Bispo Américo Aguiar investido cardeal pelo Papa

Francisco comparou o Colégio Cardinalício a uma orquestra sinfónica, onde a diversidade é indispensável, mas deve concorrer para um resultado comum. "E agora vamos dar música", reagiu o bispo português.
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O novo bispo de Setúbal, Américo Aguiar, foi investido este sábado cardeal pelo Papa Francisco, no consistório, na Praça de São Pedro, na Cidade do Vaticano, tornando-se no 47.º cardeal português da História.

Américo Aguiar, até agora bispo auxiliar de Lisboa, recebeu o anel e barrete cardinalícios, assim como a bula de criação, tendo-lhe sido atribuído o título da Igreja de Santo António de Pádua na Via Merulana, em Roma.

Quando o líder da Igreja Católica pronunciou o nome do novo cardeal português, ouviram-se palmas.

Ao descrever o momento que se seguiu à entrega do barrete e anel cardinalícios, e da bula de nomeação, Américo Aguiar, futuro bispo da Diocese de Setúbal, afirmou que Francisco "falou de Setúbal".

"'Tem Setúbal no seu coração'", precisou o cardeal, considerando que foi "particularmente bonito e inspirador".

Em conversa com os jornalistas na sessão de cumprimentos após o consistório, Américo Aguiar adiantou que, em razão da Igreja titular que lhe foi atribuída, Santo António de Pádua na Via Merulana, em Roma, o Papa "disse umas piadas sobre isso, [Santo António] 'de Lisboa ou de Pádua, agora entendam-se'".

"Para mim, é particularmente significativo que esta Igreja tenha sido a Igreja titular do cardeal António Ribeiro e também do cardeal Hummes, o culpado do nome Francisco", prosseguiu, reconhecendo que tudo isso são sinais, "recados e provocações que coloca no coração".

Sobre o que sentiu quando se preparava para receber os símbolos cardinalícios das mãos de Francisco, Américo Aguiar lembrou-se da vigília na Praça de São Pedro, na Quaresma de 2020, no contexto da pandemia de covid-19.

"Senti a partilha desse peso, dessa caminhada. Depois, 'In manus tuas' [nas tuas mãos, lema episcopal]", prosseguiu, referindo que, a partir do momento que se entrega "nas mãos de Deus, seja o que Deus quiser".

Relativamente ao abraço demorado a Francisco, adiantou que sempre que se encontra com o Papa tem "este gesto de simpatia, de carinho, de avô, de neto, de pai, do filho, de sucessor de Pedro e de colaborador próximo".

Quanto à homilia do Papa, em que este comparou o Colégio Cardinalício a uma orquestra sinfónica, onde a diversidade é indispensável, mas deve concorrer para um resultado comum, Américo Aguiar assumiu não ser "muito bom a música", mas faz parte de "uma orquestra sinfónica e sinodal. "E agora vamos dar música, isso é que é preciso", declarou, referindo que "um homem do Norte rapidamente se adapta a qualquer instrumento".

Este é o nono consistório para a criação de cardeais de Francisco, cujo pontificado começou em março de 2013, após a resignação do Papa Bento XVI (1927-2022).

No seu pontificado, Francisco já nomeou outros três portugueses como cardeais: Manuel Clemente (patriarca emérito de Lisboa), António Marto (bispo emérito da Diocese de Leiria-Fátima) e Tolentino Mendonça (prefeito do Dicastério para a Cultura e a Educação).

Durante o consistório de criação de novos cardeais, o Papa Francisco disse que o Colégio Cardinalício é chamado a assemelhar-se a uma orquestra sinfónica. "A diversidade é necessária, é indispensável, mas cada som deve concorrer para o resultado comum. E, para isso, é fundamental a escuta mútua, cada músico deve ouvir os outros", afirmou Francisco.

Recorrendo à imagem da orquestra, que "representa a dimensão sinfónica e a sinodalidade da Igreja", o tema da Assembleia do Sínodo que começa na próxima quarta-feira, o líder da Igreja Católica sustentou que esta metáfora "pode muito bem iluminar o caráter sinodal da Igreja".

"Uma sinfonia vive da sábia composição dos timbres dos diversos instrumentos, cada um dá o seu contributo, ora sozinho, ora combinado com outro, ora com todo o conjunto", referiu.

Depois, o Papa salientou que "se alguém [se] ouvisse apenas a si mesmo, por mais sublime que possa ser o seu som, não seria de proveito à sinfonia", além de que "o mesmo aconteceria por parte da orquestra não ouvisse as outras, mas tocasse como se estivesse sozinha, como se fosse o todo".

Quanto ao diretor da orquestra, "está ao serviço desta espécie de milagre que é sempre a execução de uma sinfonia", pelo que "deve ouvir mais do que todos os outros".

Segundo Francisco, "ao mesmo tempo, a sua tarefa é ajudar cada um e a orquestra inteira a desenvolver ao máximo a fidelidade criativa, a fidelidade à obra que se está a executar, mas criativa, capaz de dar uma alma àquela partitura, de fazê-la ressoar de forma única, aqui e agora".

"Faz-nos bem espelhar-nos na imagem da orquestra, para aprendermos cada vez melhor a ser Igreja sinfónica e sinodal", adiantou, propondo-a de modo particular aos membros do Colégio Cardinalício, aos quais pediu que sejam "evangelizados e evangelizadores, não funcionários".

Na celebração, para a criação de 21 cardeais (18 dos quais eleitores num futuro conclave), o Papa referiu-se aos novos membros do Colégio Cardinalício que vieram de "diversas partes do mundo", para sublinhar que "o mesmo Espírito que fecundou a evangelização dos vossos povos, agora renova em vós a vossa vocação e missão na Igreja e para a Igreja".

O primeiro-ministro, António Costa, desejou este sábado as "maiores felicidades" ao bispo Américo Aguiar, considerando que a sua nomeação é um "sinal do reconhecimento do seu mérito e trabalho".

"No dia em que recebe do Papa Francisco as insígnias de Cardeal, desejo as maiores felicidades a D. Américo Aguiar. É um sinal do reconhecimento do seu mérito e trabalho", lê-se numa mensagem na conta oficial do chefe do executivo português na rede social X (antigo Twitter).

Costa acrescenta que Américo Aguiar "vai para uma Diocese muito importante e exigente, Setúbal, onde seguramente também fará um excelente trabalho".

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A ministra Adjunta e dos Assuntos Parlamentares, Ana Catarina Mendes, considerou que a investidura de Américo Aguiar como cardeal é o reconhecimento do percurso do futuro bispo de Setúbal.

"A consagração hoje de D. Américo como cardeal é não só o reconhecimento do seu percurso pessoal dentro da Igreja, mas é também o reconhecimento do Papa Francisco, que teve a oportunidade de o dizer, pela excelência da organização nesta Jornada Mundial da Juventude (JMJ)", afirmou Ana Catarina Mendes, que representou o Governo português no consistório para a criação de novos cardeais, na Praça de São Pedro, na Cidade do Vaticano.

A ministra, que teve a tutela da organização da JMJ, declarou que, "enquanto governante e representante do Estado, é também um orgulho que Portugal possa ser visto com esta magnitude, nas várias dimensões" que tem na sociedade e "de que a Igreja também faz parte".

"Eu sempre disse que a Jornada Mundial da Juventude era um momento de afirmação de Portugal como um todo. Portugal é um Estado laico, mas um Estado que respeita todas as religiões. É um Estado que tem uma relação com a Santa Sé histórica e que deve ser mantida", adiantou.

À questão se espera de Américo Aguiar um bispo interventivo em Setúbal, diocese da qual toma posse em outubro, Ana Catarina Mendes referiu que Setúbal é "um distrito com enormes potencialidades de desenvolvimento que tem, ao longo dos anos tido um papel histórico" na formação e consolidação da democracia, "com imensos desafios sociais, cujos problemas, cujas respostas têm sido encontradas para aí".

"Acho que D. Américo, com a sua energia, com a sua competência, com a sua capacidade de mobilizar, será uma voz também ativa para, em conjunto, encontrarmos as soluções que são necessárias para um território tão interessante como é o território de Setúbal", declarou.

Ainda sobre Setúbal, lembrou que a Diocese "recebe hoje, também, um desafio que está nas prioridades do Papa Francisco", assim como nas do novo cardeal, que passa por saber acolher e integrar "as comunidades migrantes que todos os dias chegam a Portugal e de que Setúbal não é exceção".

Já o patriarca de Lisboa, Rui Valério, afirmou que a eleição de Américo Aguiar como cardeal, aos 49 anos, é um sinal de esperança e de que o Papa Francisco está a apostar na juventude.

Para o patriarca de Lisboa, que assistiu à cerimónia, o Papa "está a chamar os jovens para que eles não sejam meros e passivos espetadores no teatro e palco do mundo".

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