'Becoming Elizabeth': a aprendizagem secreta de uma futura rainha 

Que circunstâncias moldaram Isabel I de Inglaterra, antes de se tornar rainha? A série<em> Becoming Elizabeth</em>, em estreia esta quinta-feira nos canais TVCine, contempla a agitação familiar dos seus anos formativos - um período não explorado por Hollywood, que diz muito sobre a futura Rainha Virgem.
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No cinema, Isabel I (ou Elizabeth I) tem sido sempre retratada pelo imperativo da sua imagem no trono: a rainha do cabelo ruivo guarnecido, com o rosto pintado de branco e uma farta gorgeira ao pescoço. Assim a vimos através de Bette Davis, nas cores vibrantes do Technicolor, em Isabel de Inglaterra (1939) e A Rainha Virgem (1955), mas também na fisionomia de Judi Dench, que venceu um Óscar pelos seus 8 minutos de tempo de ecrã em A Paixão de Shakespeare (1998), ou ainda com os rostos jovens de Cate Blanchett, em Elizabeth (1988), e Margot Robbie, em Maria, Rainha dos Escoceses (2018), cada qual com a sua versão da misteriosa e performativa postura monárquica. Muito mais raro é vê-la de cabelo solto, comprido, e expressão cândida a observar os movimentos domésticos enquanto adolescente órfã - esse é o retrato proposto por Becoming Elizabeth, a série que chega esta quinta-feira ao TVCine Emotion (22h10).

Concentrando-se nos eventos que se seguiram imediatamente à morte do rei Henrique VIII, esta produção britânica de oito episódios, concebida por Anya Reiss, põe a câmara sobre a ação mais ou menos desordenada, mas estratégica, das personagens envolvidas. A saber, o herdeiro do trono, nomeado pelo próprio rei, seria o seu filho legítimo Eduardo VI, que tinha então nove anos - um quadro de inexperiência que criou, por um lado, a ocasião perfeita para alguns consolidarem o respetivo poder junto do ser imberbe, ao mesmo tempo que outros começaram a traçar as linhas de uma intriga de sucessão. Neste contexto surge Elizabeth Tudor, com apenas 14 anos à data da morte do pai. Alguém que, apesar da inocência, não deixou de se aperceber a certa altura da importância de estar do lado do meio-irmão monarca, mesmo que isso a colocasse em divergência com a meia-irmã mais velha, Mary, que se tornou sucessora do jovem Eduardo VI.

Esta não é, porém, a história dessa transição de poder. O drama de Becoming Elizabeth está sobretudo interessado no modo como a personagem titular absorveu o ambiente à sua volta e aprendeu a dominar os sentimentos. Ela que era filha de Ana Bolena, a segunda esposa de Henrique VIII, decapitada a mando do próprio rei (quando Elizabeth tinha dois anos), e que viveu com o fardo da injusta má fama da mãe, chamada de "prostituta".

"Ela encontrou a sua própria voz e percebeu que existe uma forma feminina e bela de liderar, uma forma emocional e vulnerável, ganhando respeito com suavidade. Foi isso que tentei extrair [de Elizabeth] enquanto jovem", disse a atriz Alicia von Rittberg, em entrevista à Entertainment Weekly, sobre a sua Elizabeth Tudor. "O que ela se tornou mais tarde é definitivamente uma escolha sua, porque experimentou muita dor e relacionamentos difíceis durante os seus primeiros anos. Faz todo o sentido que não se tenha casado e tenha feito tudo sozinha. Queria ser vista como a Rainha Virgem."

Esta visão corresponde sem dúvida à figura dócil que descobrimos no ecrã, progressivamente esculpida pelas circunstâncias. Mas repare-se num pormenor curioso: Elizabeth era aqui uma adolescente de 14 anos e surge interpretada por uma atriz de 27 (a idade que Alicia von Rittberg tinha durante a rodagem), sem que essa evidência da maturidade física se torne um entrave à dimensão plausível do drama histórico. Isto porque, segundo a criadora da série, estamos a falar de uma adolescente que se sentia adulta e agia como tal. A sua idade é, aliás, referida algumas vezes, como que a recordar o espectador da inadequação daquilo que poderia acontecer dentro de portas.

Para sermos mais específicos, vale a pena revelar que no âmago dos primeiros episódios de Becoming Elizabeth está a figura de Sir Thomas Seymour, irmão da terceira esposa de Henrique VIII, Jane Seymour, e tio do então rei Eduardo VI, sendo, para além disso, amante da quarta e última esposa de Henrique, Catherine Parr, com quem casou logo após a morte do monarca... É quase inenarrável este jogo de relações, que se torna ainda mais complexo quando Thomas se encanta com a beleza e o charme tímido da jovem Elizabeth, dedicando-se, apesar da grande diferença de idades, a galanteios disfarçados, no sentido de se aproximar cada vez mais do seu leito.

A partir deste motivo, fica esclarecido que a educação sentimental (e sexual) de Elizabeth passará por esse homem de desejos incontroláveis e postura festiva - a dramaturga Anya Reiss quis explorar isso e oferecer uma entrada inédita na adolescência da futura rainha Isabel I de Inglaterra. E fê-lo acreditando que a sua série é um drama de época para quem não os aprecia, como afirmou à revista Time: "Não costumo ver dramas de época, por isso acho que tentei fazer um a que eu própria fosse capaz de assistir". Reiss que disse na mesma entrevista ter procurado a versão mais humana possível de Elizabeth: "As pessoas acham-na icónica. Eu quis desendeusá-la". E, de facto, se é difícil concordar com a ideia de que Becoming Elizabeth consegue fugir à natureza de uma série de época, o certo é que a proposta é bastante bem-sucedida na humanização da personagem. Vemo-la pelo ângulo da fragilidade prestes a ser largada como uma pele morta, revelando, sem grande sobressalto, uma jovem mulher que se manteve atenta, aprendendo a lei da caça sem tolerar o sofrimento da presa (veja-se a cena com o veado). E mais: numa atmosfera pejada de conspiração política, com traições ao virar da esquina, são as turbulências de cada personagem que fazem luz sobre os tons quase sempre noturnos da série - possivelmente, uma forma de sublinhar a necessidade que à época se impunha de desenvolver o faro no seio de uma escuridão metafórica.

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