Mais de quatro décadas depois de ter sido separado dos seus pais - ativistas que "desapareceram" durante a ditadura militar argentina - um homem criado por outros descobriu a sua verdadeira identidade, anunciou o grupo ativista argentino conhecido como Avós da Plaza de Mayo..O homem é a 131.ª criança "roubada" durante a ditadura a ser identificada, numa luta que as Avós da Plaza de Mayo travam há décadas - e a primeira em quase três anos. A identidade do homem não foi divulgada.."Estamos felizes em anunciar uma nova restituição de identidade", disseram as avós, em comunicado, depois do resultado dos testes de ADN.."É como se o final do ano quisesse realizar todos os nossos desejos", disseram, referindo-se à recente vitória da Argentina no Mundial de futebol. "Hoje comemoramos a descoberta de um novo neto, o número 131"..Quase 300 outros homens e mulheres "vivem entre nós com identidades falsificadas", depois de terem sido tirados aos seus pais durante a ditadura de 1976-1983, e ainda não foram encontrados, acrescentou o grupo..Hoje com 44 anos, o homem era filho dos ativistas marxistas Lucia Nadin e Aldo Quevedo, de Mendoza, detidos em Buenos Aires em outubro de 1977. Nadin, 19, estava grávida de quase três meses na época..A presidente das Avós de Mayo, Estela de Carlotto, 92 anos, disse aos jornalistas que Nadin provavelmente deu à luz o seu filho na notória Escola de Mecânica da Marinha (ESMA), que servia como a maior instalação de detenção e tortura do país.."Disseram-nos que ele é uma pessoa doce e calma", acrescentou de Carlotto. "Ele não reagiu com recusa ou tristeza" ao descobrir sua verdadeira identidade. Mas a líder do grupo ativista explicou que o homem em questão precisará de tempo para digerir completamente a notícia antes de ver a sua identidadade apresentada ao público.."Ele apenas encarou a notícia como uma realidade, uma nova realidade para ele", disse de Carlotto..O grupo das Avós de Mayo foi fundado em 1977 por mulheres que tentavam encontrar as suas filhas presas - e os bebés que tiveram em cativeiro..Surgiram como um subgrupo da organização Mães da Plaza de Mayo e, tal como este, levam o nome da praça de Buenos Aires, onde, à época, mulheres desafiaram as autoridades para realizar protestos, em vão, exigindo informações sobre o paradeiro dos seus entes queridos. .Cerca de 500 crianças foram tiradas às respetivas mães, presas, a maioria das quais desapareceu sob o regime militar brutal do país. A maioria das crianças foi dada a pessoas sem filhos próximas da ditadura, de forma a serem criadas como leais ao regime..Muitas das pessoas ajudadas pelas Avós de Mayo entraram em contacto com o grupo depois de terem dúvidas sobre a sua identidade - devido à falta de semelhança física com os seus pais, à ausência de fotos das suas mães durante a gravidez ou a falhas na história familiar..Esta é a primeira nova identificação desde junho de 2019. A pandemia de coronavírus travou a pesquisa das avós e as entrevistas com possíveis vítimas. Seis das avós originais morreram durante a pandemia..Grupos de direitos humanos estimam que cerca de 30.000 pessoas morreram ou desapareceram durante a ditadura militar argentina