As ilhas que põem em choque Rússia e Japão

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As quatro ilhas que impedem desde 1945 um tratado formal de paz entre a Rússia e o Japão ficam a sete mil quilómetros de Moscovo, mas a menos de 700 de Tóquio. E só essa diferença deu vantagem clara a Vladimir Putin quando discutiu há dias o assunto com Shinzo Abe, tanto mais que são os russos que controlam desde o final da Segunda Guerra Mundial as chamadas Curilas do Sul (Territórios do Norte, preferem os japoneses). O que para a Rússia é um assunto de geopolítica, para o Japão tem grande peso simbólico.

Foi com o objetivo de arrancar algumas concessões do presidente russo que Abe esteve na semana passada em Moscovo. Mas o primeiro-ministro japonês não conseguiu mais do que um acordo para que o tema das Curilas continue a ser discutido e para isso aceitou um reforço das relações económicas. O objetivo é alcançar nos próximos anos 30 mil milhões de dólares anuais em trocas comerciais, uma vez e meia o montante atual.

Ao aceitar aprofundar a relação económica antes de conseguir concessões de Putin, Abe corre riscos de desagradar aos setores mais nacionalistas. Putin está em posição de força, até porque sabe que o japonês tem um interesse pessoal nas Curilas. Abe, em 1986, chegou a acompanhar o pai, que era ministro dos Negócios Estrangeiros, numa visita a Moscovo para tentar obter do último líder soviético, Mikhail Gorbachev, a devolução das quatro ilhas (Habomai, Shikotan, Kunashir/Kunashiri e Itorup/Etorofu).

A esperança de Abe, que o leva a arriscar, tem que ver com a vontade mútua de russos e japoneses de porem fim à situação teórica de guerra, um absurdo. E a isso acresce a possibilidade de devolução das duas ilhas mais próximas de Hokkaido, levantada em 1956 pela URSS aquando do estabelecimento de relações diplomáticas e que pode ser agora o ponto de partida negocial.

É improvável, porém, que haja resultados a médio prazo. As Curilas e a enorme Sakalina tinham soberania incerta no século XIX e entre acordos e guerras (como a de 1905, em que o Japão Meiji derrotou a Rússia dos Romanov e depois a Segunda Guerra Mundial com vitória russa) chegou-se às fronteiras atuais, já só com quatro ilhas em disputa.

Putin, apesar da distância, conhece bem o valor estratégico das Curilas do Sul, a ponto de o Japão ter de prometer nunca autorizar aí bases americanas em caso de restituição. E sabe também que a esmagadora maioria dos russos é contra cedências territoriais, por mínimas que sejam, até por poderem abrir precedentes vários. Portanto, não podendo ceder apressadamente nem sequer Habomai e Shikotan, aproveita a confiança construída ao longo de duas dezenas de encontros com Abe para reforçar a cooperação económica e, na medida do possível, abalar a aliança militar entre Tóquio e Washington.

Abe está longe de ser um ingénuo, mas joga aqui em claríssima desvantagem. Os tais curtos 700 quilómetros até Tóquio, assim como a pressão das famílias japonesas oriundas das Curilas do Sul, juntam-se à memória do pai e ao seu fulgor nacionalista pessoal para não desistir. Nisso não pode ser censurado.

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