As pegadas na areia

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O grande professor, e primeiro reitor eleito da Universidade de Braga, que foi Craveiro da Silva, jesuíta vinculado à sacralidade dos princípios, ensinava que não podíamos ter mais ambição do que deixar marcas na areia dos nossos passos na brevidade da passagem pelo mundo. Na desordem mundial a que o globalismo conduziu, "as guerras nos quatro cantos do mundo" (Badie) baralham de tal maneira as intervenções dos formalmente titulares do poder político, que parece constante a intervenção de uma brisa que apaga as pegadas. A sétima cimeira das Américas inclui um dos passos na areia do presidente Obama, perto do fim do mandato, durante o qual lhe foi difícil deixar marcas do seu famoso "Yes, we can", que mobilizou tão intensiva quanto brevemente a opinião americana e mundial. Neste caso, foi sobretudo percebida a renúncia à secular crença na posse de um big stick para regular o comportamento do continente, informando o mundo de que os EUA não interferem nos assuntos das soberanias latino-americanas do Sul, algo que tem de ser confirmado pelo futuro Congresso, e ainda não abrangeu a extinção de Guantánamo, uma das antigas promessas. Mas esta questão da cimeira, que toca num dos componentes tradicionais do chamado "conceito estratégico permanente, de conteúdo variável", talvez deva, quanto à data e à conjuntura, ser avaliado em relação com o acordo nuclear com o Irão, que esse definitivamente toca na ideia de os EUA serem a Casa no Alto da Colina, um facto considerado tradicionalmente indispensável a uma ordem mundial que anda fugidia.

Este elemento do tal conceito estratégico de conteúdo variável cobriu as decisões da intervenção no Iraque e também na liquidação do Kadhafi, com efeitos evidentes no quadro das ameaças em curso, sobretudo porque, tocando em todo o Ocidente, tem efeitos mundiais facilmente visíveis. Principal da sua intervenção, que tarde foi informada aos aliados, foi, segundo o publicado, a negociação secreta em que o Irão se obrigaria a desmantelar uma parte, dita considerável, da sua estrutura nuclear. É cedo para avaliar o acordo, os seus detalhes e sobretudo progresso temporal, mas o alarme soou imediatamente, num tempo que rapidamente incluirá eleições para a presidência, produziu inquietas declarações da oposição, cujo peso obriga a não esquecer com ligeireza.

Quanto a Cuba, a oposição republicana do Congresso, que tem limitado tão visivelmente a liberdade de intervenção presidencial, já declarou que "a política externa do Presidente é de apaziguamento de ditadores", não lhe reservando sequer o exercício do princípio do mal menor. Viu continuar firme a crítica, esta sem prestar atenção à evidência de que, sem que isso valide a mudança como única, os resultados da política anterior, exercida durante décadas, criou instabilidade na solidariedade entre o Norte e o Sul do continente, não melhorou qualquer dos direitos da sociedade civil cubana, e demonstrou que, como afirmou, como que em resposta, Ben Rhodes, conselheiro nacional de Segurança, "os EUA já não estão no negócio de derrubar governos na América Latina", uma decisão que também pode ser inspiradora para intervenções frustradas noutras latitudes.

Quanto ao tema do Irão, e sem enumerar as complexidades do Levante, basta ter em conta a posição de Netanyahu, que dificilmente abandonará a posição de defesa do seu conceito estratégico para Israel, e que, publicando a sua convicção da necessidade de melhorar o acordo, de facto tornou evidente que prefere que não exista qualquer acordo ao exigir que Teerão reconheça Israel, sem nunca oferecer o reconhecimento do Estado Palestiniano. Tudo finalmente significa, lido em face do calendário eleitoral, que, tendo sido impedido de deixar pegadas na areia como sonhou, Obama parece não deixar um legado sólido para o futuro, o que talvez sublinhe no próximo farewell address.

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