Batalha de Estalinegrado evocada para legitimar ofensiva na Ucrânia 

Regime de Putin comemora 80 anos da vitória soviética na atual Volgogrado para traçar paralelismo com a invasão à Ucrânia.
Publicado a
Atualizado a

Oitenta anos após a devastadora batalha por Estalinegrado, um dos capítulos mais sangrentos da Segunda Guerra Mundial, voluntários como Andrei Oreshkin ainda estão a recuperar restos mortais de soldados soviéticos. Mais de um milhão de membros do Exército Vermelho morreram a lutar pela cidade no sul da Rússia, um sacrifício que a tornou num símbolo da vitória da União Soviética sobre a Alemanha nazi e na Meca do atual patriotismo russo.

O aniversário dessa batalha crucial assumiu um significado acrescido este ano, com as tropas russas a lutar na Ucrânia. O Kremlin esforçou-se ao máximo para apresentar o conflito que dura quase um ano como mais uma luta contra o nazismo, tal como a que teve lugar na cidade agora chamada Volgogrado. E muitos, incluindo Oreshkin, estão recetivos a esta narrativa. "Claro que estamos a combater o fascismo", disse à AFP em Rossoshka, um cemitério perto de Volgogrado para soldados soviéticos, bem como soldados alemães e romenos.

Além disso, concorda com a opinião de Moscovo de que o conflito na Ucrânia está enraizado no erro de cálculo do Ocidente quanto à determinação e capacidade da Rússia, como na Segunda Guerra Mundial. "Na altura, a Alemanha nazi e os seus aliados subestimaram a URSS, o seu poder e o patriotismo do seu povo", disse Oreshkin. "O Ocidente espera que a Rússia seja fraca."

Tais comparações com o passado estão por toda a parte em Volgogrado, uma cidade de um milhão de habitantes onde cada rua ostenta a recordação da destruição de há 80 anos. Símbolos das forças russas na Ucrânia - as letras Z e V - estão afixados lado a lado com bandeiras e memoriais em honra das tropas soviéticas.

A mensagem histórica de que Moscovo deve mais uma vez combater o fascismo europeu ecoa as justificações do presidente Vladimir Putin quando lançou a ofensiva em fevereiro do ano passado, jurando "desnazificar" a Ucrânia.

No Museu da Batalha de Estalinegrado, a funcionária Tatiana Prikazchikova disse que a crítica ocidental à Rússia não é "nada de novo", após séculos de confrontos. Recentemente, o museu acolheu cerimónias de entrega de medalhas às famílias dos soldados russos mortos na Ucrânia. "A mensagem é esta: os seus antepassados estavam a lutar contra o fascismo", disse Prikazchikova, apontando para um panorama de 360 graus retratando a batalha. "E eles estão a seguir esta tradição."

O museu acolheu recentemente uma cerimónia para o movimento patriótico do Exército da Juventude, financiada pelo Ministério da Defesa, onde os líderes disseram às crianças: "Vocês são os descendentes dos vencedores de Estalinegrado!" Os famosos memoriais de guerra da cidade, tais como a estátua A pátria chama, foram também utilizados como pontos de envio de soldados voluntários que se dirigiam para a Ucrânia.

A maioria dos residentes de Volgogrado que falaram com a AFP disseram estar satisfeitos com as comemorações do 80.º aniversário da batalha, embora muitos não quisessem fazer quaisquer comparações com o conflito da Ucrânia. "Devíamos pensar nisso, para não repetirmos erros e tirarmos algumas conclusões", disse Yekaterina Sedova, cujo bisavô lutou em Estalinegrado. Esta estudante de química de 21 anos participou em eventos patrióticos ligados à comemoração, mas não quis "misturar" os eventos, acrescentando que estava a tentar limitar a sua exposição às notícias sobre a Ucrânia para não se "magoar emocionalmente".

Outros sentiram-se desconfortáveis com a pompa. "Isto é uma tragédia para Volgogrado e para o nosso país", disse Maria Anshakova, de 31 anos, junto à margem do rio Volga, dizendo que a efeméride "deve ser marcada de forma discreta".

O historiador e ativista local Vyacheslav Yashchenko disse que as celebrações se tinham tornado muito maiores em comparação com as da época soviética. Disse também estar perturbado por ver o governo promover a ofensiva da Ucrânia juntamente com o aniversário de Estalinegrado. "É verdade que as vitórias [da II Guerra Mundial] foram realmente enormes para o nosso país. Mas as autoridades estão agora a utilizar vitórias passadas e acontecimentos históricos que lhes servem em benefício da imagem do país e para manipular a consciência das pessoas", afirmou.

De volta ao memorial Rossoshka, Oreshkin, pertencente a um grupo que recuperou os restos mortais de mais de mil soldados do Exército Vermelho só no ano passado, mostrou as etiquetas de identificação e outros artigos pessoais que encontrou nos arredores de Volgogrado. "As gerações futuras podem ter de fazer o que nós estamos a fazer", suspirou. "Só espero que os responsáveis aprendam com a nossa experiência e que os mortos não fiquem abandonados nos campos."

Artigos Relacionados

No stories found.
Diário de Notícias
www.dn.pt