Até 2025, cerca de metade dos profissionais ativos terão que passar por programas de requalificação de competências devido à crescente utilização da tecnologia e para se manterem atualizados nas suas carreiras. Os dados são do Future of Jobs Survey, levado a cabo pelo World Economic Forum que estima, contudo, que esta requalificação, na maior parte das funções, é exequível em menos de seis meses..Um cenário que, apesar de tudo, pode ser assustador para as empresas, mas que, na perspetiva de André Ribeiro Pires, deve ser visto como uma oportunidade. "É efetivamente uma oportunidade de qualificar", afirmou o Chief Operating Officer (COO) da Multipessoal durante mais uma conversa com a diretora do Diário de Notícias, Rosália Amorim, integrada na iniciativa Os números do emprego, que visa debater os desafios que se impõem ao mundo do trabalho no contexto pós-pandemia. Nesta conversa, que decorreu esta semana, e que está disponível no site do DN, o tema em debate foi "os desafios do upskilling e do reskilling", quer para as empresas, quer para os profissionais..Com um olhar no "copo meio cheio", o responsável da Multipessoal acredita que a necessidade de reajustar as competências de um tão elevado número de pessoas a nível global pode ser uma oportunidade, não só para a requalificação de profissionais cujas competências estão desadequadas das necessidades do mercado, mas igualmente para combater a escassez de talento, vista por muitos como o maior desafio empresarial atual e para o futuro próximo..A falta de profissionais em praticamente todos os setores de atividade, apesar de mais marcada nas áreas tecnológicas ou no turismo, é um problema global, cuja origem não está apenas relacionada com a desadequação de competências. André Ribeiro Pires sublinha outras causas, nomeadamente na Europa, como o envelhecimento da população e a crescente não renovação do número de pessoas disponíveis para o emprego. Por isso, quando o tema é a redução de cerca de 1,1 milhão de postos de trabalho até 2030, como apontam estudos do World Economic Forum ou da consultora McKinsey, o responsável da Multipessoal continua a ter uma perspetiva positiva. "Esta redução não é propriamente uma redução que vai penalizar alguém. É uma redução que vai equilibrar aquilo que é a oferta e a procura de trabalhadores disponíveis, por via da redução de empregos que não acrescentam valor, e pela sua automação e otimização", defende..Com uma maior consciência da importância da aprendizagem e da formação ao longo da vida, muitos profissionais em processos de recrutamento e de procura de emprego privilegiam empresas que lhes proporcionem formação e atualização constante. Quando isto não acontece, explica André Ribeiro Pires, muitos candidatos não aceitam ofertas de emprego. Por outro lado, salienta, muitas empresas estão a usar a oferta formativa como um fator de atratividade para novos candidatos. "Nós próprios na Multipessoal realizámos, em 2022, um estudo que revela que 65% das pessoas inquiridas sentem necessidade de ter essa formação contínua para desenvolver as suas carreiras". Um valor que aquele responsável considera significativo e revelador de que as pessoas estão conscientes de que terão que adquirir novas competências, de forma contínua, ao longo da sua carreira. Aliás, acrescenta, "são cada vez mais os jovens que já não têm necessidade de ter uma profissão ou carreira. A aprendizagem ao longo da vida determina o caminho de cada um". .Ao nível da formação, a automação e a introdução de novas tecnologias também facilita a aquisição de competências em qualquer momento da carreira. A pandemia veio demonstrar que a aprendizagem à distância, seja em modelos síncronos ou assíncronos, permite flexibilizar a formação, quer na perspetiva das empresas, quer dos profissionais. "A formação é mais direcionada e personalizada, multiplataforma, e à medida de cada um", reforça o COO da Multipessoal. E esta flexibilidade aplica-se não só à oferta formativa regular nas organizações, como também à oferta de reskilling ou upskilling que é cada vez mais frequente através de escolas profissionais, politécnicos ou universidades..Apesar de tudo, André Ribeiro Pires reconhece que, ao nível da formação de base, nomeadamente nos cursos de nível superior, ainda há algum trabalho a fazer na adequação dos currículos à realidade atual. Mas, admite que este é um caminho que leva o seu tempo. "Tem havido uma aproximação gradual destas instituições ao mundo empresarial com vista a desenvolver cursos mais adequados à realidade e ao emprego, mas é uma mudança que exige tempo"..Novas profissões e atividades, e mais tecnologia no dia-a-dia das organizações exigem não só distintas competências técnicas - as chamadas hard skills -, como outras, mais relacionadas com a personalidade e o comportamento que realmente farão a diferença na altura de contratar e de ser contratado..De acordo com o Future of Jobs Survey, do World Economic Forum, competências como o pensamento crítico, a criatividade e a capacidade de resolução de problemas estão no topo das mais procuradas pelas empresas..Isto significa que, independentemente da tecnologia utilizada nas organizações, as caraterísticas intrinsecamente humanas continuarão a ser necessárias e extremamente importantes nos negócios. "A automação permite solucionar problemas menos complexos. Para os humanos fica aquilo que é a resolução efetiva dos problemas difíceis", assegura André Ribeiro Pires. Ou seja, sobre o receio de que as pessoas poderão ser trocadas por robôs, o COO da Multipessoal sublinha, uma vez mais, que a criatividade humana fará sempre a diferença e que as máquinas deverão ter um papel de facilitador e de assegurar tarefas rotineiras que podem ser automatizas. Uma oportunidade que, reforça, abrirá portas à requalificação dos profissionais que poderão ter aqui a possibilidade de evoluir nas suas carreiras..De regresso às competências mais procuradas, o COO da Multipessoal juntaria uma que considera essencial: a componente ética. "Um dos grandes impactos que a tecnologia nos vai trazer é que os humanos deixam de ser necessários para realizar tarefas repetitivas, mas, ao nível das decisões, a ética faz toda a diferença", afirma. A automação permite tomar decisões mais rápidas e informadas, especialmente com a ajuda das ferramentas de inteligência artificial ou de machine learning, mas a supervisão e o "olho" humanos serão sempre indispensáveis..Contudo, esta capacidade de trabalhar e de analisar os dados exige também novas competências por parte dos profissionais e será um fator diferenciador na procura de emprego. "Saber trabalhar os dados, saber interpretar a informação e promover a inovação é uma competência fundamental e que tem que ser desenvolvida de forma contínua", defende o responsável da Multipessoal..Este conhecimento proporcionado pela extração de informação útil a partir dos terabytes de dados criados diariamente no mundo e nas empresas permite igualmente uma utilização interna na gestão dos recursos humanos e das equipas. "A tomada de decisões que tem por base este tipo de insights, pode fazer a diferença numa relação entre empregador e trabalhador a diversos níveis", explica André Ribeiro Pires, que acrescenta: "Atualmente temos um conjunto de indicadores que conseguimos acompanhar quase em tempo real, que nos permitem perceber se há algum efeito, algum padrão, algum alerta que nos possam fazer ter de tomar uma ação concreta, num cliente, num colaborador, numa situação concreta de uma empresa, ou numa rede de fornecedores"..De acordo com o Future of Jobs Report, do World Economic Forum, as dez competências mais procuradas em 2025 assentam, essencialmente, em quatro tipos: resolução de problemas, auto-gestão, trabalhar com pessoas, e uso e desenvolvimento de tecnologia. Dentro destas quatro competências-chave, destacam-se um conjunto de outras que as têm por base. Veja quais são:.- Pensamento analítico e inovação. - Aprendizagem ativa e estratégias de aprendizagem. - Resolução de problemas complexos. - Pensamento crítico e análise - Criatividade, originalidade e iniciativa. - Liderança e influência social. - Uso, monitorização e controlo da tecnologia. - Design e programação tecnológicos. - Resiliência, tolerância ao stresse e flexibilidade. - Raciocínio, resolução de problemas e imaginação.. dnot@dn.pt