O Bairro em Festa, festival organizado pelo Largo Residências no eixo da Avenida Almirante Reis, em Lisboa, arranca com mais uma edição para lembrar que "a cultura tem de continuar". Foi anunciado esta quinta-feira..O festival -- que inicia uma programação com 90 atividades que, durante quatro dias, vão espalhar-se por três locais (Largo do Intendente, Quartel do Largo do Cabeço de Bola e Campo dos Mártires da Pátria) -- é um "'statement' [afirmação] permanente", que vinca como a cultura continua a ser necessária na "malha urbana" da Almirante Reis, "porque serviu muito para ativar um território muito degradado", lembra Marta Silva, diretora artística do Largo Residências.."A cultura não pode desaparecer daqui e continua a ser essencial", frisa, em conversa com a Lusa, entre os preparativos em curso no Cabeço de Bola, sabendo que esta será a última edição do festival no quartel militar onde o Largo Residências está instalado há mais de um ano, mas que terá de deixar em setembro, porque será transformado em habitação acessível pela Câmara Municipal de Lisboa..A programação do Bairro em Festa, que arranca na tarde desta quinta-feira, inclui atividades para crianças e escolas, debates e conversas, cinema e concertos (Carlos Barretto e outros músicos de jazz vão revisitar o repertório de Marco Paulo; o grupo musical Not Forbidden vai tocar em Portugal a música proibida na sua terra natal, o Afeganistão; dois músicos ucranianos fugidos à guerra vão apresentar a Litá Band; Susana Travassos vai mostrar as Vozes Femininas do Mediterrâneo, projeto de experimentação através do canto que fez com mulheres)..Entre os destaques está a exposição multimédia "O que cá entrou não pode estar", que revisita a memória do quartel que o projeto vai ter de deixar em setembro..Concebida por 12 artistas de áreas diferentes, selecionados entre os mais de 100 que se candidataram, a exposição será inaugurada ao fim da tarde desta quinta-feira, e resulta de um desafio lançado aos artistas residentes para "deixar uma marca na história" do espaço, "que foi tão curta, mas tão intensa", realça Marta Silva, recordando que, "em um ano, 50 organizações, com 200 trabalhadores da cultura, fizeram mais de 300 atividades públicas e envolveram milhares de pessoas"..O espaço acolheu a GNR até 2015 e foi 'ocupado' pelo coletivo em 2022.."Quando entrámos aqui pela primeira vez, [o espaço estava] completamente abandonado, era uma mini-selva", recorda José Luis Costa, do Largo Residências..Nas pesquisas feitas no Arquivo Municipal de Lisboa, descobriram um mapa de 1858 que mostra como a zona à volta era tudo campo. "Hoje é (...) alojamento local, alojamento local", nota.."Gosto muito da maneira de estar do quartel inteiro e da maneira de estar do meu coletivo. Somos uma data de curiosos, a ensinar coisas uns aos outros e sempre a pensar em que podemos melhorar", descreve Sónia Sousa, do BLAB Coletivo Maker, laboratório dedicado à procura de soluções inovadoras para problemas reais como as alterações climáticas e a sustentabilidade..Na programação, este laboratório fará atividades, para adultos e crianças, que promovem a economia circular e capacitam as pessoas para "arranjar e remendar coisas, em vez de as descartar", adianta..O Largo Residências está aberto a quem quiser participar, apoiando-se numa "relação muito forte" com os atores culturais e sociais que estão no território e com as suas "missões", sejam culturais, educativas ou de intervenção social, explica Marta Silva, referindo que, para esta edição do Bairro em Festa, decidiram, pela primeira vez, "fazer uma 'open call' [convite público] para ainda ir mais a fundo na participação dos agentes culturais e artísticos do território"..O resultado é uma "festa de um bairro que mostra, neste momento, o que é feito durante todo o ano", resume Marta Silva.