A s convicções são importantes, cada vez mais importantes, num mundo onde tudo se procura reduzir à globalização do bom e do mau, à descaracterização do indivíduo, das culturas, das linguagens, dos saberes. «Todo o mundo é composto de mudança», escreveu Camões, mas o que é a mudança? Precisamos de mudar para abarcar o novo, os sinais dos tempos, o evoluir do conhecimento. Mas que temos de conservar, para que o novo não nos desprenda das raízes, não nos arraste para uma terra de ninguém, para um território despojado de valores? Estas e outras questões terão habitado o raciocínio de dirigentes e de militantes do PCP, antes e durante o Congresso. Sabem quanto o progressivo definhar do partido, em termos de representação parlamentar e autárquica, é preocupante. Muito do campo de recrutamento do PCP se passou para um campo à direita, o do PS, ou outro à esquerda, o do BE. O PCP está prisioneiro do seu como. Como abrir e modernizar, sem descaracterizar, como se manter fiel à utopia sem descolar do real? Este como encerra dois medos que convergem, e são a história recente do movimento comunista, após a queda do império soviético. Os partidos comunistas que se refundaram foram conquistados pela social-democracia, os que se mantiveram fiéis às raízes definharam e quase desapareceram. Cunhal e Carvalhas não quiseram refundar e com isso retardaram o definhamento. Mas, ao não modernizarem o suficiente, não pararam as dissidências e deixaram as palavras de ordem da juventude radical nas mãos do BE. Também não foram capazes ainda de se reconciliar com a liberdade e a democracia. No seu discurso, Carvalhas elogiou tudo o que resta de totalitarismo - se o Muro de Berlim não tivesse caído, ele elogiaria um camarada qualquer que estivesse sentado no trono do Kremlin. Como partido de convicções, o PCP resiste. Isso é um crédito. Como partido velho, não olha o mundo com olhar desperto. Um importante débito, que coloca o novo líder no centro da quadratura do círculo.