De um lado, Álvaro Uribe, presidente da Colômbia. Do outro, Rafael Correa, do Equador, Hugo Chávez, da Venezuela, Daniel Ortega, da Nicarágua - o mais recente confronto entre líderes latino-americanos tem um pretexto bem identificado: a ofensiva do exército colombiano contra uma base das FARC em território equatoriano, de que resultou a morte de 16 guerrilheiros, incluindo Raúl Reyes, o número 2 da organização. A violação das fronteiras foi imediatamente denunciada por alguns vizinhos, mas o Governo de Bogotá reagiu acusando Quito de acolher um grupo considerado terrorista pelos EUA e pela União Europeia e Caracas de proteger e financiar os rebeldes. .A escalada verbal prosseguiu, durante vários dias, até atingir um nível insustentável. Todos os protagonistas envolvidos no confronto sabiam, porém, que acabariam o fim-de-semana juntos na República Dominicana, na vigésima cimeira do Grupo do Rio. Aqui, uma vaga de encontros e mais umas tantas declarações apaziguadoras depois evitaram o que, afinal, ninguém queria: que a guerra a sério fosse a continuação inevitável da batalha retórica. .Nem era provável que o confronto seguisse esse caminho. Na sua maioria, os exércitos latino-americanos prepararam-se para fazer golpes de Estado e governar, quase sempre, em ditadura os respectivos países. Foram feitos para agredir os próprios povos, não as nações vizinhas. Porque é que Hugo Chávez levou então tão longe o desafio? Não deve afastar-se de todo a hipótese levantada por Plinio Apuleyo Mendoza, ex-embaixador da Colômbia em Lisboa, no jornal de Bogotá El Tiempo: "Chávez procura ocultar, por trás dos estrépitos de um conflito externo os agudos problemas que tem dentro de casa (...). Os venezuelanos estão hoje afectados por uma inflação que supera 22 por cento, pela falta de produtos básicos, pela fuga de capitais, o mercado negro, o desemprego, a insegurança e a corrupção.".Tendo-se assumido como o sucessor de Fidel Castro na liderança da esquerda anti-imperialista na América Latina, Hugo Chávez não perde uma ocasião para afrontar o poderoso vizinho do Norte, mesmo que para isso tenha de apoiar-se num grupo de guerrilheiros transformados em sequestradores e narcotraficantes . Há outra esquerda no subcontinente, com outra matriz e nela se inscrevem os presidentes em exercício no Chile, na Argentina e até no Brasil. As duas esquerdas confrontam-se.