As raízes que unem...

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A abertura da exposição "Tudo o que eu quero - Artistas Portuguesas de 1900 a 2020" no Centre de Création Contemporaine Olivier Debré em Tours trouxe belas surpresas. Antes de tudo, o espaço criado pelos Arquitetos Aires Mateus permitiu que a exposição da Gulbenkian tenha ganho uma nova vida, sem perder a grande riqueza já demonstrada. A ideia lançada pela então ministra da Cultura Graça Fonseca revelou-se plena de oportunidade e de sentido de justiça para um conjunto extraordinário de artistas que no tempo em que viveram, todas elas, não tiveram o merecido reconhecimento. É verdade que houve sempre a relevância das estrelas de primeira grandeza, mas perante o conjunto, entendemos melhor a sua importância. E emblematicamente, a mostra, começa com o precioso apontamento de Maria Helena Vieira da Silva: Moi reflechissant sur la peinture (1936-37). Dir-se-ia que é uma síntese eloquente, a que temos de juntar o percurso que começa com Aurélia de Sousa na inconfundível expressão mimética do seu olhar. Helena de Freitas e Bruno Marchand, encenaram com emoção, com a equipa de Tours, dirigida por Isabelle Reher, o tema proposto, pondo a tónica na geometria variável. E a presença de Lourdes Castro, com as suas mágicas sombras, a fazer do seu jardim a sua tela, comove-nos.

Desde a apresentação de Lisboa o tempo correu depressa demais. É a guerra que se ouve em fundo. Fernanda Fragateiro assume, por isso, a perplexidade, aprofundando a interrogação sobre o "significado político das experiências artísticas, nas quais o pensamento formal é expressão tangível de um projeto social". Como ficar indiferentes? Measuring E 1027 apresenta alinhados os cadernos com capa de tecido, que interrogam, inquietam e desassossegam... Tours tem muito mais a ver com Portugal do que à primeira vista possa parecer. A cidade antiga do vale do Loire, verdejante entre os vinhedos, rica de cenários e de paisagens com os célebres castelos que dão carácter à região de Touraine, está cheia de história e de referências vetustas, procurando viver o ritmo do nosso tempo. Inesperadamente, ouve-se falar de Portugal e de nomes portugueses, e há quem lembre as festas, as romarias e os cultos populares, que as raízes aproximam. Talvez isso explique a grande afluência de pessoas e um grande entusiasmo nesta mostra da melhor arte portuguesa.

A história de Tours liga-nos a memórias que se projetam no nosso Minho e na lembrança do distante reino dos Suevos. A história conta-se em duas palavras: ao passar em Tours, a caminho de Braga, no longínquo século VI, vindo da Panónia, atual Hungria, Martinho tornou-se seguidor do outro Martinho, o cavaleiro romano que partilhou a sua capa, também nascido na Panónia, dois séculos antes, pai das Gálias, amigo de Agostinho de Hipona e aluno de Hilário de Poitiers. Os dois Martinhos deixaram marcante influência, seja na cristianização da Gália, S. Martinho de Tours, seja na missionação do reino dos Suevos no noroeste peninsular, contribuindo para o fim na Europa da heresia ariana, S. Martinho de Dume. E quando se recorda a história e as tradições, há surpresa, mas tudo faz sentido afinal, já que se trata de um encontro de memórias, entre Touraine e o Minho. E quando falamos das romarias minhotas, palavra puxa palavra, vem à lembrança Sonia Delaunay, artista francesa, mulher marcante, nascida na Ucrânia (como não lembrá-lo agora?), que se deixou fascinar pelas cores da sua terra-natal e do nosso Minho, encontradas entre 1915 e 1917, com Amadeo, Eduardo Vianna, José Pacheco e Almada Negreiros... E eis como a arte apela às raízes que unem...

Administrador executivo da Fundação Calouste Gulbenkian

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