As profissões improváveis dos futebolistas

Muitos dos futebolistas que hoje brilham nos relvados escondem um passado humilde, que passa despercebido aos adeptos que os aplaudem das bancadas. Antes de serem notícia pelas suas transferências milionárias, estes jogadores suaram  a sua juventude para ajudar nas contas da família. Desde distribuidor de jornais a figurante no cinema, passando por vendedor de gelados, alguns destes atletas ultrapassaram infâncias pobres com profissões invulgares, antes de 'nascerem' para o futebol.
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O futebol é, não raras vezes, visto como um desporto em que os seus praticantes são pagos a peso de ouro. Antes de atingirem o estrelato, porém, existem muitos futebolistas que, confrontados com as dificuldades de uma proveniência humilde, são forçados a amealhar dinheiro para contribuir para o orçamento familiar. Para alguns, uma carreira nos relvados é a luz ao fundo do túnel para escapar à miséria. Ramires é um dos exemplos mais flagrantes. O jovem brasileiro, que este defeso protagonizou uma transferência milionária do Benfica para o Chelsea, foi pedreiro durante a adolescência. O médio carregava pedras e tijolos debaixo do abrasador sol carioca, até que o futebol lhe bateu à porta. O acaso é, aliás, transversal ao destino deste onze. Funes Mori estudava nos Estados Unidos quando, aos 19 anos, decidiu participar num reality show que procurava talentos com a bola nos pés. Da vitória ao sucesso no campeonato argentino, com a camisola do River Plate, não passou muito tempo. Gomes, Elano e Daniel Alves, hoje vedetas da selecção brasileira, trabalharam como agricultores nas plantações das suas famílias. Amaral era jardineiro numa funerária. Gilberto Silva abdicou temporariamente da carreira futebolística para se dedicar à construção civil. Também o português Zé Manel dividia os seus dias entre as obras e os campos de futebol. Até se tornar profissional, aos 24 anos, Zé Manel nunca sonhou com uma carreira nos relvados. O mesmo não se pode dizer de Lucio, Daniel Alves ou Luís Fabiano. Tal como Liedson, estes internacionais brasileiros partilham uma paixão diletante pelo desporto-rei, que lhes permitiu emergir das dificuldades para uma vida desafogada. Para estes jogadores, e para as suas famílias, o futebol foi uma porta para uma vida melhor. Zé Manel transpira "humildade" e Liedson reage "com tranquilidade" quando lhe falam do seu passado. Nenhum esquece as dificuldades porque passou. Afinal, se não fosse o futebol, quais seriam hoje as suas profissões?

Funes Mori, 24 anos, River Plate
Concorrente de programa de TV


O goleador argentino nasceu tardiamente para o futebol. Aos 19 anos, quando ainda estudava nos Estados Unidos, participou num reality show americano  que procurava talentos do desporto-rei. O futebolista, que está na agenda de contratações do Benfica, venceu o concurso e a sua vida mudou. O prémio valeu-lhe um lugar na equipa do Dallas FC e o salto para o profissionalismo.
 
Luis Fabiano, 30 anos, Sevilha
Mecânico

Dispensado pelas camadas jovens do Guarani, aos 14 anos, o ponta-de-lança brasileiro foi conduzido pelo avô a trabalhar numa oficina como mecânico. O futebolista gostava de carros, mas a paixão pelos relvados falou mais alto. Três meses volvidos, o antigo jogador do FC Porto largou as ferramentas e foi aceite no clube rival, o Ponte Preta, onde se tornou profissional aos 17 anos.

Liedson, 32 anos, Sporting
Empregado de supermercado

O maior sonho de Liedson sempre foi ser jogador de futebol. No entanto, o avançado do Sporting só aos 22 anos captou a atenção do Porções, clube onde iniciou a carreira. Até então, o baiano foi empregado num supermercado da sua terra natal, para ajudar a amenizar as dificuldades económicas da família.

Zé Manel, 35 anos, Trofense
Operário e pasteleiro

Quando começou a dar os primeiros toques na bola ao serviço de um clube local, Zé Manel já tinha abandonado os estudos para ajudar a sustentar a família. Entre os 16 e os 24 anos, trabalhou na construção civil, na metalurgia e na pastelaria. Só então se mudou para Paços de Ferreira, onde se tornou futebolista profissional.

Ramires, 23 anos, Chelsea
Pedreiro

O futebol mudou a vida de Ramires. Oriundo de uma família humilde, o antigo futebolista do Benfica começou a trabalhar muito jovem como auxiliar de pedreiro, ao lado dos tios. Debaixo de um calor abrasador, o médio carregava pedras e tijolos para ajudar no sustento da família, até ser descoberto pelo Joinville, quando treinava num pequeno clube local.

Elano, 29 anos, Galatasaray
Agricultor

O internacional brasileiro foi criado em Iracemápolis, terra no interior de São Paulo conhecida pela produção de cana-de-açúcar. Desde muito jovem, Elano trabalhou nas plantações da família. O pai depositava nele a esperança de, graças ao  seu talento, tirar a família da miséria. Chegou a apanhar oito autocarros por dia para poder treinar no Guarani de Campinas, antes de se transferir para o Santos.

Gilberto Silva, 34 anos, Panathinaikos
Operário

Cresceu no seio de uma família pobre, com muitos problemas financeiros. Durante a adolescência, acumulou vários empregos com o sonho de se tornar futebolista. Com 14 anos, começou a trabalhar na construção civil. O seu talento era reconhecido nos juvenis do América Mineiro, mas Gilberto sentiu-se na obrigação de sustentar a sua família. Foi carpinteiro e, durante mais de dois anos, trabalhou numa fábrica de doces.

Amaral, 37 anos, Catanduvense (Ex.Benfica)
Jardineiro

O antigo internacional canarinho é conhecido pela alcunha de coveiro, por ter trabalhado num cemitério. O ex-futeblista do Benfica foi funcionário de uma agência funerária, onde desempenhava funções de jardineiro. O brasileiro apenas despontou para o futebol aos 19 anos, entrando directamente para a equipa sénior do Palmeiras, sem ter passado pelos escalões de formação.

Lucio, 32 anos, Inter de Milão
Vendedor de gelados

Quando era jovem, levantava-se de madrugada e montava na sua bicicleta para trabalhar como distribuidor de jornais. Além de ajudar a mãe numa barraca de venda de roupas, durante a adolescência Lucio trabalhou ainda como vendedor de gelados. "Foi importante essa fase na minha vida para eu dar valor às coisas e ter a consciência de onde vim", relembra, citado pela Globo, o ex-capitão da selecção brasileira.

Daniel Alves, 27anos, Barcelona
Agricultor

Aos 10 anos, Daniel Alves trabalhava na agricultura, auxiliando os pais a cuidar das plantações da família. Mudou-se para a cidade de Juazeiro, onde conciliou a carreira nos juvenis do clube local com um trabalho como figurante num filme brasileiro. O jogador do Barcelona interpretava o papel de um soldado em Guerra dos Canudos e ganhava cinco reais (cerca de 2 euros) por cada dia de gravações.

Gomes, 29 anos, Tottenham
Agricultor

Começou a trabalhar aos sete anos, ajudando o pai nas plantações de milho e feijão. Aos 18, palmilhava diariamente seis quilómetros para poder treinar-se no Democrata. Durante o período em que jogou nesse pequeno clube de Minas Gerais, o internacional brasileiro era o responsável pela cozinha. Comprava pães, barrava-os com manteiga e distribuía-os pelos seus colegas no clube.

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