As idades do namoro

Se há coisa que os casais de namorados de 20, 40 e 60 anos têm em comum é a crença de que agora é que é, agora é que estão com a pessoa com quem querem passar o resto da vida. Mas será que se namora da mesma maneira com o avançar da idade?
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Depois de uma «separação dolorosa» e de um «divórcio inevitável», e sentindo que o luto estava feito, Augusto Ferreira, 43 anos, inscreveu-se no site de encontros Twoo e não demorou muito a encantar-se por Mónica Carvalho. Augusto e Mónica chegaram a uma fase da vida em que não há tempo para conhecer gente nova e nem é fácil encontrar o amor ao virar da esquina. Por isso recorreram a «um meio fácil e mais rápido», não quer dizer certeiro, de socializar com desconhecidos, potenciais namorados - um site de encontros.

Quando se tem 20 anos, as saídas com os amigos, os intervalos da escola e as festas de aniversário fazem que as oportunidades surjam a toda a hora. Há pessoas livres em todo o lado. Aos 40 e aos 60 não é bem assim. Ganharam-se manias, hábitos, tem-se bagagem, eventualmente filhos e divórcios complicados no currículo sentimental.

«Gostei do rosto dela, achei-a bonita», diz Augusto. As informações pessoais que Mónica adicionou ao seu perfil no site Twoo também ajudaram a atrair a atenção. «Reparei que tínhamos interesses em comum.» Augusto é fotojornalista e... fiel de armazém, que é como consegue pagar as despesas. O interesse de Mónica pela fotogafia, ainda que amador, juntou-os. Sentados lado a lado à mesa de uma pastelaria em Lisboa, trocam mimos e mantêm as mãos dadas. Estão apaixonados. A ela não faz mossa a aliança tatuada no anelar dele, símbolo do casamento anterior. «Cada um carrega a sua história. Eu também tenho o meu passado e não posso, não quero, apagar.»

Aos 39 anos, a bagagem de Mónica é um «pouco mais pesada» do que a do namorado. Além de um divórcio, tem dois filhos, um com 21 anos e outro com onze. Embora não vivam com ela, Mónica diz «não ter tempo nem feitio» para sair à noite. Augusto também é pouco fadado para isso: «A energia não é a mesma de há uns anos. Não estou a ver-me a frequentar outra vez os bares e as discotecas até às tantas da manhã, tendo de me levantar cedo no dia a seguir para ir trabalhar. Por outro lado, os amigos têm as suas vidas organizadas, estão casados, têm filhos. Neste aspeto, é mais cómodo recorrer à internet.»

Namoram desde outubro, pouco tempo depois do primeiro encontro, e garantem que namorar aos 40 não é como namorar aos vinte. O coração bate forte, a ansiedade consome, é certo, mas «o que sentimos é talvez mais racional», que é como quem diz, só gostar não chega, são necessários outros atributos para uma relação durar. Essa é também a perceção do terapeuta familiar José Gameiro: «As manifestações físicas do amor alteram-se com a idade. Aos 18, 20 anos, encara-se o namoro de uma forma mais leve e prolongada no tempo - ainda vivem com os pais, não são financeiramente autónomos, não têm pressa de juntar os trapos. Quando se namora aos 40, as pessoas não esperam tanto como os jovens para terem relações sexuais e até têm uma certa pressa em viver juntos.» O dinheiro pode pesar nessa decisão, porque nem todos podem dar-se ao luxo de manter as despesas de duas casas. De resto, se gostam um do outro, «questionam-se por que razão hão de adiar uma coisa que acabará por acontecer mais cedo ou mais tarde». Augusto e Mónica vivem em casas separadas, mas ele passa mais tempo na dela do que na dele. E já estão a pensar dar o passo seguinte: viver juntos. Os filhos de Mónica vivem com o ex-marido. «Conheço o mais novo, damo-nos bem. Quando ele fica com a mãe, eu vou dormir a minha casa. Essa é talvez a única coisa que vai mudar quando vivermos juntos. Deixará de fazer sentido eu ir dormir a outro sítio.»

«Ex» e filhos boicotam namoro

Nos casos em que existem crianças de uma relação anterior, viver na mesma casa pode ser mais complexo, «em especial para as mulheres», que além de «demorarem mais tempo a apresentar os filhos ao namorado» do que os homens na mesma situação, «hesitam e receiam mais do que os homens partilhar a casa novamente», porque têm medo de envolver os filhos numa relação que pode acabar. Os homem têm outros handicaps: «Os filhos das namoradas, por exemplo. Há miúdos que dificultam o namoro do pai ou da mãe logo no início, há outros que tornam as coisas muito complicadas só quando a outra pessoa vai viver com o progenitor.»

Os «ex» também podem prejudicar o namoro. José Gameiro exemplifica: «As desculpas para não ficarem com as crianças no fim de semana que lhes compete são muito frequentes, sobretudo se sabem que o ex-marido ou a ex-mulher está a planear passar dois dias românticos com a(o) namorada(o). Isto acontece quando há um sentimento de rejeição, quando a separação não foi de comum acordo.»

Para o casal José Esteves, 60 anos, bancário, e Ana Moreno, 54 anos, professora do ensino básico reformada, isso não é assunto. São ambos divorciados com filhos a cargo, mas suficientemente crescidos para não precisarem de uma supervisão parental a tempo inteiro. José e Ana também se conheceram num site social. «Os interesses comuns» foram o bastante para a marcação de um encontro olhos nos olhos. «Ela trazia um vestido comprido cinzento e preto, estava linda.» Ana não sabe precisar: «Ele estava de jeans e uma camisa às riscas... ou seria aos quadrados?»

Do primeiro encontro ao namoro decorreram três meses. Sem pedido formal: «Com a descoberta e o reforço da intimidade, o compromisso tornou-se um dado adquirido. Simplesmente aconteceu», revelam. Namoram como todos os casais de namorados, «passeamos, brincamos, tocamo-nos, beijamo-nos, conversamos, trocamos carinhos, e mais não digo [risos]». Diz ela: «Tenho poucos tabus quanto à intimidade e posso dizer-lhe que a intimidade do amor, nesta idade, é muito mais descontraída. É êxtase e doçura, é riso, é emoção, é ligação, é tudo aquilo que queiramos que seja, sem falsos pudores. A atração física conta, pelo menos no nosso caso.» Isto, para contrariar a ideia de que os mais velhos dão mais importância à amizade e à companhia, para não chegarem ao fim sós: «O companheirismo também é um fator de peso, o que é diferente de companhia, que fique bem claro. Companhia faz um cão», desmistifica Ana.

Em todo o caso, não namoram como namoravam há trinta ou quarenta anos. Ana diz que muita coisa mudou: «Hoje há mais abertura, as demonstrações de carinho em público já não são penalizadas socialmente. O nosso percurso de vida também permite-nos uma maior segurança, ligamos menos às condicionantes sociais. Somos quem somos, não devemos, não tememos. Estamos mais confiantes em nós próprios e no que nos une.» Com a idade e o amadurecimento, evitam-se os erros do passado, mas «se por acaso caímos neles, resolvemo-los com mais facilidade do que quando tínhamos 20 ou 40 anos. Falamos mais abertamente daquilo que nos incomoda, tornamo-nos mais transparentes.» Por essa razão, não tiveram problemas em assumir perante a família e os amigos que se conheceram num site de encontros.

O primeiro amor

Foi numa festa de amigos da escola, à noite, que Rodrigo Moniz foi ter com Íris Lacerda Pereira para meter conversa de circunstância. «Sem segundas intenções», garante. «Tinha ido jantar com a prima dela e foi isso que fui dizer-lhe.» Alguma coisa deve ter começado a germinar, porque entretanto meteram-se as férias de Natal e eles não deixaram de trocar sms e e-mails. O namoro aconteceu pouco depois de as aulas recomeçarem. Fora de uso entre os jovens, a pergunta «queres namorar comigo?» nunca foi expressa, estava implícita em cada convite para beber um café e em todos os reencontros nos intervalos. Namoram fez ontem quatro anos. Ela tinha 14, ele 16. Demoraram um ano a entregar-se aos prazeres do sexo, com o conhecimento e aceitação da mãe de Íris. «Achei importante falar primeiro com a minha mãe. Antes de mais, queria saber se lhe fazia confusão. Por outro lado, pensei que era a melhor pessoa para me falar de métodos contracetivos.» Abordagem impensável para a maioria dos adolescentes num passado ainda recente. «Eu tinha 15 anos quando tive essa conversa. A minha mãe disse-me que não há uma idade certa para se ter a primeira relação sexual (quer dizer, tenho a certeza que ela não me diria isso caso eu tivesse 12 anos), que o importante era eu ter noção da minha decisão.»

Namoram como todos os jovens da sua idade: saem à noite, passeiam, fazem desporto - «ele ofereceu-me uma prancha de surf e está a ensinar-me a surfar» -, e aos domingos têm encontro marcado à hora do lanche na pastelaria Careca, no Restelo: «Tem os melhores croissants do mundo.»

A relação de Rodrigo e Íris nunca passou pela fase da «curtição». Ao contrário de muitos colegas que andam de «curte em curte», o namoro deles é «sério» e, apesar de longo, não precisa de planos a prazo, como acontece por exemplo aos quarenta. O futuro, para eles, é mais longe do que o dia de amanhã. O futuro é daqui a oito, dez anos, depois de ele terminar o curso de Gestão (frequenta o segundo ano) e ela conseguir entrar em Medicina Dentária, quando ambos tiverem um trabalho que lhes assegure a dependência financeira. «Mais vale fazê-la feliz agora do que programar a felicidade a dois, debaixo do mesmo teto, para daqui a não sei quantos anos.»

Aos 60, o futuro é já amanhã. Pode é não passar pela partilha da mesma casa, como afiança José Gameiro: «Os casais de namorados mais velhos não precisam dessa prova de amor. Não sentem tanto a necessidade de viver juntos, todos os dias. Se têm uma situação financeira confortável, não é raro viver cada um em sua casa.» O caso de José e Ana é exemplo: «Como ambos temos filhos dependentes, a prioridade agora são eles. Vamos esperar que sejam autónomos, o que, na conjuntura atual, acontece cada vez mais tarde e com maior dificuldade. Temos planos nesse sentido, mas não vivemos obcecados com isso. Além disso, vamos vivendo juntos quando queremos e podemos, geralmente aos fins de semana e uma vez por outra à semana.»

O que encanita uma relação de namoro também muda consoante a vivência que se tem. As zangas, as irritações, as angústias, os medos, o ciúme, não desaparecem com a idade, mas vivem-se e resolvem-se de maneira diferente. No caso de José e Ana, o «à-vontade, a frontalidade e a maturidade» ajudam a suavizar os efeitos desses contras. Mónica e Augusto têm «medo de falhar uma vez mais», mas acreditam que o que sentem e as afinidades que os unem «são suficientes para ultrapassar os problemas». Rodrigo e Íris, curiosamente, têm nas ideologias políticas a maior fonte de discussões entre eles. Ela é «mais liberal», ele, mais conservador», e isso reflete-se na forma como resolvem os ciúmes ou o medo da perda. Rodrigo gostaria de ir seis meses para o Brasil estudar, mas tem receio de que a namorada «se apaixone por outro». A Íris isso não lhe tira o sono. «Não acho que tenhamos de acabar por ele estar longe. Uma relação pode sobreviver à distância. Além disso, o que tiver de acontecer acontece, estando ele no Brasil ou cá.»

O amor em quatro minutos

Para pessoas descomprometidas e sem tempo para uma vida social ativa, o speed dating é uma alternativa aos chats. Introduzido em Portugal há quase sete anos pela Big Eventos, consiste em encontros rápidos e conta com «15 mil pessoas inscritas no site [www.speedparty.net] e seis mil participantes nos encontros». O que o carateriza é a rapidez com que se pode conhecer 15 pessoas numa só noite, estando olhos nos olhos com cada uma apenas quatro minutos, que é mais do que o tempo necessário para a empatia acontecer. Pelo menos é isso que revela um estudo realizado pela Ohio State University, segundo o qual três minutos são suficientes para aprofundar um relacionamento. «Os encontros realizam-se num espaço exclusivo, geralmente num bar, e se houver um interesse mútuo entre dois participantes, nós fornecemos-lhes os contactos um do outro», explica o diretor da Big Eventos, Miguel Moreira. As pessoas «entre os 30 e os 50 anos são as que mais aderem a estes programas», o que para o empresário está relacionado com três fatores: com a «tendência, cada vez maior, para as pessoas que vivem nos grandes centros urbanos se isolarem», com a importância que se dá à carreira num mercado de trabalho competitivo, preterindo-se os relacionamentos sérios e adiando-os para mais tarde, e com os divórcios que, com mais frequência, ocorrem nestas idades. Na faixa dos 20 «existe alguma procura», mas consideravelmente menor, porque «ainda há o hábito de os jovens saírem com os amigos».

A opinião de José Gameiro, psiquiatra e teraopeuta de casal

O namoro tem idade?

_O namoro a "sério", que envolve paixão, amor e, eventualmente contacto físico, começa por volta dos 12, 13 anos. Para começar tem idade, para acabar é que não. Conheço pessoas que se apaixonaram e começaram a namorar depois dos setenta.

Namora-se da mesma maneira aos 20, aos 40, aos 60 anos?

_Não, existem diferenças, exceto talvez num aspeto: tenham a idade que tiverem, os casais de hoje já não namoram só de mão dada durante muito tempo. A iniciação sexual começa, em média, aos 16 anos e é com o(a) namorado(a) e não, como acontecia com os rapazes no passado, com prostitutas ou empregadas. Os pais jovens também têm mais abertura para aceitar a vida sexual dos filhos e muitos não têm problemas em levar os namorados deles para férias. Em todo o caso, os jovens esperam mais tempo para ter sexo do que os casais que começam a namorar aos 40, aos 50 ou aos 60 anos. A forma como vivem o namoro é também diferente: os jovens encaram-no como uma relação prolongada, porque ainda têm muita coisa para concretizar antes de uma possível partilha de casa: os estudos, uma carreira profissional estável, uma situação financeira autónoma. Aos 40, o namoro é de paixões fortes, intensas, violentas, mas tem um ingrediente que aos 20 não existe...

... Bagagem.

_Ora nem mais. A bagagem, consoante a experiência de vida de cada um, pode facilitar ou prejudicar o namoro. As mulheres, sobretudo as que têm filhos, têm mais dificuldades em encurtar o tempo de namoro e passarem à coabitação. Tendem a proteger os filhos de um convívio diário com alguém que pode deixar de fazer parte da vida deles; nos homens existe mais pressa em juntar os trapos, talvez por não serem tão autónomos como as mulheres. Além de que não têm a questão dos filhos - se os têm, geralmente vivem com as mães.

É mais fácil namorar quando não há filhos?

_É muito mais fácil. Não é por acaso que na gíria masculina se usa esta frase: «Arranjaste uma namorada com brindes ou sem brindes?» Os brindes são os filhos, quer dizer que a possibilidade de haver complicações aumenta. Aos 60 anos, essas complicações à partida não existem. As pessoas estão em princípio mais disponíveis, encaram o namoro com mais maturidade. A atração física e o sexo continuam a ser importantes, mas com o tempo as pessoas priorizam o companheirismo, as afinidades, os interesses em comum. O amor é mais racional. Nestas idades, há menos rompimentos e não há urgência, necessidade, de viverem na mesma casa.

«Queres subir para beber um café?» é um convite para o sexo?

_É.

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