Atenas 2004 - Os Jogos a casa tornam

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Grécia. 108 anos depois

Finalmente, os Jogos Olímpicos voltaram a casa. A Grécia ainda guardava rancores desde as Olimpíadas de Atlanta, EUA, em 1996. Que, diga-se, não deixaram saudades. Os gregos, evidentemente, levaram a peito a decisão de atribuir aos Estados Unidos da América a sua quarta Olimpíada, recusando à Grécia a comemoração da festa olímpica. E logo no ano do seu centenário. Na ocasião, o Comité Olímpico Internacional (COI) fez orelhas moucas às pretensões da Grécia, fazendo o mesmo mais tarde às reclamações, depois de Atlanta não ter correspondido, muito longe disso, às expectativas. Atenas, porém, ainda teria de esperar quase uma década, porque os Jogos Olímpicos que se seguiam foram directos para a cidade de Sydney, estes, sim, exemplares.

Não foi sem luta que a Grécia conseguiu trazer de volta os Jogos Olímpicos para Atenas, onde tudo começou, onde recomeçou. Eram muitas as candidatas à organização das Olimpíadas de 2004, com Buenos Aires, capital argentina, à cabeça: Cidade do Cabo (África do Sul), Istambul (Turquia), Lille (França), Rio de Janeiro (Brasil), Sevilha (Espanha), Estocolmo (Suécia) e Sampetersburgo (Rússia) eram concorrentes de peso. Ainda por cima, não se sabe exactamente porquê, a Grécia não dava ao COI grandes garantias de estar à altura de uma organização com as dimensões de uns Jogos Olímpicos. Para os gregos, evidentemente, não podia haver maior ofensa.

Foi, por isso, uma explosão de alegria quando o COI anunciou que, 108 anos depois das primeiras Olimpíadas da era moderna, Atenas era de novo anfitriã do maior evento desportivo do planeta. E a verdade é que a Grécia não desiludiu. Atenas 2004 teve presentes mais de 11 mil atletas, em representação de 201 países. Estes Jogos Olímpicos, até pelo expoente globalizante dos media, que pela primeira vez fizera chegar as Olimpíadas em directo através da Internet, atingiu números de assistência inauditos. Fez saber a organização que Atenas 2004 foi vista por cerca de quatro biliões de pessoas nos cincos continentes, pelos quais, aliás, tinha pela primeira vez na história dos Jogos Olímpicos passado a tocha olímpica.

Não era, portanto, difícil aceder a imagens, que ficaram para a história, encontrando-se com ela, no mítico Estádio Panathinaikos, onde decorreram as primeiras Olimpíadas da era moderna, ou mesmo nas lendárias ruínas conservadas de Olímpia, onde decorreu o lançamento do peso, onde tudo começara há mais de três mil anos. E, mais uma vez, muita história se fez em Atenas, com muitos heróis do olimpismo a condizer. E, por falar em heróis, dificilmente alguém ultrapassará o feito de um norte-americano, mais rá- pido nas piscinas do que alguns peixes na água. Michael Phelps tornou-se no melhor nadador olímpico de sempre, destronando outro norte-americano, um atleta dourado, de nome Mark Spitz. Ainda assim, entre as oito medalhas de Phelps "só" seis foram de ouro , uma menos do que Spitz em Munique 72, o que valeu a sobrevivência do mito.

Do quadro das medalhas dos Jogos Olímpicos de Atenas saiu um aviso, talvez antecipando estas Olimpíadas de Pequim: cuidado com o gigante. Os atletas chineses conquistaram em Atenas os seus melhores resultados de sempre, arrecadando 32 medalhas de ouro. Também não faltaram muitos países a estrear-se em matéria de medalhas.

Os atletas corresponderam, a alegria alastrou das bancadas para o globo. Houve em Atenas momentos de grande euforia, que havia também de contrastar com outros de grande dramatismo, como aconteceu nas provas da maratona feminina e masculina. Alguém se lembra deste nome?... Vanderlei Cordeiro de Lima. O maratonista brasileiro tinha tudo e já não faltava quase nada para conquistar o ouro na maratona de Atenas quando foi atacado por um irlandês tresloucado, Cornelius Horan de seu nome. Com um esforço verdadeiramente olímpico, o brasileiro ainda teve fôlego para recomeçar a sua prova. E ainda conseguiu um terceiro lugar. Que, claro, teve um sabor amargo. No entanto, teria uma medalha adicional, que o COI fez questão de lhe oferecer: A medalha de honra Pierre de Coubertin, pelo espírito olímpico demonstrado.

Já agora, não que o barão de Coubertin gostasse de ouvir esta notícia, os transexuais foram pela primeira vez autorizados a competir, desde que provassem que o uso de hormonas não adulterava as suas prestações.|

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