Base de apoio a Lula dividida na Câmara dos Deputados

Publicado a
Atualizado a

A eleição para a presidência da Câmara dos Deputados brasileira está a desestabilizar a base de apoio de Lula da Silva, tudo porque nenhum dos dois candidatos da maioria governamental aceita desistir da disputa. A divisão entre o actual líder, Aldo Rebelo, do Partido Comunista do Brasil (PCdoB), e Arlindo Chinaglia, do Partido dos Trabalhadores (PT), poderá beneficiar o candidato da "terceira via", Gustavo Fruet, do Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB).

Independentemente de quem for hoje eleito líder da Câmara, e portanto segundo na linha de sucessão à Presidência, certo é que o primeiro derrotado será Lula. "Não será uma derrota acachapante, daquelas que deixam estragos enormes, mas será um revés. Afinal, seja quem for o vencedor, o novo presidente da Câmara terá uma esfera maior de autonomia em relação ao Governo federal", escreveu o colunista Valdo Cruz, na Folha de São Paulo.

Lula já admitiu que as divisões vão obrigá-lo a proceder a uma "adequação político-partidária" na formação do Executivo, de forma a recompor a base de apoio. "O que está em discussão é a qualidade do Governo, que dependerá de um bom cimento político que estamos a montar. Nesta perspectiva, acho uma insensatez que duas forças políticas aliadas não encontrem uma fórmula, ainda que complexa, de sairmos deste episódio unidos", disse o deputado Ciro Gomes, do Partido Socialista Brasileiro (PSB).

Um dos pontos de maior crispação na disputa entre Aldo Rebelo e Chinaglia ocorreu no debate televisivo de segunda-feira, quando o deputado do PCdoB referiu que uma eventual vitória do seu adversário seria negativa para a democracia: "Não julgo bom nem para a democracia, nem para o país, nem para o próprio PT a concentração de tanto poder nas suas mãos."

Chinaglia parece contudo reunir o maior número de apoios, pelo menos a nível de orientação partidária - que não é suficiente para garantir os votos. O líder do PT na Câmara é apoiado pelas duas maiores bancadas (PMDB e PT), além de outros seis partidos, num total de 273 deputados. Aldo Rebelo , que já foi ministro das Relações Institucionais de Lula, tem o apoio dos 70 parlamentares do bloco formado por PSB, PDT, PCdoB, PAN, PMN e PHS e dos 63 do PFL. Gustavo Fruet é apoiado pelo PSDB e PPS, que representam 85 votos. Para vencer, um candidato necessita de 257 votos, mas as sondagens indicam ser provável a existência de segunda volta.

É neste caso que a "terceira via" pode surpreender os favoritos, como aconteceu com Severino Cavalcanti, do Partido Progressista (PP), eleito em Fevereiro de 2005. O candidato do "baixo clero", como ficou conhecido, acabaria por renunciar ao mandato sete meses depois, devido ao seu envolvimento no escândalo de corrupção do "mensalinho".

A recuperação da credibilidade da Câmara dos Deputados é um dos desafios mais importantes do futuro líder. Sete dos nove grandes escândalos que envolveram política e corrupção, nos últimos 15 anos, tiveram como palco o Congresso. Segundo uma sondagem Ibope para a revista Veja, mais de metade dos brasileiros adjectiva os parlamentares de "desonestos, insensíveis e mentirosos".

Artigos Relacionados

No stories found.
Diário de Notícias
www.dn.pt