As tartes não caem do céu

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Xi Jinping não pronunciou o nome do futuro presidente americano, mas na assistência estava o atual vice-presidente Joe Biden e no discurso foi citado Abraham Lincoln. É impossível assim que alguém nos Estados Unidos não tenha percebido a intenção do governante chinês, a começar pelo próprio Donald Trump: nesta sua estreia no fórum de Davos, também a de um presidente chinês, Xi assumiu a candidatura à liderança internacional, não só defendendo os méritos da globalização como alertando para o absurdo de uma guerra comercial. Resta saber se Trump, que na sexta-feira toma posse, percebe também que a soma da sua personalidade com a da ascensão da China dá como resultado que não seja hoje já evidente que o presidente dos Estados Unidos é a figura de maior peso internacional.

Claro que não faltam outros a disputar a atenção dos holofotes globais, do russo Vladimir Putin ao indiano Narendra Modi, passando pelo Papa Francisco, por António Guterres, agora secretário-geral da ONU, ou mesmo Jean-Claude Juncker, presidente da Comissão Europeia. Mas se com Barack Obama na Casa Branca a supremacia americana em termos de influência era indiscutível, no duelo Trump-Xi há que esperar para ver: as duas personalidades não podiam ser mais antagónicas, quase a refletir a antiguidade das respetivas nações, uma com dois séculos e meio, a outra com cinco mil anos: de um lado um líder americano intempestivo, cheio de certezas, autoconfiante ao exagero; do outro um líder chinês ponderado, pragmático, seguro de si.

A vantagem, admita-se, continua a ser dos Estados Unidos, pelo PIB, pelo orçamento militar, pelo protagonismo cultural, pela influência do inglês, mas está a reduzir-se e Xi, que no outono terá de se fazer eleger para novo mandato no XIX Congresso do PC Chinês, sabe bem que o seu futuro se joga em paralelo nas arenas externa e interna. Trump talvez até seja o rival adequado para o momento.

Uma frase, no discurso de 60 minutos, prende a atenção: "Sabemos demasiado bem que não há almoços grátis no mundo e que as tartes não caem do céu." Sabedoria chinesa.

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