"Eu nasci assim, eu cresci assim e sou mesmo assim. Vou ser sempre assim. Gabriela." Poucos são os que estão a ler este texto e não estão a cantarolar a música da novela que foi um sucesso há 37 anos. A música continua a saltar de geração em geração e muitos dos que a cantam só agora, com o remake de Gabriela, na SIC, com estreia para dia 10, vão perceber de onde veio a música..A tendência surgiu no Brasil na década de 1970, altura em que as bandas sonoras das novelas começaram a ser comercializadas [com a novela Véu de Noiva, de Janete Clair] e se revelou um autêntico fenómeno de vendas. A moda chegou a Portugal, mas só se tornou mais vincada a partir do ano 2000, quando as novelas nacionais começaram a ser um produto com audiências elevadas..A Notícias TV quis perceber quais são as razões que levam as músicas a tornarem-se grandes êxitos depois de entrarem na banda sonora de uma novela. Para Miguel Martins, da direção musical da Plural Entertainment (produtora de novelas TVI), a explicação é simples. "Atualmente não há nenhum programa que dê tanta atenção às músicas como as novelas. Sei o que significa ter uma música numa novela. A novela tem uma função crucial de divulgação nesta área. Principalmente nos últimos anos. É pioneiro e o único meio em televisão", diz..José Cid, que já deu voz aos genéricos de novelas na estação de Queluz de Baixo, como Meu Amor e mais recentemente LoucoAmor, partilha da mesma opinião mas vai mais longe: "Para mim é bom que passe nas novelas porque a rádio não me passa, virou-me as costas. A música tem outra visibilidade [ao passar na novela]. O público não tem memória, o público gosta de ouvir as músicas que conhece. Gosto que eles passem a música, mas o que me dá prazer é gravar.".A cantora Rita Guerra já perdeu a conta às músicas a que emprestou para novelas portuguesas. Morangos com Açúcar, Sentimentos, Queridas Feras e Louco Amor são alguns exemplos. "O balanço de ter uma música numa novela é extremamente positivo. Nos concertos, constato que todos sabem as letras das canções, mas quando chega a vez do Sentimento [música da novela Sentimentos], por exemplo, o coro aumenta", revela à nossa revista..Para Mila Ferreira, ver o seu trabalho associado a uma novela é "um privilégio e um orgulho". A cantora que dá voz ao tema És Metade de Mim, ligado às personagens Evaristo (João Didlet) e São (Sofia Nicholson), também admite que as novelas são um ótimo expositor para divulgar canções nacionais. "Nos espetáculos, o público sabe a letra toda e isso também se repercute na venda de álbuns. Além disso, os diretores musicais são extremamente criteriosos na escolha das músicas. Se optam por passar um tema nosso é porque reconhecem o seu valor", assevera Mila..Toy, que compôs e deu voz ao tema Olhos de Água, que deu título à novela protagonizada pelos atores Sofia Alves e Pedro Lima na TVI, também revela que na altura o público pedia que tocasse o tema nos concertos..Apesar de não ter dado a voz à música do genérico de Podia Acabar o Mundo, em reposição na SIC, foi Herman José quem idealizou a melodia. O humorista revela que nem "as pessoas mais atentas" reclamam sempre que não toca esse tema nos espetáculos e deixa o recado: "Estou à espera de que um dos canais invente uma personagem XXL numa das novelas para lhes ceder o meu mais recente desabafo musical autobiográfico, Amanhã Faço Dieta"..Além de dar visibilidade aos cantores que já são conhecidos do grande público, a inclusão de uma música numa novela também pode ajudar a lançar novos talentos. "O meu trabalho é colocar novos autores, é estar com atenção ao que há de novo, ouvir música, descobrir novos talentos", assegura Miguel Martins, da Plural..Foi o caso de Patrícia Candoso, atriz que recebeu um convite para dar voz ao genérico da novela Doce Tentação, e que apenas tinha tido duas experiências no panorama musical. "Está a ser uma experiência muito interessante. Na rua recebo muitos comentários das pessoas que me felicitam, embora nem toda a gente saiba que sou eu que canto", destaca Patrícia, acrescentando que investir na carreira de cantora é algo que não coloca de parte..Processo longo e minucioso.A banda sonora de uma novela tem o poder de envolver o espectador no ambiente sentimental da trama e transportá-lo para dentro da história. O processo de seleção das músicas dura no mínimo dois meses e passa por diversas fases, como explica Miguel Martins. "Em cada produção que é feita, depois de eu receber a sinopse, as personagens, os atores, a história, idealiza-se uma possível banda sonora. Num primeiro rastreio ouço mais de 200 a 300 músicas. Depois faço uma seleção de 60 a 70 e escolho entre 30 e 35", começa por explicar o responsável. "Um episódio de uma novela tem 40 a 50 minutos de ação, 30 são de música", acrescenta..Pedro Lopes, autor de Dancin'Days da SIC, opta por não se envolver no processo de seleção de temas, mas confessa-se satisfeito com as escolhas. "Tem uma seleção de cantores/bandas fantástica. A música tem esse poder fantástico de simplesmente pontuar ou separar uma cena e ainda de conferir dramatismo ou leveza a uma cena", destaca o guionista..Tozé Martinho, que escreve a novela LoucoAmor, em exibição na TVI; também não tem o hábito de sugerir temas, mas defende que as bandas sonoras devem ser essencialmente compostas por temas escritos na nossa língua. "Penso sempre em português porque as novelas que crio são muito baseadas na forma de viver portuguesa. O facto de as músicas serem portuguesas é crucial para que se entenda tudo muito bem. As músicas serem portuguesas são vitais para as novelas", salienta..Sobre isto o diretor musical da Plural salienta que a música portuguesa "é seguramente uma preocupação" e que cada novela tem 80% de temas escritos em português..Diferente é a posição tomada por António Barreira que, quando está a escrever uma novela, começa a idealizar algumas das canções que quer que estejam associadas às personagens. "Eu sou daqueles autores muito chatos nessa parte. Penso muito na música e associo-a a uma determinada personagem. Nem sempre se consegue atribuir a música que queremos porque os autores não cedem os direitos, porque são muito caros", começa por explicar o autor de Remédio Santo, em exibição da TVI, que exemplifica: "Por exemplo, insisti muito para ter a música RussianRoulette, de Rihanna, associada à personagem da Rita Pereira. Porque ela era mesmo uma roleta russa, ora mata ora está feliz.".Patrícia Müller, cuja última novela que escreveu foi Rosa Fogo para a SIC, exemplifica a importância que uma música bem escolhida pode ter nas emoções geradas no público. "As músicas fazem metade de uma novela. São elas que dão o tom. Se uma cena dramática for para o ar acompanhada de um tema bem escolhido, existe uma grande probabilidade de fazer o espectador emocionar-se", diz a autora..Música ajuda os atores a envolverem-se na personagem.Mas não é só o público que se deixa envolver pelas músicas de uma novela. Os atores também se inspiram com os temas que estão associados às personagens que interpretam, embora não os oiçam em estúdio. Margarida Marinho, que dá vida a Violante em Remédio Santo, é categórica: "A música é fundamental. Funciona como separador das cenas, sublinha o gráfico emocional da cena e transporta o espectador para dentro da trama", começa por explicar a atriz. Na novela, a sua personagem é acompanhada pelo tema Saudades de Ti, de Tony Carreira, que resume o seu percurso. "A música remete para a história de amor que ela tem com o Armando e para a sua vida em Portugal", sublinha Margarida Marinho..Quem também concorda com estas palavras é Diana Chaves, que protagonizou a novela Laços de Sangue, na SIC. A sua personagem, Inês, tinha como tema musical a balada Eu Sei, de Sara Tavares.."A música influencia o ator. A minha música era linda e colocava uma carga muito importante no episódio. Lembrava-me dela muitas vezes e andava sempre a cantarolar", explica a atriz, sublinhando que ainda hoje se recorda da sua personagem quando ouve a música. Também Ruy de Carvalho se lembra da personagem Joaquim quando ouve Toy cantar a música da novela Olhos de Água, exibida na TVI em 2001. "É uma marca que fica", explica o ator, que aproveita para revelar a importância de uma música numa novela. "Ajuda a compor, ajuda numa cena... mas o mais importante é a palavra.".Negócio já foi mais rentável.Existem várias formas de fazer chegar uma música a uma novela. A cantora Mila Ferreira, por exemplo, enviou o seu último álbum à direção criativa da Plural na esperança de ver algum dos seus temas encaixados numa das novelas, o que veio mesmo a acontecer..Herman José também optou pela mesma via e recorda: "Um dia, dei a entender ao então diretor de programas da SIC, Nuno Santos, que tinha no meu espólio uma música que gostaria de ver incluída numa novela. A coisa evoluiu e na cabeça do Nuno e dos autores nasceu a convicção de que o próprio título da música daria um excelente título de novela, o que se veio felizmente a confirmar-se"..Mas também acontece o oposto. Toy foi convidado pela NBP para compor um tema para a novela Olhos de Água, que acabou por ser a escolhida para acompanhar o genérico. No caso de José Cid, foram os responsáveis da Plural que escolheram o tema para a novela Louco Amor. "Esta é uma música do meu mais recente álbum que eles descobriram, porque o tema adaptava-se àquilo que eles queriam", destaca o cantor..O diretor musical da Plural confessa que o orçamento para comprar músicas para uma novela já conheceu melhores dias. Miguel Martins nem sempre tem budget para obter o tema que escolheu e não o esconde. "Quando tenho de dizer a um artista que queria um determinado tema que vai ser bom para uma novela e que não tenho orçamento para isso, por vezes, eles aceitam na mesma. Há uma conjugação de interesses porque quando escolho uma música sei que vai ter sucesso. Às vezes há pagamentos, outras vezes não. Mas o mais importante é a música. Não é possível ter 30 a 35 músicas a pagar 1000 euros por cada uma", esclarece..Neste sentido, Toy revela que ter uma música numa novela não é um negócio assim tão rentável e justifica: "Em Portugal nada é bom negócio. Para viver da música, tenho de ser cantor, compositor e produtor para conseguir ter alguma estabilidade financeira", queixa-se o artista, acrescentando que não notou grande diferença na venda de álbuns quando estes incluíam temas de novelas..Também Rita Guerra põe o dedo na ferida, mas destaca o drama da pirataria. "Havia realmente um aumento das vendas de álbuns que tivessem músicas que constem numa novela, mas hoje a pirataria até isso destruiu. Já foi um negócio mais rentável. O acesso à pirataria é cada vez maior e, com a crise instalada à escala que está, é fácil imaginar que isto não está fácil nem para os cantores, que não recebem, assim, os royalties relativos à venda de cada CD", lamenta.