O desastre que marcará este ano de 2017 na história portuguesa com páginas de luto implica o dever de solidariedade, sem reticências e prioridade, de toda a comunidade nacional, e da internacional, a que sempre respondemos com fidelidade, e da qual esperamos resposta equivalente. O problema das culpas não pode ser descurado, assumindo que tenham de ser apuradas, incluindo a responsabilidade histórica, tão claramente marcada pelo Padre Vieira, quando assinalava os descuidos em responder às propostas fundadas e exigidas por riscos conhecidos. Não será justo deixar de lembrar, na história desta tragédia, a maneira continuada com que foram descurados os ensinamentos e propostas do professor Ribeiro Telles..Acontece que o quadro escurece quando notamos que a intervenção do Estado recordou a necessidade de finalmente reconhecer que a "governança" precisa de revisão sistémica, justamente quando a própria União Europeia evidencia igual necessidade. Vistos os tratados, a articulação tem de ser tomada em conta, tendo presente as observações de analistas, como Montbrial, ao questionarem se "L"Union Européenne survivra-t-elle", depois do pessimismo crescente nas suas avaliações a partir da queda do Império Russo em 1991. Agora o núcleo de desafios, atraindo outras atenções, inclui sobretudo a herança dos anos de 2014-2015 dominados pela crise do euro, nesta data pelo brexit do Reino Unido, que está longe de uma solução assumida sem reservas, ainda pela evidência de que a crise financeira anima o crescimento dos chamados partidos populares que é necessário acalmar, não apenas em França, mas por exemplo também na Hungria e na Polónia, inquietos com o problema dos refugiados, lidando com casos de separatismos como o da Escócia, e agora na Catalunha, que exige cuidadosa atenção em vista dos interesses portugueses. Acontece portanto que, assim como a situação da União é provocadora de uma crise do modelo de governança, a tragédia dos fogos em Portugal mostrou, pelas complicadas desarticulações das intervenções, que uma das causas a enfrentar, com mais urgência do que a habitual reconhecida por Vieira, é a da "governança". Aquilo para que o lembrado Montbrial alerta, "Pour une gouvernance raisonnable, mais réelle". Isto diz respeito aos aparelhos das intervenções, executores de uma política clara, entregue a competências comprovadas com meios adequados, o que diz sobretudo respeito a uma "estratégia do saber", que resista às mudanças políticas para, a servir de exemplo, se tratar da evolução ou exigência da natureza: de modo a que neste domínio não vigore a regra pessimista, que aflora pelas áreas da história política, segundo a qual "Plus sa change et plus c"est la même chose"..Uma revisão sistémica é exigida pela "governança" para que não se verifiquem as circunstâncias visíveis de descontrolo no ataque, que já foi chamado de guerra, de que fomos vítimas. A União Europeia dá mostras de ter assumido esta nova circunstância, quando o presidente da União considera que "o Parlamento (europeu) é ridículo", quando a situação exige uma reformulação de segurança, quando o populismo e o divisionismo a desafiam, quando ele próprio enumera pontos de reforma não adiável. Tal lucidez, e também surpreendente humildade, devem ser acompanhadas pelos Estados membros, sobretudo quando a tragédia demonstra que a "governança" em vigor não estava articulada e capaz para enfrentar a tragédia que nos aconteceu. Devemos ao Presidente da República a pronta, eficaz, humanista intervenção, no sentido de tornar evidente e praticado que "os afetos" são o primeiro laço da unidade e solidariedade nacionais, mantendo a esperança aos atingidos de que a "governança", isto é, um aparelho de intervenção reorganizado, não lhes faltará com o apoio devido, e tornando claro que essa intervenção tem de ganhar organização sistémica para ser eficiente, reconhecida e fortalecida, assumindo assim uma verdadeira redefinição da função presidencial, que não omite honrar a heroicidade, designadamente dos bombeiros e demais interventores..O facto de a Comissão Permanente ter incluído a intervenção dos reitores das universidades dá esperança de que a "estratégia do saber" esteja presente na necessária reformulação, com o Parlamento a assumir que se trata de um interesse comum e geral de toda a população. Trata-se sobretudo da área de intervenção entregue não apenas à dedicação, mas também ao saber que ultrapassa as mudanças das direções políticas, ultrapassando definitivamente a inquietação de Vieira sobre o quando? A própria mobilização espontânea das instituições da sociedade civil, e dos cidadãos preocupados pela tragédia, já verificada, demonstra-se pronta a enfrentar o desafio, e não é indiferente que a compaixão acompanhe a responsabilidade.