As mamas de Pamela Anderson

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Ainda sou de um tempo em que rapazes e raparigas não se misturavam na escola - nem sequer nos pátios. Para eles, era bola e zaragata. Para elas, lavores e ponto-cruz. Casadas, só podiam sair do país com autorização do marido. Não podiam ser magistradas nem diplomatas. E até 1968, elas só podiam votar se fossem licenciadas ou chefes de família, no caso das viúvas. Ensinavam-nos que "entre marido e mulher não se mete a colher", pelo que a violência doméstica não era crime público. Presas, foram "as três marias", autoras de Novas Cartas Portuguesas, um projeto literário onde Maria Teresa Horta, Maria Isabel Barreno e Maria Velho da Costa reclamavam o direito à sexualidade feminina. Ora, décadas depois, na véspera de mais um Dia da Mulher, bem podem desabafar: "O que nós andámos para aqui chegar!"

Sim, nesses casos, a revolução mudou-nos em quase tudo. Pôs-nos em dia com a luta feminista do último meio século. E, por todo o lado, a ela devemos uma extraordinária capacidade de transformação social, no sentido de maior justiça e progresso civilizacional para as mulheres - e também para os homens. Um dos maiores impulsos irrompeu há cinco anos, com o #MeToo (Eu também). O que começou por uma investigação em que várias mulheres denunciavam o produtor de cinema Harvey Weinstein por assédio e agressão sexual, gerou uma vaga expansiva com profundas repercussões em todas as latitudes, tornando-se viral nos meios de comunicação e nas redes sociais, e rapidamente se converteu no mais importante movimento feminista deste século. Quebrando a cultura do encobrimento, foi possível tomar consciência da magnitude do problema: afinal, aquelas histórias ocultas de assédio ou violência sexual e machista não eram únicas, estão por todo e revelam o seu carácter sistémico. Entre nós, as queixas não têm parado de crescer: foram mais de 30 mil em 2022, ano em que foram contados 28 crimes de morte em contexto de violência doméstica, e enquanto a Organização Mundial da Saúde denuncia que uma em cada quatro mulheres entre os 15 e os 49 anos é vítima de violência física ou sexual.

Há cinco anos, o que começou por ser uma denúncia contra a impunidade das agressões e crimes sexuais, bem como o combate ao assédio, à menorização e ao enxovalho das mulheres, foi acima de tudo a luta pela libertação da sua voz. Desde então, as representações vexatórias da mulher não passam sem contestação. Agora abertamente, discutem-se o amor e o desejo sem dominação. E por todo o lado, debate-se e reclama-se em favor da paridade: no emprego, nos salários, no poder das empresas e das instituições. Os estereótipos que tratam as mulheres como meros objetos, negando-lhes sua autonomia e subjetividade, estão debaixo de fogo. E cada vez mais com recurso a uma nova arma: a internet.

Destaquedestaque"Costumo dizer que a minha carreira foram as minhas mamas, e eu ia no pacote. Querem vê-las?"

A Netflix disponibiliza, desde 31 de janeiro, um documentário Pamela Anderson, uma história de amor, onde "a bomba loira", atriz considerada a "deusa sensual" dos anos 90, decidiu aos 55 anos abrir o livro e manifestar-se cansada dos preconceitos que o mundo do cinema produziu sobre si mesma, reclamando a justa e humana dignidade que lhe é devida. Ela, que foi abusada e violada ainda criança, tem hoje a consciência de como foi ingenuamente utilizada na indústria do cinema, lá onde se produzem os estereótipos do amor e do sexo que melhor vende: "Costumo dizer que a minha carreira foram as minhas mamas, e eu ia no pacote. Querem vê-las?", ironiza.

O movimento #MeToo está longe de cumprir os desígnios de emancipação da metade do nosso mundo, mas abriu decididamente novas portas na luta das mulheres pela igualdade. Todos ganhamos se estivermos com elas. Eu também.

Jornalista

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