"A mulher não é só casa mulher-loiça mulher-cama ela é também mulher-asa mulher-força mulher-chama." .Lembro-me do dia em que a professora de Português me apresentou o poema de Ary dos Santos, Mulheres. Lembro-me de me dizerem que o deveria recordar, sempre que me sentisse sem coragem para avançar. Lembro-me de me aconselharem: "Se já o tens contigo, agora também o deves partilhar." Lembro-me de situações em que o fiz e de momentos em que as palavras me regressaram à memória. E tal voltou a acontecer. Há poucos dias quando falava com mulheres que escolheram uma profissão e uma carreira num mundo que ainda é dos homens..Vanessa, Filipa, Carla, Patrícias, Margarida e Ângela escolheram trabalhar nas obras - ou melhor, na construção civil. Elas fizeram lembrar-me mulheres de asa, mulheres de força e até mulheres de chama. Estudaram, formaram-se e, no batente, aprenderam a fazer ainda mais, desde partir paredes, assentar chão, soldar, montar andaimes ou andar suspensas no ar..Desde o início que sabiam que teriam de "fazer ainda mais para serem reconhecidas". Não se importaram. Não desistiram. E continuam. Algumas há mais de 20 anos. Carregam sacas de 30 quilos com massas, baldes de areia, transportam martelos elétricos, rebarbadoras e trabalham horas a fio, tanto faz se ao frio ou à chuva, de braços no ar e cabeça levantada, ou com diretas..Foi assim que vingaram, que ultrapassaram o preconceito, a desigualdade e, por vezes, o assédio que ainda se sente no ambiente de obra. Será medo, o que sentem os homens? Ameaça? Acreditam que não. É mais porque na escola ninguém ensina que as mulheres também têm esta opção. E é por aqui que tudo deveria começar a mudar..Vanessa, Filipa, Carla, Patrícias, Margarida e Ângela não se importam quando lhes chamam trolhas, ou quando são serventes de grandes mestres-de-obras. Aceitam que os filhos lhes digam: "Ó mãe, andas sempre toda suja." Ou que contem aos amigos: "É a minha mãe que anda ali pendurada a pintar a fachada." Tudo isto compensa quando passam numa obra e podem dizer: "Eu estive aqui.".Vale a pena conhecê-las.."Ser servente não tem nada de pejorativo.".Vanessa Diniz sonhava em pequena que um dia seria médica. Teve esse sonho durante muitos anos, mesmo depois de trabalhar em oficinas de mecânica, de ter feito os cursos de Arte na Escola António Arroio e de Restauro e Conservação de Ppatrimónio na Escola de Sintra..Dizia sempre: "Se um dia for para a faculdade é para tirar medicina." Mas, um dia, deixou que a convencessem e candidatou-se à faculdade para Belas-Artes. "Entrei logo à primeira com média de 15", conta. O seu caminho era outro, definitivamente. E hoje diz: "Sou reconhecida neste meio e até acho que sou uma pessoa querida. E sei que a minha vida são as obras.".Nasceu em Lisboa, mas foi crescer em Tercena, na linha de Sintra. Ali aprendeu a brincar nas obras, a pegar em ferramentas, e a consertar tudo o que se estragava em casa, "nunca imaginando que um dia viria a trabalhar a sério nas obras"..Ela que adorava pintar a óleo em telas, que adorava desenhar e ao mesmo tempo estudar o mecanismo do corpo humano. "Tinha muito jeito para trabalhos manuais e quando se estragava alguma coisa lá em casa era a mim que a minha mãe pedia para consertar", conta, aos 40 anos e mais de 15 a trabalhar na construção civil..Por ela aprendeu eletricidade e quando a luz faltava, era a ela que a mãe chamava. Andou na escola, fez o secundário, mas os pais divorciaram-se e começou a trabalhar no que sabia e gostava. "Fui para uma oficina em Valejas trabalhar como mecânica, adorava motores de automóveis. Ainda hoje gosto, mas a minha mãe sempre me chateou para deixar aquilo e fazer um curso em artes.".À noite, andava na Escola António Arroio, de dia trabalhava na oficina. Quando acabou o curso, pensava na medicina, mas a mãe empurrava-a para as Artes. "Estava sempre a dizer-me que tinha muito talento e que devia fazer mais pelo futuro. Um dia pôs-me à frente um recorte de jornal que anunciava cursos de restauro e de conservação na escola de património de Sintra. Fiz o curso. Foram três anos, dos 23 aos 26, acabei com média de 18,33 e descobri a minha paixão pela azulejaria.".Começou logo a ter muito trabalho. Foi para o Palácio de Queluz, onde fez um levantamento gráfico durante sete meses no canal dos azulejos, fez restauros na Igreja de Benfica, em casas particulares, em palacetes. Mas a mãe insistia na faculdade. E um dia deixou que uma amiga a convencesse a candidatar-se a Belas-Artes. "Fiz os exames de acesso para ver o que dava e entrei à primeira, com média de 15. Fiz o primeiro ano, os professores gostavam de mim, mas na altura já chefiava duas obras e ganhava bem. Para coordenar tudo chegava a fazer diretas.".Chegou a estar 33 horas numa obra. "Era um trabalho de assentamento de chão. Exige muita concentração e prefiro fazer de seguida a cortar e a começar tudo de novo. Entrei na obra às 08.00 de um dia e saí no outro às 17.00." Como esta houve mais e recorda: "Muitas vezes, puxava de cartões e deitava-me no chão para descansar as costas.".As pessoas ficavam admiradas, "normalmente não acreditam que uma mulher seja capaz de fazer estas coisas, só pensam que conseguimos fazer trabalhos de menina, mas quando me viam a trabalhar com o martelo elétrico ou com a rebarbadora, a andar pendurada nos andaimes ou a acartar sacas de gesso, percebiam que eu sabia o que estava a fazer"..Copy: homens e mulheres na construção Infogram.A faculdade ficou para trás e entrou na Fundação Ricardo Espírito Santo, onde esteve três anos. Ali acabou por dar formação durante um ano, mas houve uma altura que questionou: "Será que isto é para mim?".Fez uma pausa. Voltou à mecânica. Ganhava menos, mas também fazia menos. Até que teve um convite irrecusável. A sua paixão pelo azulejo levou-a ao Mercado do Livramento, em Setúbal, para reconstruir a parede que tinha desabado e que vitimou cinco pessoas. "Foi uma situação trágica, mas do ponto de restauro foi uma das obras que me marcou." Depois, foi para o Convento de Setúbal, para a Nossa Senhora dos Remédios, em Lamego, para o Palácio da Bolsa, no Porto..As obras voltaram à sua vida. Voltou a não dormir só a pensar nos materiais, os que tinha de usar, onde os ia buscar ou até os que tinha de criar. Para onde quer que vá, a sua casa tem "sempre uma parte só para as ferramentas, uma para a pintura, outra para o estuque e azulejos, outra só para assentamento de chão e reboco"..Em cada obra, primeiro estuda o local, até em termos de segurança, depois avalia o trabalho em si, o que fazer e com que material, e, por fim, avança. "Para se fazer bem feito há que estudar, pensar e planear. Costumo dizer que até para se varrer numa obra é preciso saber fazê-lo. Não é só agarrar na vassoura e deitar mão à obra, não. Se for assim podemos levantar mais pó, e em obras com fibra de vidro é muito complicado. É preciso borrifar o chão, saber que vassoura usar e até para que lado varrer. Passo a vida a chatear os meus colegas com isto, mas foi assim que aprendi", confessa..Vanessa assume sem preconceito e com orgulho que "gosta de ser servente dos grandes mestres de obra, já não há muitos, mas foi com eles que mais aprendi nas obras. São pessoas que começaram a trabalhar aos 6 e aos 8 anos e que dedicaram uma vida inteira nisto". Para ela, "ser servente nada tem de pejorativo, porque o trabalho de obra, seja em que função for, é um trabalho de equipa, desde o pedreiro ao canalizador, do eletricista ao engenheiro"..Ao contrário do que se pensa, não é só um trabalho de esforço físico, exige conhecimento, planeamento, ponderação e muita paciência, sublinha. Ela gosta de partir paredes, "para mim é um desporto, mas tive de aprender a fazê-lo"..Quando se fala em medo, diz que nunca sentiu, mesmo quando tem de andar pendurada em fachadas só amarrada pelo arnês, já recuperou várias de edifícios inteiros em Lisboa, um deles no Largo Luís de Camões, todo em azulejos. "Sinto divertimento. Sou uma pessoa muito prática e sempre soube que ao vir para este trabalho tinha de saber fazer de tudo." A perfeição é a condição para ela. "Não deixo uma obra sem que tudo esteja perfeito, o cliente pode estar a dizer que está bem, mas se não estou satisfeita, faço e refaço.".Os cursos foram essenciais para executar o trabalho, mas foi no dia-a-dia e com a gestão das próprias emoções que aprendeu a estar e a lidar com o ambiente de obra. "Reparei uma parede de azulejos com colegas atrás de mim, parados, a ver o que fazia. Era tenso, mas aguentei-me. Sempre soube que tinha de manter uma posição forte e firme. Alguns começavam por me assediar, depois já me respeitavam e admiravam.".Foi fácil? Às vezes, não. Mas acredita que as coisas estão a mudar e que hoje este trabalho pode ser uma opção para as mulheres que gostem verdadeiramente de o fazer. Até porque, nas obras se ouve falar muitas línguas, da Europa do Leste, de África e da Ásia, e cada vez menos português. "Não há mão-de-obra portuguesa e é preciso técnicos qualificados. Na pintura, por exemplo, quase que só há trabalhadores que vêm da Índia e dos campos de cultivo", conta..Vanessa fará 41 anos em junho. O trabalho que está a fazer há meses numa obra no Chiado, recuperação da Platibanda do edifício, que a obrigou a estar pendurada a uma altura de mais de quatro andares e com o Tejo ao fundo, está quase a terminar. Arruma o material para partir para outro lado, desta vez para o Convento da Graça. "Já lá estive na sala do Capítulo e agora vou recuperar a Cripta.".É assim há 15 anos, passa de obra em obra, gosta, "as obras são a minha vida". Por isso, não tem férias a sério desde essa altura, descansa semana a semana, nos intervalos de cada trabalho, vale-lhe a forma física em que mantém o corpo. Treina kung fu desde os 18 anos, já entrou em combates, e defende que esta arte "é muito importante para me manter em forma física e espiritual". Mais. "Há trabalhos que só aceito fazer porque sei que tenho boa forma física e que me vou aguentar com ou sem andaimes.".Mas nem só de pó vive Vanessa. Nas artes, é ainda assistente de produção nos espetáculos de Tânia Safaneta, que considera "a melhor palhaço do mundo". E, na vida cívica, integra a lista do PS na Assembleia Municipal da sua zona.."Não sofremos de monotonia nas obras".Ainda não era adolescente quando Carla Gomes teve de tomar uma das decisões mais importantes da sua vida. Tinha terminado o 9.º ano, partia para a reta final do secundário e sabia que entre letras, ciências ou artes escolheria a última opção. Mas no dia em que levava os papéis de inscrição para o 10.º ano já preenchidos e assinados pelos pais, soube que a escola onde andava, a José Régio, em Vila do Conde, iria ter um curso de Técnico de Construção Civil. E pensou: "É mesmo isto que quero. Apaguei a candidatura que levava e inscrevi-me no curso de Construção Civil. Quando cheguei a casa contei aos meus pais e eles responderam-me se era o que queria: 'Então força, avança.".Aqui começou a sua paixão e, aos 43 anos, confessa que o que lhe dá mais gozo é passar por obras no norte, centro e sul do país e poder dizer: "Eu estive aqui." É esse legado que deixa aos dois filhos, um rapaz, de 8 anos, e uma menina, de 3. Costuma levá-los a ver o que faz e quando passa no Museu dos Coches, em Belém, na Fundação Champalimaud, no edifício Mirage, no Estoril, no Dolce Vita Tejo, na Amadora, ou na sede da EDP, em Santos, repete e repete, com orgulho, a mãe esteve aqui. O mesmo acontece com outro trabalhos no norte e no centro, onde esteve antes de vir até Lisboa e por aqui ficar, casar e fazer a sua vida.."Gostei tanto do curso profissional no secundário que quando me candidatei à faculdade apenas coloquei uma hipótese, para mim não existia mais nada senão engenharia civil, e entrei no Instituto de Engenharia da universidade do Porto. Numa turma de cem, havia 22 raparigas, hoje já não é assim.".Saiu da faculdade aos 22 anos, no ano de 1999, com o curso numa mão e trabalho numa empresa de construção na altura. "Também já não é assim. A oportunidade surgiu quando ainda estava à espera que lançassem as notas dos exames em pauta, mas não hesitei e comecei logo a trabalhar.".Na altura, já não era também a única mulher na empresa, "fui substituir outra engenheira e ninguém estranhou a minha entrada". Aliás, confessa, que nestes 20 anos de profissão, "nunca tive problemas de alguém me olhar de lado por ser mulher"..Mas sabe que a engenheira é a engenheira e que nos trabalhos mais especializados, como de carpinteiro, pedreiro, eletricista, "já é diferente. Penso que ainda é uma questão cultural, a nossa sociedade não está preparada para aceitar as novas realidades, mas tem de estar"..Dados do INE, de 2018, revelam que em Portugal há 307 mil trabalhadores na construção civil, 22 mil são mulheres, grande parte engenheiras a exercer funções nas áreas de direção de obra, higiene e segurança no trabalho e fiscalização. "Nestas áreas é muito comum haver mulheres e para os empreiteiros já não há diferença entre o lidar com uma mulher que chefia a obra ou com um homem", confirma..Na engenharia, sempre preferiu a direção de obra, "o meter a mão na massa", ao trabalho de gabinete. "Só durante três anos estive em trabalho de gabinete a criar um projeto de controlo de qualidade para uma empresa, mas chegou. Voltei à direção de obra que é o que gosto de fazer.".E a rir assume: "Nas obras não há monotonia. Nunca nada é igual ao que se planeou, há sempre imprevistos, muito stress e ansiedade." Carla Gomes fala connosco na obra que agora está a dirigir em Alcântara, aponta para a carcaça de edifício, já todo esventrado: "Aqui, dia-a-dia, encontramos algo que nos faz mudar os planos. É assim. Sempre num registo de ação e reação. Não podemos sofrer de monotonia.".Ela própria vai dando indicações ao trânsito para a empilhadora entrar e sair do espaço e deitar fora tudo o que não é preciso. Olhando para o entulho, sabe de cor as vezes que são necessárias fazer o mesmo gesto. "Vai sair só mais duas vezes." E assim foi..O final de tarde chega, mas isso não quer dizer que o dia de trabalho acabe. "Numa obra sei a que horas entro, mas nunca sei a que horas saio." Por norma, chega à obra às 08.00 ou 08.30 e não saio antes das 19.00 ou mais. A ideia de que a hora de almoço pelas 12.00 é religiosa, "não é bem assim. Tudo depende do que há para fazer"..Recorda ter tido trabalhos em que os horários não importaram, em que ninguém arredava pé sem que não estivesse terminado. "Trabalhos complexos, alguns não sabia bem como os iria fazer, ou iríamos fazer", sublinha, porque, defende também, "nas obras, o trabalho é de equipa"..Lembra a fase em que chegou ao Estoril para participar na construção do edifício Mirage, antigo Estoril-Sol, uma obra que tem "uma componente muito forte de estrutura metálica, aquilo que nos era pedido era quase uma novidade para toda a equipa. Tivemos de pensar muito para perceber como é que iríamos elevar aquela estrutura. Foi um nervosismo enorme quando começámos a içá-la. Foram precisas mais de sete horas, ninguém arredava pé, quando chegámos ao fim, foi uma satisfação e uma conquista enorme. São momentos que nunca se esquecem"..Ao fim destes 20 anos, diz que não se vê a fazer outra coisa. "Enquanto tiver saúde e puder andar nas obras é o que farei." Carla teve sempre o apoio da família para fazer o que queria e deixa um conselho aos pais dos jovens que gostem da construção: "Deem-lhes um voto de confiança, deixem-nos escolher, sejam rapazes ou raparigas, porque não é um trabalho de homem ou de mulher, é para quem gostar de o fazer. Trabalhar nas obras é o mesmo que trabalhar num escritório, a atitude tem de ser a mesma, profissionalismo, só não há o mesmo conforto.".A engenheira de fundações que queria ser designer de moda.Patrícia Jerónimo tem 29 anos e cinco de profissão. Nasceu em Lamego, tirou o curso de Engenharia Civil na Universidade do Porto e desde 2015 que se fixou em Lisboa. Em pequena sabia que queria ser designer de moda, depois percebeu que a sua vocação era outra. Gostava de desenhar e isso levou-a no curso de Engenharia a escolher projeto em vez de direção de obra, mas assim que se formou arranjou emprego numa empresa em Lisboa e foi integrar o departamento de fundações. "A empresa em que estou a trabalhar está mais vocacionada para trabalhos marítimos e tem um departamento de fundações de edifícios e é nessa área que tenho trabalhado.".A função já a levou até à Guiné-Conacri, onde esteve durante 11 meses como diretora adjunta numa obra de construção de um cais para barcos de carregamento. "Foi uma experiência muito enriquecedora. Deparei-me com outras realidades.".Tanto lá, como cá, e na liderança de equipas, diz não ter sentido qualquer diferença por ser mulher e jovem. Mas sabe também que trabalha numa empresa em que 32% dos funcionários já são mulheres. Sentiu-se integrada desde o início, desde que "passou o nervosismo inicial da primeira semana de trabalho", comenta a rir. Afinal, "estava ali para fazer o que sempre quis e para o qual tinha estudado e correu sempre tudo bem com pessoal de obra, clientes, fiscalização, etc."..E já conclui: "Gosto mais da profissão do que imaginava." Confessa que estava mais inclinada para fazer projetos e que a sua vocação não passava tanto pela direção de obra, mas tem sido uma descoberta. "Tenho gostado muito, coloca-nos mais em campo.".Patrícia é jovem. Estava para ser designer de moda, por isso, quando disse aos pais que queria engenharia civil, "eles estranharam". Em pequena "quis ser várias coisas, nenhuma delas metia engenharia, mas eles aceitaram". Sabiam que ela gostava de desenhar, e que isso era o que a levava para a área do projeto, "nunca me dissuadiram das minhas decisões", mesmo quando quis vir para Lisboa..No tempo de secundário, os rapazes é que escolhiam as engenharias, mas quando entrou na faculdade de "um curso de 170, 80 já eram raparigas. Nos anos seguintes, com a crise a escolha pela engenharia civil diminuiu um pouco, ainda tenho colegas que não conseguiram trabalho nesta área, mas penso que agora tudo está a mudar"..Patrícia pertence às engenharias, gosta do que faz, e apesar de ter olhado para a moda, para as biologias, para a saúde, diz: "Não me via a fazer outra coisa. É para continuar."."Na escola ninguém me disse que podia ser eletricista.".Aos 30 anos, depois de se formar em produção audiovisual, na ETIC (Escola de Tecnologias, Inovação e Criação), e em organização de eventos, Patrícia Vassalo e Silva descobriu que, afinal, havia o curso que lhe poderia ensinar o que sempre quis: eletricidade.."Sempre tive um fascínio pelos fios. Foi isso que me levou até à iluminação e produção audiovisual, mas depois de vários anos a trabalhar na área sabia que queria mais, que queria descobrir aquilo que não se via na eletricidade. É o que me fascina", começa por contar ao DN, na sua casa, próximo da empresa de família que hoje ajuda a gerir e onde faz de tudo um pouco..A família começou por não a levar muito a sério nesta sua opção. "Para eles não fazia sentido que, depois de ter trabalhado em curtas-metragens, em marketing, em museus, quisesse tirar um curso de eletricidade. Mas disse à minha mãe que se não fosse contratada para lado nenhum passava a arranjar tudo lá em casa.".Foi tirar o curso de Eletricista no Cenfim (Centro de Formação de Eletromecânica) e ficou ainda mais fascinada. "A eletricidade não se vê e quando um quadro rebenta temos de descobrir porquê. Há uma lógica para tudo e a descoberta dá-me que pensar, mas também me relaxa. As pessoas não acreditam nisto, mas é verdade", embora admita: "Quando não consigo resolver logo uma situação, também me stresso. Tenho de parar, respirar e voltar aos fios. Quando consigo, dá-me um gozo imenso.".Fez estágio numa empresa na área de manutenção, "arranjava eletrodomésticos que faziam parte das cozinhas dos hospitais. Aprendi bastante e tive pessoas que me apoiaram, mas não me contrataram". E decidiu que ia à vida por conta própria..Passou palavra de que estava a trabalhar, a fazer biscates, criou uma página no Facebook onde colocava fotos dos trabalhos que fazia e começou a ser chamada. Havia pessoas que ficavam admiradas, sentia que ficavam na dúvida: "Será que ela é capaz? Mas depois do trabalho feito, pediam mais coisas.".Chegou ao ponto de ter de subcontratar colegas canalizadores e pedreiros. Cedo percebeu que, "nesta área, temos de ser polivalentes. Se é preciso partir uma parede para consertar um quadro elétrico eu tinha de saber fazer isso. E fiz, como coloquei cimento, chão, etc, não dizia não a nada, mas o trabalho ficava perfeito"..No início, teve de se sujeitar a praticar outros preços, "quando percebiam que era uma mulher a fazer o trabalho não queriam pagar tanto como pagavam aos homens. Agora, não". Aliás, Patrícia conta que já há trabalhos que não aceita. "Ajudo e ensino a fazer, e quando os clientes percebem que são capazes, ficam todos contentes.".Mas chegou uma altura em que Patrícia arriscou a ir para uma empresa, "queria saber como era trabalhar numa empresa. Soube que a Carris estava a contratar e candidatou-se, entrou e ali esteve quase um ano. Trabalhava no departamento de manutenção. "Aprendi imenso. Tinha de fazer de tudo, os edifícios eram antigos e, por vezes, havia necessidade de mexer em canalização, esgotos e muitas outras coisas. Tinha colegas que já não queriam fazer isso, então era eu que avançava"..A família, mais uma vez, não percebeu porque é que se quis meter numa rotina que a atirava para um horário de acordar às 06.30, almoçar às 12.00 e sair às 16.00, mas aceitaram. Ela sabia que ali "tinha de me esforçar mais do que os outros colegas". Quando chegava aos departamentos, começavam por a tratar como "a engenheira responsável pelo projeto", mas quando dizia: "Eu sou eletricista, o olhar mudava.".Aprendeu a lidar com a situação, como teve de aprender a gerir comentários vindos de quem consigo trabalhava. Tudo serviu para "aprender e me enriquecer enquanto pessoa. Numa empresa, lida-se com pessoas de todos os estratos sociais e isso deu-me para entender muita coisa"..Até que havia muitos direitos pelos quais as mulheres tinham de lutar, foi isso que a levou para o ativismo e a criar com outros o movimento Por Todas Nós. Hoje tanto chefia ou realiza obras como organiza manifestações. Tem consciência de que quando uma mulher escolhe este caminho tem de ter capacidade para saber estar, "temos de chegar e mostrar que também sabemos fazer, não é entrar a matar ou impondo-nos".."Eu gosto de ser eletricista e na escola nunca ninguém me disse que o podia ser. E é este padrão que temos de combater." A jovem propõe mesmo que nas escolas levem os alunos a conhecer várias realidades de trabalho durante um dia, "para poderem escolher. É isso que se faz em outros países. Veja a Alemanha, é um dos países em que as mulheres trabalham lado a lado nas obras com os homens"..Em casa, tem um quarto que tanto é oficina, com material para a eletricidade, como escritório para o ativismo, mas quando vai de férias leva sempre a caixa de ferramentas, "não vá alguma coisa avariar". Para o futuro, a formação nesta área é desafio, "todos nós podemos fazer muito mais do que aquilo que achamos", argumenta.."O triatlo é mais duro do que as obras"."Quantas vezes já subiu e desceu hoje o escadote? Quantas vezes já o mudou de sítio?" Filipa Oliveira não sabe responder. Já lhe perdeu a conta. É conservadora restauradora de formação e está a trabalhar numa obra de emergência no canal dos azulejos no Palácio de Queluz..Trabalhar em obras não foi a sua primeira paixão. Essa foi o desporto, entrou na faculdade de Motricidade Humana, mas não lhe agradou a ideia de ser professora de Educação Física. Deixou o curso. E foi a mãe quem lhe falou no restauro. Começou por fazer um curso técnico-profissional, depois um curso superior no Instituto Politécnico de Tomar, e mais tarde o mestrado em Química Aplicada ao Património, na faculdade de ciências de Lisboa..Já lá vão mais de 20 anos e aos 47, Filipa continua a dizer que prefere trabalhar em obras, ao frio, ao vento, à chuva ou ao calor, do que estar sentada à secretária a fazer relatórios ou orçamentos. "Também faço, quando é preciso, mas prefiro trabalhar ao ar livre, é muito mais aliciante.".Foi o detalhe, o trabalho de minúcia, o poder recuperar pedaço a pedaço e o fazer a diferença que a levou ao restauro de pedra e de azulejos. "É um desafio. Não é só um trabalho que exige esforço físico, é preciso também destreza e criatividade para resolver algumas situações, porque apesar de as metodologias aplicadas poderem ser as mesmas, cada obra é uma obra.".Em 2017, fez a limpeza da obra do guerreiro, em Sintra. "Foi durante um mês, eu tinha de trabalhar suspensa e amarrada pelo arnês para chegar à estátua, não havia forma de colocar andaimes. O tempo na zona é agreste, estava sozinha, quando não conseguia descer tinha de ligar a alguém para me ir ajudar, quando as ferramentas caíam, tinha de as dar como perdidas, mas foi um desafio muito grande.".Um trabalho que nem todos os homens o fariam, "porque não gostam. Também têm medo". Filipa fez escalada. Sabe o que são os trabalhos verticais. Quando não tem trabalho em restauro é este que procura. "Gosto de pintar fachadas ou de as retocar." E reconhece que nestes é "um incentivo para os homens. Eles olham para mim e pensam, se ela consegue nós também". Às vezes, é ela quem os incentiva: "Se consigo tu também consegues." Mas quando se trata de desporto, o pensamento de Filipa já funciona ao contrário. "Se eles conseguem eu também tenho de conseguir.".Filipa Oliveira é atleta por vocação. Faz triatlo, é campeã em duas distâncias. E, assegura, "é bem mais duro do que trabalhar nas obras". Faz treinos bidiários. O dia para ela começa às 05.50. "Levanto-me, como uma banana e vou nadar três quilómetros. Regresso a casa para arranjar o pequeno-almoço e levar os filhos à escola. Só depois vou para a obra. Posso chegar por volta das 09.00 ou às 10.00. Normalmente, já não trabalho mais de seis a sete horas, começa a ser puxado fazer mais. Saio por volta das 16.00 ou 17.00, volto a casa para dar apoio aos meus filhos e às 19.00 estou a treinar outra vez na pista do Restelo. Depois janto e às 22.30 estou na cama." Ao fim de semana, os treinos também são intensos e nem sempre os resultados são iguais. Às vezes, "tenho de lembrar o meu treinador que já fiz esforço na obra. Há umas que exigem mais do que outras"..O triatlo apareceu durante o restauro. "Vou para o sexto ano. No ano passado, fui campeã nacional de triatlo, campeã nacional de distância olímpica e de distância standard. E, este ano, vou ao campeonato do mundo em Ponte Vedra, a 4 de maio.".Deixar uma coisa ou outra, não faz parte dos seus planos, faz tudo por gosto. E vê-se a fazer o mesmo até aos 60 anos ou mais, até a saúde e o corpo o permitirem..homens e mulheres na construção Infogram.É mãe solteira e quer ser um exemplo para os filhos, de 15 e 14 anos. "Acho que eles me acham uma mãe normal, mas quando começam a falar das mães dos amigos, percebo que há diferenças, porque aquilo que elas acham horrível para mim é um desafio", confirma a rir. Mas acredita que ambos entendem esta sua vocação e que têm orgulho, sobretudo "quando me veem a competir e a ganhar medalhas"..Mas não só. "Um dia andava a pintar a fachada de um edifício junto à escola deles e contaram-me que disseram aos colegas: 'É a minha mãe que anda ali pendurada.' Não correu tão bem, quando um dia os fui buscar à escola vestida de ciclista. Eles ficaram envergonhados e disseram-me logo: 'Ó mãe, antes com o fato das obras'.".Filipa trabalhou para empresas, mas hoje é como freelancer que prefere estar na profissão. "Dá para gerir o meu tempo e as minhas atividades." Tem a ajuda da mãe, diz que o pai já encara melhor esta sua opção, mas nem sempre foi assim..Ela diz: "Nunca tive problemas", tirando o ter de saber lidar com os comentários que ainda hoje ouve quando compra material: "Veja lá o que faz com essa acetona, isso não é para tirar o verniz das unhas" ou ter de sorrir quando está a trabalhar e algum homem lhe atira: "Ó menina, não pode estar aí, o que está a fazer?".Todo o trabalho se encaixa a quem o queira o fazer, defende. "É tudo uma questão de opção, mas também cultural, quando se trata da sociedade."."As mulheres têm mais sensibilidade e paciência para alguns trabalhos nas obras".Margarida Fonseca está à beira dos 50 anos e dos 27 de profissão. Ninguém o diria ao olhar para o corpo franzino. É o trabalho nas obras que a obriga a estar em forma. E está, mais do que as amigas que têm outros trabalhos e que já se queixam de carregar os sacos das compras. Ela carrega sacas de 25 ou de 30 quilos de gesso, sobe e desce andaimes, passa horas a fio de braços no ar e de cabeça levantada para o teto. Só isto chega para "estar em forma"..É numa das igrejas mais antigas de Lisboa que encontramos Margarida, com ela subimos quatro andares de andaimes de ferro para chegar ao local junto ao teto, onde trabalha há meses, com toda a paciência e quase sempre na mesma posição, braços no ar e cabeça levantada. Ao chegar ao cimo, deparamos com pinturas do século XVII. Antes, "este teto estava negro, coberto de humidade e poluição. À medida que íamos limpando, descobríamos tudo isto que está à vista"..A igreja forrada de azulejos do século XVII vai estar em obras ainda durante muito tempo, mas Margarida está prestes a terminar o seu trabalho. Falta-lhe a recuperação de uma das salas, depois irá para outro lado. Tem sido assim desde que começou a trabalhar..Margarida foi da primeira leva que entrou no curso de Restauro e Conservação na Escola de Património de Sintra. Entrou em 1989 e saiu em 1992. Formou logo uma empresa com colegas. Naquela altura havia menos mulheres do que agora e, por vezes, os homens não as levavam muito a sério. "Tínhamos um colega na empresa que quando se dirigia a nós perguntava pelo nosso patrão, mas com o tempo tudo tem vindo a mudar. Agora, respeitam-nos.".Ao fim de tantos anos, não tem dúvida de que deveria haver "mais mulheres a trabalhar nas obras. Temos o mesmo jeito do que eles, aliás, até mais sensibilidade para alguns trabalhos minuciosos. Os homens não têm tanta paciência"..As mulheres são teimosas, insistem e, por vezes, uma obra nunca está acabada, a perfeição é o limite. Para ela "há sempre mais alguma coisa que falta. Já estou melhor, mas, por vezes, continuo a sair das obras com uma grande angústia. E quando acabo aquela obra também já é um pouco minha e a compensação é grande"..Gostava de pintar, de azulejaria, de cantaria, mas escolheu a área do estuque. Mas ao longo dos anos foi aprendendo que era preciso saber de tudo. Muito aprendeu com os mestres-de-obra antigos, que "ainda se vão encontrando. São pessoas com muita experiência e que ainda nos ensinam e dizem como as coisas têm de ser feitas para ficarem bem", mas nunca deixou de aprofundar os seus conhecimentos técnicos..Depois do curso técnico-profissional, Margarida foi fazer uma pós-graduação em Conservação e Reabilitação de Interiores na ESAD, nas Caldas da Rainha, fez mestrado em Pintura e agora um outro em Restauro em Arte Contemporânea. Pelo meio, tirou o curso de Direção de Obra no Cenfic (Centro de Formação em Construção Civil), acabou por ser convidada para ali dar formação em restauro e estuque..Para ela a formação não tem fim, "à medida que vamos recuperando e que vamos mexendo aqui e ali vão aparecendo situações novas e fico cada vez mais com curiosidade de saber como as posso tratar. E faço cada vez mais formação"..Margarida encontra-se connosco na véspera de partir para Madrid para participar em conferências sobre restauro em arte contemporânea. É isto que a alicia agora. Diz que mais cedo ou mais tarde "vamos ter de começar a recuperar murais, graffiti" que já vão integrando a história das cidades e até da democracia portuguesa..Os filhos, de 19 e de 13 anos, interessam-se imenso por arte, habituou-os a conhecerem o seu trabalho, mas do mais velho costuma ouvir: "Ó mãe, não sei como gostas disto", da mais nova nem tanto, "ela gosta de vir ver as obras em que estou". E já foram muitas, desde em palácios, como o da Pena, Queluz, dos Machadinhos, no Seminário da Luz, e tantos outros..A sua preocupação agora como profissional é esta onda da reabilitação urbana. "Trouxe muito trabalho, mas há muita coisa a ser destruída. Chamam-nos para darmos a nossa opinião sobre o que deve ser ou não preservado, mas quando chegamos às obras já há muita coisa que nos dizem: 'Caiu.' E nada há a fazer. As autarquias deviam estar atentas ao que se está a fazer neste ramo.".Da licenciatura em economia ao desemprego e ao curso de Eletromecânica.Ângela Miranda tem 28 anos e nasceu em Torres Vedras. Adorava Matemática e qualquer curso que escolhesse teria de ter essa disciplina. Decidiu-se pela Economia. Fez o curso na Universidade Nova de Lisboa. Teve o azar, ou sorte, de ter saído em plena crise económica, em 2011, o que a atirou para o desemprego, para os empregos precários, "fiz de tudo desde distribuir publicidade a inquéritos de rua". Cansada da situação decidiu fazer um curso subsidiado, numa área que gostava e que tinha deixado para trás: eletromecânica..Ao fim de três anos, e de ter trabalhado em empresas e de muitos outros biscates, hoje tem a sua empresa de automatismo, de portas e portões automáticos. "Se não tivesse sido o desemprego, se calhar não tinha chegado até aqui.".Em pequena, desmontava os brinquedos para perceber como funcionavam por dentro. "Adorava tudo o que metia eletrónica", conta-nos no armazém da empresa, na zona de Queluz. Mas quando se inscreveu no curso do Cenfim, a família achou que era um desperdício. "Achavam que estava a andar para trás ao ir fazer um curso técnico depois da licenciatura", mas o certo é que não estava a conseguir viver com o canudo em Economia..Quando entrou no curso, confessa que as suas expectativas foram superadas. "Adorei e arranjou logo trabalho numa empresa de elevadores, mas que tinha criado recentemente um departamento para portas e portões automáticos.".Foi colocada no aeroporto de Lisboa, fazia a manutenção de mais de 200 portas, ali esteve quase dois anos, até que começou a pensar que em vez de trabalhar para uma empresa de outros, poderia fazê-lo para si própria..Deitou mãos à obra e criou a empresa em setembro de 2017, mas nunca deixou de fazer prestação de serviços para outros. Também cedo percebeu que fazer o que os outros já não faziam era uma mais-valia, sobretudo para uma mulher. Por isso, aprendeu até "serralharia e soldadura, muita coisa através da internet", confessa. "Há colegas que veem mais de três fios dizem logo que não mexem, quando me chamam a mim, monto andaimes de seis metros, que é o que acontece quando arranjo portas e portões de centros comerciais, desmonto-os e reparo a avaria.".Abre a porta da carrinha que a transporta para todo o lado e percebemos o arsenal que é preciso para um trabalho destes, "a mala de ferramentas pesa mais do que eu", mas anda sempre consigo, "até durante as férias, pode ser sempre precisa"..Ângela já não se incomoda quando chega aos clientes e o primeiro olhar é de surpresa. "Soube desde sempre que estaria sozinha no ramo ou que pelo menos seria única em muitas situações. Preparei-me para isso.".Hoje dá-lhe gozo chegar a um cliente, depois de por ali já terem passado outros colegas e conseguir reparar a avaria. "Fico tão contente que quase me apetece não cobrar nada", comenta a rir. "É melhor do que estar num escritório a preencher papéis ou a tirar fotocópias." Para o conseguir, continua a estudar, "as minhas horas livres são ocupadas a ler manuais de instrução"..Ângela pensa no futuro. Em aumentar a capacidade de trabalho e a equipa da sua empresa. Gostaria de poder contratar mulheres, não por serem mulheres no mundo que ainda é dos homens, mas porque este tipo de trabalho passou a ser delas também. "Não há trabalho para o homem ou para a mulher, tudo depende de como os encaramos e ainda é isso que tem de mudar na nossa sociedade.".Notícia atualizada dia 8-4-2019 às 15.30.