As minhas desculpas (atrasadas) a Tony Lima

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Entre tantos mistérios sobre o assassínio de John Kennedy há uma resposta precisa - fotografada e filmada - sobre quem o levou para a morte, William Greer, mas ninguém liga a este homem. Sabemos tudo sobre os protagonistas do dia: o próprio Kennedy, que levou a mão à garganta ao primeiro tiro, Jacqueline, a primeira-dama que perdeu a cabeça e se pôs a fugir galgando a mala traseira do carro (o Lincoln Continental era descapotável), o governador do Texas John Connally, sentado de frente para o presidente, e que também levou um tiro, Nellie, a mulher do governador, que dissera pouco antes as últimas palavras que Kennedy ouviu: «O senhor Presidente não vai poder dizer que o povo de Dallas não gosta de si.» Já para não falar do tipo que premiu o gatilho, Lee Harvey Oswald... Todos famosos, mas de Greer, nada.

Sempre me fascinaram os secundários, aqueles que estiveram lá, no tempo e lugar que a História iluminou, e, no entanto, nem se pode dizer que foram apagados porque, de facto, nunca tiveram contornos nítidos. Quando Greer morreu, em 1985, teve menos destaque que Chita, o chimpanzé de Tarzan. Há semanas, Chita morreu, foi lembrado abraçando Johnny Weissmuller, mas depois desconfiou-se que chimpanzés há muitos e era difícil o falecido ser o mesmo, precisava de ser octogenário o que não é comum na raça. Mas Greer era mesmo ele, o homem que conduziu Kennedy para a morte.

William Greer, nascido na Irlanda, emigrado para os Estados Unidos com 20 anos, membro dos serviços secretos, conduzia o Lincoln. Aquele filme-documentário (o histórico Zapruder film, feito por um amador) mostra-o a virar-se para trás ao primeiro tiro. Ele esteve lá, como a criada belga (cujo nome me escapa e à Wikipedia também) que serviu o café a Napoleão antes de ele cavalgar para Waterloo. Parece que Greer abrandou o carro, reação fatal, permitindo o segundo tiro, e só depois acelerou - aposentou-se dois anos depois daquela manhã de Dallas, por causa de uma úlcera no estômago. Esta indicia que a consciência o mordia, mas quem não gostaria de ter na família um secundário destes: «Conta-nos como foi, tio William...»

Há vinte anos, andei pelos Estados Unidos a recolher dados para um livro, Os Primos da América, sobre os portugueses que por lá andavam. Em Los Angeles, Tony Lima veio-me ao encontro com sapatos pele de cobra e contou-me logo que uma caixeira de supermercado acabara de se pôr aos gritos: «It"s Tony! Tony Lima!», o que me convinha, porque eu estava a precisar de uma personagem portuguesa à conquista de Hollywood. Ele estava lá há 13 anos, viera de Almada, andara numa escola de atores, a Beverly Hills Play House, com a viúva de Elvis, Priscilla Presley. E eu, para mim: «Pois, pois...» Tony disse-me que começou nos anúncios, e o primeiro foi para a Pepsi-Cola, com Michael Jackson. E eu: «Pois, pois...» Depois, ele adiantou-me pormenores das filmagens no Culver Studio: «Era eu quem lhe dava a Pepsi à mão...»

Foi isso que ficou escrito, Tony Lima passou a lata de Pepsi a Michael Jackson, mas eu escrevi-o com um sorriso mordaz. Há dias, ao frequentar o Youtube, decidi confirmar as minhas suspeitas. Anúncio «Pepsi Generation», com Michael Jackson (ainda ele era negro), em 1984. Ao segundo 0:36, lá vejo, mesmo, Tony Lima, não a entregar, mas ao lado de quem entregava, não a Michael Jackson, mas ao dançarino que ia levar a lata de Pepsi-Cola ao cantor. No essencial, Tony Lima tinha-me dito a verdade, ele esteve lá, viveu um momento histórico. Era um secundário autêntico, daqueles que maravilham os sobrinhos: «Conta-me como foi, tio Tony...»

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