Porque é que os pais precisam tanto de orientação na educação dos filhos?.Os pais que acompanho estão muitas vezes confusos, sem certezas acerca dos valores e da maneira como educar. Têm pouco tempo para falar dos filhos, das suas dificuldades e dos seus problemas e só se lembram de pedir ajuda quando estes se agravam..O que aconteceu para que sintam tanta necessidade de livros como o que acaba de lançar?.Nesta área, os livros são um substituto imperfeito do papel desempenhado no passado pelas famílias alargadas, em que havia uma partilha de funções, de ansiedades, de prazeres e de saberes. Havia os avós, os tios, os primos. Conheciam-se os outros pais, partilhavam-se receios, problemas, soluções. Isto está a perder-se. Entrámos numa rotina de casa-trabalho-casa em que não há espaço para falar..Mas a preocupação de quererem aprender a ser bons pais não se pode transformar em ansiedade e ser contraproducente?.Os pais serão sempre peritos na educação dos filhos, mas [Donald] Winnicott, pediatra e psicanalista britânico, diz que não existem pais perfeitos, como não existem crianças perfeitas. Os pais não têm por hábito pedir ajuda porque pensam ter uma capacidade inata, instintiva, para educar. Em parte, a ansiedade dos pais é fomentada pela sociedade, que exige que sejam quase perfeitos. Pressionados, procuram soluções, pedem receitas. E depois chovem conselhos, juízos, opiniões dogmáticas que frequentemente baralham. Não há orientações ou conselhos cem por cento adequados, nem pais cem por cento capazes de os pôr em prática. O bom senso dita que olhemos para os nossos filhos como seres com capacidades evolutivas demonstradas pelas suas boas realizações e pelos seus bons comportamentos. .Uma ideia comum, e perturbadora, é que as crianças estão sempre a medir forças com os pais. É assim? E como é que estes devem geri-las? .As crianças que não aprenderam ainda os limites razoáveis do comportamento experimentam constantemente, avaliando estes limites e testando os da tolerância dos pais. Com 2 anos já os percebem e sabem que a hora de ir para a cama é a hora de ir para a cama. O problema é se um dia é assim e noutro não, porque isso cria-lhes insegurança. Se se adotar uma regra, ela deve ser mantida. As pessoas pensam que dar amor é só dar carinho e afeto, mas não, é também estabelecer regras e impor limites. .Numa boa educação parental não seria necessário recorrer ao castigo. Mas a prática demonstra que é difícil fugir-lhe no dia a dia..Os castigos devem ser encarados não como uma prerrogativa dos pais mas como soluções de recurso que resultam da falência da negociação, o explica que por vezes não exista consenso entre os pais a esse respeito, o que os torna ainda mais arbitrários. A existir, a punição deve ser razoável, se repetida, deve ser consistente, deve ser possível levá-la até ao fim e deve mostrar que existem regras, porque este é o princípio básico. As crianças transgridem porque ainda não interiorizaram as normas do convívio com os pais, a família ou a sociedade em geral, mas os pais têm de aprender a dar castigos. .E como é que se isso se faz?.Não podem ser muito longos no tempo. Às vezes, os pais estão tão irritados que dizem logo «ficas uma semana sem ver televisão!», o que, em geral, é impraticável para uma criança e os pais acabam por capitular. Os castigos têm de ser adequados ao comportamento que se pretende modificar. Se a criança não quer comer e o pai a proíbe de ver televisão, não é de prever que seja eficaz, porque não há uma ligação racional entre a falta e o castigo. Será mais correto dizer: «Não comes agora, esperas pela próxima refeição.» .As regras são o eixo fundamental de uma educação bem-sucedida. Mas se fosse simples, não seria preciso continuar a bater nesta tecla. Porque é tão difícil mantê-las e fazê-las cumprir? .Logo que as crianças começam a andar, começam a exploração. Se é uma tomada elétrica, os pais não hesitam em dizer «não podes mexer aí, porque te magoas», porque é a segurança que está em causa, mas há outras situações que devem ter o mesmo tratamento: «Não podes mexer aí porque são os livros do pai. Podes mexer nos teus brinquedos, podes mexer nestas coisas, mas nas outras não.» A partir de 1 ano é necessário dizer não e introduzir proibições. As regras começam por ser instruções que vêm de fora - «não se fala com a boca cheia» - e só depois são interiorizadas e passam a ser espontâneas. Deixa de se falar com a boca cheia sem se pensar nisso. As crianças têm de conseguir a sua autonomia, a sua segurança, mas, muitas vezes, os pais acham que são demasiado pequenas para aprender regras e as perceber. Na altura em que a criança começa a experimentar a sua autonomia, exige-a até ao fim. Então, é necessário que os pais saibam dizer não de forma consistente. .A rivalidade entre irmãos é um problema que muitos pais têm de gerir no dia a dia. Como fazê-lo da melhor maneira?.É salutar que a vida em casa se reja por regras claras, explícitas e consensuais, que definam o espaço social de cada um, procurando não lhes limitar a capacidade de exprimirem a sua personalidade e a sua criatividade. As discussões entre irmãos podem ajudar as crianças a aprender a importância de respeitarem os sentimentos e a pertença dos outros e a solucionar problemas. Discutir sem magoar os familiares ensina a resolver divergências em relações futuras com os outros. .Então os pais não devem interferir?.Depende. Os conflitos podem não surgir inesperadamente, e poderão ser evitados ou atenuados se os pais estiverem atentos. Se uma criança está prestes a magoar outra, devem separá-las e manter a criança exaltada perto de si, ou dar-lhe qualquer coisa diferente para fazer até se acalmar. É bom habituar as crianças a pedir desculpa, porque essa capacidade é muito importante na sua relação futura com os outros. Cada filho deve merecer manifestações generosas de afeto e sobretudo uma atenção que lhe é especificamente dedicada e que difere conforme a idade. Em casa, há um património comum - televisão, computador - mas deve haver também coisas que pertencem a cada um - livros, discos, etc. Esta partilha e distribuição também se aplica ao espaço - uma sala para todos e um quarto ou uma secretária para cada um, conforme as disponibilidades dos pais. As comparações - no aproveitamento escolar, no comportamento - que nem sempre são evitáveis devem, na medida do possível, ser evitadas..O divórcio, cada vez mais comum, é um acontecimento desestruturante na vida de uma família. O que fazer para que os filhos sofram o menos possível?.Não existe uma fórmula única. Os pais devem ser honestos, devem enfrentar os assuntos difíceis e não esconder o desgosto dos filhos, mas é prejudicial fazer deles confidentes das infidelidades do pai ou da mãe, por exemplo. O efeito da separação dos pais depende da qualidade da relação que as crianças têm com cada um deles e como esta se alterou com a separação. É necessário gerir o melhor possível esta situação de tensão, de ansiedade, de mal-estar. Devem comunicar aos filhos que eles não estão sozinhos nem correm o risco de ser abandonados, porque os pais «não se divorciam dos filhos». É necessário que os pais continuem a ver os filhos e a estar abertos às suas questões, preocupações e emoções. Devem estar preparados para discutir assuntos práticos que podem ser fundamentais para a adaptação da família. A dor, o sofrimento e as angústias dos filhos perante este sentimento de perda podem atenuar-se encorajando-os a falar. .Às vezes os pais pensam que falar aumenta o sofrimento, mas é ao contrário, não é?.O desejo de rutura cria sentimentos de culpa na maior parte dos pais que por vezes atrasam o momento da revelação até ser impossível esconder por mais tempo. Partem do princípio de que as crianças são cegas e surdas ao que se está a passar. A realidade é a oposta. Como testemunham ou não discussões, ouvem rumores e verificam alterações nos comportamentos e na disposição dos pais, desconfiam de que algo se passa, mas não ousam perguntar nada enquanto não sentirem abertura para isso. Não se deve pensar que as dificuldades dos filhos de pais separados só surgem quando estes se dão mal. Mesmo quando têm boas relações, os filhos têm dificuldades, embora seja mais fácil encontrar soluções quando se trabalha nelas em conjunto. É importante comunicar com a escola, informar os professores, para que possam colaborar quando as crianças têm maus resultados porque estão apáticas ou desmotivadas. .O desempenho escolar é uma das maiores preocupações dos pais de hoje. Até que ponto a pressão pode ser negativa?.Idealmente, os filhos devem ser orientados e ajudados a adquirir autonomia intelectual e uma disciplina de trabalho que lhes permita fazer face aos desafios da escola. Estas aptidões não se conseguem através da imposição, mas de uma procura constante de estímulos para a motivação dos filhos pelos temas e aptidões que a escola fornece. Isso implica que da parte dos pais haja curiosidade por aquilo que os filhos aprendem. É necessário que as expetativas dos pais sejam adequadas às capacidades dos filhos e ao trabalho por eles realizado: nem demasiado altas nem demasiado baixas. Sempre que possível, os pais devem evitar julgamentos negativos e estimular, em si mesmo, a capacidade de reconhecer o bom desempenho dos filhos. A ansiedade causada por uma atitude menos sensata dos pais pode diminuir o controlo emocional para um exame, por exemplo. O apoio não deve consistir apenas em comentários encorajadores, mas em aspetos práticos que podem estar ao seu alcance. É importante que a atuação dos pais atenda às exigências curriculares, o que implica um diálogo frequente com a escola..Em que medida é que a casa dos pais é a escola dos filhos? .Hoje, há influências - a internet e também a televisão através de emissões durante 24 horas e de dezenas de canais monotemáticos - que nos entram em casa, que não existiam antigamente, que talvez compitam, de maneira ainda não avaliada, com a influência dos pais. Apesar disso, é plausível que os valores, os hábitos, os comportamentos e os modelos sociais transmitidos, sobretudo na fase em que os filhos estão sob a sua influência, pesem no desenvolvimento da sua personalidade. De um ponto de vista prático, justifica-se que os pais pensem que as decisões que tomam ao longo da vida podem repercutir-se no modo como os filhos se comportarão.