Não, Paulo Portas não tem razão. Infelizmente não tem. Portugal não pode dispensar a troika para fazer reformas. O vice-primeiro-ministro e líder do CDS-PP pode dizer, como disse, que é preferível Portugal fazer essas reformas por sua iniciativa. Preferível, claro que é. Ou melhor, claro que era. O problema é que sem ser por imposição externa, por obrigação de terceiros e de fora, não há reformas que se façam no nosso país. .Todas as grandes mudanças, as verdadeiramente estruturais que têm sido prometidas, acabam inevitavelmente no sítio onde até a ideologia já foi guardada: na gaveta. Por isso, se alguma coisa de positivo pode ter esta intervenção estrangeira a que estamos submetidos, é o facto de ela obrigar a fazer algumas dessas reformas que continuamente têm sido adiadas. E, mesmo assim, muitas arriscam ficar... a meio..Veja-se o exemplo concreto da Segurança Social. Já perdi a conta ao número de vezes que ouvi e li propostas de reformas para um sistema sobre o qual existe uma unanimidade: não é sustentável, a curto prazo, dentro do atual modelo. Claro que é impossível fazer reformas sob pressão, como diz Vieira da Silva. E, claro também, que misturar a lógica do dia seguinte com a lógica a longo prazo é um caldo de fantasias, como afirmou Bagão Félix. Nos últimos anos, independentemente dos partidos no Governo, não têm faltado propostas de alteração. Mas quando é preciso agir a solução acaba sempre igual: cortes nas pensões, a forma mais simples de diminuir a despesa..Neste plano B que o Governo acaba de apresentar para fazer face ao chumbo constitucional, repete--se a receita. Aumentam-se os cortes aos pensionistas, driblam-se uns números - a ministra falou em 80 mil visados, quando afinal são 140 mil... , sendo os valores em falta assegurados pelo escalão mais baixo e não pelas reformas mais elevadas - e adia-se a solução, a tal reforma estrutural, que, imagine-se, até teria a bênção dos juízes do TC. .Basta ver que a "coisa" vai fazer--se a quatro tempos, que é o mesmo que dizer um dia destes. Primeiro corta-se o que é preciso e já, claro. Depois logo se verá. O agendamento governamental não deixa, aliás, dúvidas. Um grupo de trabalho, com juristas e especialistas, vai estudar - em breve, dizem - a convergência para pôr em prática... em 2015. Só a seguir virá um comité de sábios para fazer mudanças mais profundas. E, depois ainda, uma comissão de análise, que está prevista num parágrafo da centena de páginas da famosa reforma do Estado "portista". Se, entretanto, tivermos a sorte de nos livramos da troika, e como o PS também tem a reforma entre as suas prioridades, haveremos ainda de andar a discutir consensos e a atirar responsabilidades do descalabro antes de agir. .A verdade é que o atraso do relógio de Portas no CDS é a imagem das reformas do País: sempre muito simbólicas, mas sempre atrasadas. E não há quem as recalibre. .A profissão de ex-governante.Álvaro Santos Pereira vai ser o número 2 do departamento de economia da OCDE. Um cargo não político, segundo o próprio, que conta que viu as vagas na net, candidatou-se e começa a trabalhar em março, após sete meses de desemprego desde que deixou de ser ministro da Economia. Já José Luís Arnaut foi nomeado para a Goldman Sachs, essa todo--poderosa instituição restrita da alta finança que quase governa o mundo. O antigo ministro adjunto de Durão Barroso será um dos18 membros do Conselho Consultivo Internacional e substitui o ex-primeiro-ministro italiano Mario Monti. Já Vítor Gaspar, regressado ao Banco de Portugal depois de sair das Finanças, ganhou mais poder. E não faltam outros exemplos. Não discuto as capacidades dos envolvidos. Mas constato que ser ex-governante é o melhor currículo que se pode ter..A banalização das comissões.A comissão parlamentar de inquérito aos swaps acabou como se previa. Sem esclarecer absolutamente nada. Foi a prova provada de que aquilo que começa mal acaba pior. Criada para atacar as responsabilidades do governo anterior - onde é que vão as promessas de Passos Coelho de nunca se desculpar com o passado? -, acabou por arrastar para a polémica, como seria de esperar, atuais governantes, ministra das Finanças incluída. Mas no final de meses de trabalho, inúmeras audições, aponta-se o dedo aos bancos, a um ou outro gestor e branqueia-se tudo o resto. As últimas comissões - exceção feita à do BPN - estão reduzidas a isto: não servem para apurar a verdade nem sequer para esclarecer factos; resumem-se apenas a mais um palco para a luta política. Estão a banalizar-se. Não há assunto que não acabe debatido em comissão. Sempre com um propósito. E depois, nem nunca se confirma o propósito e desvaloriza-se um instrumento importante. É a autodescredibilização. É um erro.