Domingo, nos arredores de Istambul, ao assistir a uma manifestação antipapal promovida pelo Partido da Prosperidade Saatet, organização nacionalista pró-islâmica, tive a sensação de que o Vaticano iria suspender a viagem à Turquia. "Não venhas, Papa" - gritava uma muçulmana turca, de idade já andada e rosto quase tapado. As bandeiras nacionais eram agitadas por gente de todas as idades, mas com muitos jovens em primeiro plano. Nos cartazes, em inglês, expunham-se os velhos pecados da Igreja: as cruzadas e a inquisição, com epítetos especiais para Ratzinger, "promotor do nazismo e apoiante do terrorismo internacional". A turbamulta esvaía-se em assobios, quando em ecrãs gigantes passavam imagens de Bento XVI. Como se fosse um cão danado! Curiosamente, li nestes dias que Ratzinger ri em privado quando diz de si mesmo: "Eu sou um velho cão!".Na segunda-feira, o cenário era semelhante, embora com menos adeptos, no interior de Istambul: gritos contra o homem que ousou insultar a alma do islamismo. Isto, até os mais comuns dos turcos não aceitam o exagero e gostariam que o líder católico se retractasse durante a viagem. Mas o volte-face estava iminente na diplomacia do primeiro-ministro turco, que reconsiderando o gesto pouco cortês de não querer receber o Papa ganhou em todos os tabuleiros: o Vaticano dá-lhe a mão para o affaire União Europeia e as próximas eleições presidenciais podem estar ganhas. Bento XVI também não perdeu a face, apesar do seu "não", quando cardeal, e acaba por exorcizar os demónios que pareciam ter tomado conta desta já histórica viagem. Especial DN/TSF