade do século XX, o homem que escreveu a canção que melhor resume o "estado de espírito" dos tempos cruzados pela cultura pop - Like a Rolling Stone. Há, pelo meio de uma biografia mais carregada por sobressaltos e contradições do que preenchida por linhas sequenciais lógicas, uma dúvida maior que provavelmente nos acompanhará por mais algum tempo: desde essas datas marcantes, 24 de maio de 1941 para vir ao mundo e 19 de março de 1962 para a ele se apresentar como artista publicado, o que terá mudado mais - o mundo ou o próprio Dylan?

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Há aspetos particulares que se tornaram evidências. Talvez o exemplo mais eloquente venha das crenças religiosas do autor, criado de acordo com os princípios do judaísmo. Ao terceiro disco (The Times They Are A-Changin", de 1964), Dylan tornava-se o arauto da descrença, num longo manifesto de sete minutos chamado With God on Our Side, em que insinuava, para não irmos mais longe, que Deus servia como álibi para quase tudo (e tão longe estavam ainda alguns fundamentalismos que hoje nos atormentam o quotidiano...) e que não parecia incomodar-se com essa característica de "multiusos". Em 1978, num álbum produzido por Mark Knopfler, Slow Train Coming, assumia à vista de todos a sua condição de "cristão-novo". Mais tarde, regressou naturalmente ao judaísmo. Hoje, nas raras ocasiões em que se mostra disponível para abordar o tópico, Dylan garante, talvez de mãos postas, que há muito tempo que não se aproxima de qualquer culto religioso organizado...

Já no capítulo dos "grandes mistos", muitos gostam de recordar outra canção dos primórdios, Masters of War (de The Freewheelin" Bob Dylan, 1963), como um hino contra as guerras, uma espécie de sumário do pensamento de uma geração de músicos que, emergindo em Greenwich Village, Nova Iorque, ia beber diretamente ao legado musical dos cantores de protesto como Woody Guthrie (mais), em cuja guitarra podia ler-se a inscrição "esta máquina mata fascistas", e Pete Seeger (menos), que haveria de condenar várias vezes as "derivas de Dylan". Anos depois, muitos haveriam de se mostrar chocados com a notícia - nunca cabalmente verificada - de que, entre os múltiplos investimentos do cantor, estaria um abundante lote de acções de empresas dedicadas ao fabrico de armamento.

A estrela elétrica

Em qualquer caso, mesmo assumindo o papel de porta-voz dos seus pares, Bob Dylan teria chumbado por faltas se o julgamento do seu envolvimento político fosse elaborado a partir da sua assiduidade aos encontros e manifestações, até aos que disseram respeito aos direitos civis dos negros, que tantas vezes mobilizaram cantores como Tom Paxton (a caminho dos 80 anos), o malogrado Phil Ochs, o já referido Seeger e, sobretudo, Joan Baez, uma das mais constantes namoradas do autor de Blowin" in The Wind.

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À componente política Dylan preferiu as dimensões humanitárias e musicais, como se prova por duas das mais destacadas presenças em ocasiões únicas: o Concerto para o Bangladesh, organizado por George Harrison a 1 de agosto de 1971 no Madison Square Garden nova-iorquino, com os fundos recolhidos a reverterem para o combate à fome naquele país; e A Última Valsa, espetáculo realizado a 25 de novembro de 1976 no Winterland Ballroom de São Francisco. Aqui, assinalava--se a despedida dos The Band, grupo que, além de uma notável carreira própria, servira de banda de apoio a Dylan nas gravações dos discos Planet Waves (1974) e The Basement Tapes (1975). Ainda assim, as negociações com a estrela só se resolveram depois de Martin Scorsese (que dirigiu o documentário), Bill Graham (produtor do concerto) e Robbie Robertson (o líder dos The Band) garantirem a Dylan que a estreia de The Last Waltz seria retardada para não colidir com a chegada às salas de Renaldo and Clara, o filme de ficção que, por essa altura, era a menina dos olhos do trovador que quis realizar. Caso contrário, Bob estaria no concerto mas não poderia ser filmado. Assim se fez. Já agora: o seu filme, que juntava família (Sara, sua mulher à época), músicos (de Joan Baez a Ronnie Hawkins, de Joni Mitchell a Roberta Flack), atores (Harry Dan Stanton e Sam Shepard) e "celebridades" (como Allen Ginsberg ou Rubin Hurricane Carter) resultou num fracasso total.

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Curiosamente, a mais poderosa das declarações "políticas" do autor, pelo menos na sua era elétrica, teve direta relação com o referido Rubin Carter, um pugilista injustamente condenado como assassino pela justiça. Dylan apossou-se da história e transformou-a numa causa na canção Hurricane, que abre o álbum Desire (1976). Por ironia e também por ausência de matéria-prima alternativa (o disco--sound em força, a new wave, a eletrónica, o drum"n"bass e por aí adiante vieram depois), Hurricane, uma canção "de luta", acabaria por ver-se transformada em "tema de dança", com muitos DJ, sobretudo europeus, a aproveitarem o balanço da cantiga e a participação saliente do violino de Scarlet Rivera para encher as pistas, com gente muito menos interessada na letra do que no ritmo.

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Muita gente foi descobrindo, nas várias escalas de uma carreira que vai em 54 anos e que lança agora o seu 37.º álbum, sem contar com as dezenas de compilações e de raridades, razões para romper com o "hábito" Bob Dylan. Ainda assim, nenhum desses "êxodos" pode comparar-se à rutura que o artista quis assumir com um percurso que parecia assegurar-lhe uma continuidade gloriosa como ponta-de-lança do universo folk. Tudo mudaria em Bringing It all Back Home (1965) quando se ouviram pela primeira vez instrumentos elétricos a suportar-lhe as canções. Meses depois da edição do disco, semanas antes de ver a luz do dia o notável Highway 61 Revisited, o grande triunfador das edições de 1963 e 1964 do Festival Folk de Newport, foi apupado no mesmo palco e acabou por encurtar a sua atuação, esmagada pelos gritos de "traidor". Para a lenda fica a hipótese, porventura mais poética do que real, de Dylan se ter despedido, sob uma chuva de objetos, com a sugestiva apresentação de It"s all over now, Baby Blue. O episódio tem mais de meio século. Hoje, só podemos agradecer ao acossado artista - aqui se mudou a face da música popular, eventualmente menos pura, mas muito mais assertiva.

Corrente alterna

A morte artística de Dylan já foi decretada muitas vezes. A sua morte física terá sido prenunciada outras tantas - por exemplo, em outubro de 1991, durante o festival Guitar Legends, em Sevilha, quem viu o homem passar uma tarde inteira imóvel, deitado sobre uma caixa metálica de transporte de material, com sinais evidentes de uma viagem psicotrópica, não lhe augurou nada de bom. Mas Dylan, ao mesmo tempo o trovador americano e o cínico ou assolapado observador das pulsações do mundo, descobre sempre uma forma de ressuscitar do que chega a decretar-se como o estertor final. Veja-se o que aconteceu em 1997, depois de um penoso início de década, quando lançou o disco Time out of Mind. Os melómanos redescobriram o velho herói, tão bem retratado, nas suas múltiplas facetas, no filme I"m Not There - Não Estou Aí, de Todd Haynes, e os críticos do insuspeito The Village Voice consideraram-no o álbum do ano. Gracinha que foi repetida com Love and Theft (2001) e Modern Times (2006), os dois registos seguintes.

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Dylan, está provado há muito, pode fazer quase tudo o que quiser - até, como sucedeu em 2009 com Christmas in the Heart, um disco com... canções de Natal. Não se lhe peça coerência, exija-se-lhe o regresso do génio que, sem grande margem para alternativas, o coloca como figura cimeira na criação de canções do nosso tempo, algo que foi devidamente assinalado nas escolhas da Rolling Stone. Não vai cumprir o seu próprio desejo, o de ser forever young. Mas, mesmo a viver o outono do patriarca, vaticina-se - e deseja-se - uma decadência altiva.

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