De que falamos quando falamos de imagens? Que é ver uma imagem? O que é possível dizer de uma imagem, sobre ela? De acordo com a ideologia televisiva dominante, já não falamos de nada. E é suposto adorarmos o nada... Com mais ou menos respeitáveis excepções, a proliferação da fala em televisão apenas serve um objectivo: o de criar um muro de palavras que torne impossível parar - parar para pensar. Mais do que isso: fala-se com medo do silêncio e, sobretudo, vivendo o pânico de poder haver uma imagem (uma só) cuja intensidade já não seja possível anular por alguma palavra codificada, refém de um sentido único e unívoco..Este livro chama-se Nós/Nudos (Gótica, Lisboa, Março 2004, bilingue português/castelhano). Não o pronome, mas nós de laços, de alianças, de coisas entrelaçadas nos seus gestos ou enigmas. Feito com 25 poemas de Ana Marques Gastão, escritos a partir de outras tantas obras de Paula Rego , é um livro consciente dessa tristeza das linguagens em que o mundo vive, desse luto constrangido onde escolhemos habitar para, de acordo com os oráculos mediáticos, «comunicar»..A lei que aqui prevalece é a da proliferação infinita dos sentidos da palavra, da diversidade e da sensualidade das suas significações. Escreve-se para encontrar as palavras que as imagens contêm, mas também para celebrar o que nelas nos remete para um silêncio que importa preservar. Um silêncio que persiste quase como uma região sagrada. Assim nesta imagem, por exemplo, intitulada Assumption e datada de 2003. Como o poema começa por avisar, estamos longe da precisão das fórmulas: Não há ciência para nós, nem o corpo é semente dispersa / de uma memória exacta..Neste contexto, o movimento dos seres é inseparável da sua amorosa representação: Desejo-te quando caminhas por entre a seiva, fechado / à distância do lápis. E tudo caminha para um silêncio primordial, próximo da possibilidade divina: O riso de Deus é trémulo e cintilante. E o anjo, / /criança sábia, nada diz. As palavras morrem se forem ditas. Sublime paradoxo: na sua morte, as palavras renovam a possibilidade de nada dizer. De escolher algum silêncio e voltar a escrever. E de sermos livres, não com as imagens que explicamos, mas com as que resistem a ser explicadas. Se desligarmos a televisão, percebemos ainda melhor.