As mulheres, o desejo e os sapatos

O culto dos sapatos explicado por <b>Manolo Blahnik</b>, o «guru» da moda levada a todo o mundo por Carrie, a protagonista da série televisiva <i>Sexo e a Cidade</i>.<br />
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É mais do que sabido que o homem que um dia disse que gostava de abolir o sexo é um dos mais influentes e prolíficos criadores de algo que, aparentemente, tem muitas afinidades com os órgãos sexuais. «Sabe uma coisa? O sexo não é, nunca foi e nunca será uma das minhas prioridades», diz Manolo Blahnik, num fato de cor lavanda e com uns mocassins magenta (tem mais de vinte pares, em verde-eléctrico, azul-turquesa, fúcsia...). Diz, enquanto reflecte inspirado pelo seu chá de menta, que não consegue abolir o sexo dos seus sapatos, «porque é a única forma de expressão que tenho. Devo ser realmente uma das pessoas mais esquisitas do mundo no que se refere a não precisar de sexo. Talvez se tenha evaporado por razões médicas ou qualquer coisa do género».
Talvez as quatro décadas que tem dedicado a embelezar/glorificar os pés tenham suplantado tudo o resto? «Talvez tenha razão. As pessoas estão sempre a perguntar-me "consegue alguma vez relaxar?" e eu respondo "Sim. Quando estou na maldita fábrica de Milão, quando estou a desenhar a nova colecção ou a fazer este material da Liberty ou as minhas outras peças e criações".»

Os novos Liberty
O «material da Liberty» - a não perder, de todo - é a sua primeira colaboração com uma grande loja (a Liberty é uma das mais antigas, luxuosas e prestigiadas lojas da Grã-Bretanha) para desenhar uma colecção limitada de sapatos. As «peças e criações» são, claro, o resultado sem paralelo em sapatos da sua imaginativa, estonteante, sexy (mas nunca vulgar) e criativa imaginação.
Jimmy Choo, sob o comando de Tamara Mellon, pode ser um guru de oitocentos milhões de dólares (576 milhões de euros); Louboutin pode ser o actual «queridinho» da moda entre o jet set; Nicholas Kirkwood e Charlotte Olympia podem ser os «novos turcos». Mas o mestre, o criador, o pioneiro, o «padrinho dos sapatos» (nas palavras de Naomi Campbell), o «Benjamin Franklin, o Isaac Newton, o verdadeiro génio» (nas palavras de Isaac Mizrahi [conhecido estilista]), o responsável pelo alto conceito dos «sapatos que transformam pernas», é Blahnik.

O universo Manolo
Manolo não é muito adepto de exposição («põem-me ainda mais neurótico»), ao contrário das fãs que o perseguem atrás de um autógrafo e das centenas de bloggers que escrevem sobre os seus sapatos na blogosfera, incluindo «Manolo, the Shoeblogger» (um membro do universo de comentadores de sapatos que é presumivelmente inspirado em Manolo Blahnik, já que não é certamente o próprio Manolo), dos taxistas que perguntam constantemente que número calça Carrie, e das centenas de milhares de mulheres de todos os tamanhos e feitios que encontraram nos seus pés calçados com «manolos» uma forma de afirmação pessoal tanto quanto de demonstração de elegância e sofisticação.
Apesar de Manolo Blahnik se ter tornado a bandeira de um novo barómetro do luxo e um dos primeiros a levar as mulheres a pensar nos sapatos como um símbolo de status, confessa que não se sente muito confortável com o preço que os sapatos de luxo atingiram. Aos 66 anos, Blahnik vive bastante bem - numa maravilhosa casa de estilo georgiano em Bath -, mas o seu maior luxo é o seu jardim e os seus livros. Mesmo assim, queixa-se de que lhe custou dar recentemente três mil libras (cerca de 3500 euros) por algumas edições raras: «Não sou uma pessoa extravagante.» Não lamenta não fazer poupanças e não está interessado em sociedades: «Não tenho nenhuma vontade de trabalhar com outras pessoas. Não posso. Provavelmente, sou impossível.» O que não é inteiramente verdade. Já trabalhou com George Malkemus, um ex-criativo da agência de publicidade Bergdorf Goodman, no início dos anos oitenta, quando o seu negócio começou a ter sucesso nos Estados Unidos. Por essa altura, «ou talvez um pouco antes», a sua irmã Evangeline também se lhe juntou para o ajudar a gerir o «ramo de Londres»: «Não sou bom com datas. De qualquer modo, ela veio a conduzir desde as Canárias no seu Volkswagen. Acho que só trazia com ela no carro a máquina de lavar e Kristina, a filha.» Kristina seguiu arquitectura e agora trabalha com o tio como designer. Não considera que tenha um império, embora dê emprego a muita gente - nunca contou quantas pessoas trabalham para ele - nas cinco fábricas italianas dedicadas à produção dos seus sapatos. «Os melhores funcionários estão todos as chegar aos 70 anos e a reformarem-se, e claro que os seus filhos não se interessam por este trabalho. Provavelmente querem todos ser bancários...», diz, com uma certa pena.

O Mick Jagger dos sapatos
Ouvir Manolo é como andar nos rápidos: «A minha pobre mãe já nem me conseguia ouvir no final», lamenta-se, embora ninguém possa criticar a falecida Mrs. Blahnik por de vez em quando «ensurdecer» ao ouvir o filho. Manolo é uma delícia, mas é extenuante, embora não se possa deixar de apreciar o seu lado polido, urbano e sério. Confessa que alguns dos seus momentos mais felizes são passados no seu jardim, onde carrega baterias antes de iniciar uma das suas habituais «digressões» pelos Estados Unidos.
«Se não houver falhas, teremos sempre pelo menos quatrocentas pessoas em cada evento onde se anuncia que o Manolo estará», diz Ed Burstell, director executivo da Liberty, que trabalhou anteriormente na Bergdorf Goodman em Nova Iorque. Os clientes «cobertos de dinheiro» aparecem nas festas «de Blahnik», como se ele fosse o Mick Jagger dos sapatos. «É nesses acontecimentos sociais que as pessoas me falam dos seus casamentos, é nessas ocasiões que me contam como beberam champanhe pelos meus sapatos durante a lua-de-mel ou durante um fim-de-semana de reconciliação», explica Blahnik: «É extenuante. Eu a ser Manolo Blahnik. E a verdade é que até sou bastante tímido.»

... até em cima de uma mesa
Mesmo em tempo de crise, as mulheres compram sapatos com tanta luxúria como nem as previsões dos mais avisados sexólogos as suporiam capazes para colecções de diamantes. Elas compram algemas e stiletti nas sex-shops, dão fortunas por «Dorothy Shoes» [modelos inspirados nos sapatos de Dorothy em O Feiticeiro do Oz, que são considerados um verdadeiro fetiche e estão à venda nas sex shops em várias versões] e não perdem o último grito em telemóveis, iPhones, iPads, iPods e companhia. Esgotam as últimas invenções em sapatilhas de ginástica que ajudam a queimar calorias e compram aparelhos de treino que nem sequer tencionam usar. Mas mais importante do que tudo isto, elas compram muito mais do que aquilo que têm para gastar. Porquê?
Primeiro, diz Blahnik (que teve os últimos quarenta anos para reflectir sobre esta questão), «um vestido não é nada apelativo quando está pendurado num cabide. É preciso usá-lo para o considerar ok. Mas um sapato... reluz até em cima de uma mesa. Às vezes até funciona melhor em cima de uma mesa». Não que ele se permita pensar assim: «Infelizmente, tenho mesmo de ver o sapato numa perna para que ele tenha significado. E não apenas numa perna esguia e perfeita. Gosto de pernas esguias, mas não quase anorécticas como muitas que há entre as senhoras de Nova Iorque... Onde é que eu ia? Ah, sim, comparado com outras peças de vestuário, o sapato não é assim tão caro. Um vestido de alta-costura pode custar dez, vinte, quem sabe quantos milhares de dólares», suspira. Falar de dinheiro é demasiado «baixo nível». Margens de lucro excessivas também são «baixo nível» - Blahnik sentiu-se mortificado quando, recentemente, viu numa loja um dos seus pares de sapatos com um preço altamente inflacionado e sem qualquer correspondência com a realidade do seu fabrico. Diz que gosta de os vender ao que considera um preço justo. Também não gosta de ver mulheres com implantes mamários - «isso está para além do "baixo nível"» - ou a usarem saltos altos absolutamente desproporcionais à sua própria altura: para Blahnik, isso chega mesmo a ser «ordinário», embora confesse gostar de ver «aquelas raparigas altíssimas, tipo amazonas, em saltos bem altos, porque isso, sim, é proporcional ao tamanho das suas pernas». E gostaria que mais mulheres conseguissem perceber que «os saltos rasos podem ser elegantes. Usar algemas e lingerie erótica é divertido, mas só se for com sentido de humor e ligeireza». Isto poderia parecer arrogante se não fosse o facto de Blahnik realmente conseguir conceber um sapato pleno de humor e frivolidade. Ed Burstell diz que o estilista «nunca se compromete com os seus modelos. O seu trabalho tem um apelo universal que transcende as tendências sazonais. Ele sabe como é que uma mulher com substância quer sentir-se - entende melhor a elegância do que a opulência».

Direito, línguas e ilustração
Blahnik nunca teve formação como estilista de calçado. Estudou Direito durante cerca de cinco minutos, depois literatura e uma série de línguas («falo-as todas mal»), e finalmente resolveu «assentar» como designer - foi um ilustrador talentoso, como dois dos seus livros de esboços de sapatos atestam. Um encontro com Diana Vreelan, a lendária editora das revistas norte-americanas Harper"s Bazaar e Vogue, direccionou-o para outros caminhos. «Faça sapatos», aconselhou-o quando ele lhe mostrou os esboços teatrais. Blahnik não discutiu. Felizmente, havia a sua mãe: «Durante a guerra, a minha mãe usou seda e chiffon nos sapatos, em vez de atacadores. Na realidade, ela ensinou-me a fazer sapatos.» Não foi inteiramente bem sucedido. As suas primeiras tentativas com saltos altos pareciam-se com as bananas que a família produzia numa plantação que tinham nas ilhas Canárias. Mas enquanto adoptava a postura do amador «talentoso-mas-estou-me-nas-tintas-para-isso», trabalhava que nem um doido e produzia ele próprio os seus sapatos. Durante algum tempo lutou contra a falta de dinheiro - até Molly Parkin (na altura editora de moda no Sunday Times) pôr um dos seus sapatos na capa do magazine: «Pareciam-se com tijolos, literalmente, e claro que não era possível andar em cima deles. Mas depois disso toda a gente veio à minha pequena loja, o que foi óptimo porque viver no limiar da pobreza não é mesmo a minha praia.»
Paloma Picasso, Marisa Berenson, Raquel Welch, Jennifer Anniston (fez os seus sapatos de casamento), Anna Wintour, Jackie O, Michelle O, Carla Bruni, Kate Moss e Cate Blanchett são algumas das suas fãs, apesar de Blahnik não poder estar menos interessado em celebridades. Apesar da sua fama, vive com uma angústia - a de ainda não ter conseguido o sapato perfeito... \t\t

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